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segunda-feira, 21 de abril de 2014

[PREVENIcaNDO]: Vai uma cartada?


O Baralhações é um material de dinamização de grupos que um dia tive a possibilidade de criar. É um baralho de emoções através do qual muitas reflexões podem acontecer a partir de uma abordagem lúdica. Porque nem todas as prevenções são universais e porque nem todas as dinâmicas são de grupo, escolhi uma experiência que tive com este material para o ilustrar.
Habituamo-nos a pensar a prevenção como algo que acontece antes dos problemas que queremos evitar mas frequentemente lidamos com situações em que procuramos prevenir que os problemas venham a ser maiores do que já são. Esta é a esfera da prevenção indicada e nela se movem profissionais e indivíduos que gerem situações de risco presente que se deseja que não passem a risco instalado. Era esta situação que eu tinha pela frente com um jovem que apresentava consumos esporádicos de cannabis. Falava-me da confusão dos seus sentimentos e da dificuldade de os gerir, da incapacidade de os ler corretamente quando expressos pelos outros e sobretudo do seu jeito desajeitado de dar resposta. Propus-lhe que batêssemos uma cartada.
Achou que eu estava maluco - o que em psicologia dá sempre jeito para que o outro não nos veja de forma tão ideal - mas aceitou quando me viu puxar do Baralhações. Explorou algumas das cartas e dos desenhos bem dispostos que o ilustram e perguntou-me como se jogava. Disse lhe "tem dias". A convicção do meu "amalucanço" aumentou. Expliquei que o jogo que íamos jogar mudava consoante o dia, mas que, hoje, era muito fácil. Cada um de nós teria cinco cartas ao acaso e que iríamos simplesmente bater umas cartas. Cada vez que puséssemos uma carta na mesa poderíamos ir ao baralho buscar outra. Estas eram as regras básicas, mas consoante as situações as regras poderiam mudar. Ele concordou e começamos a jogar.
 
A primeira carta foi minha e perguntei-lhe o que é que ele achava que a imagem representava. Era uma cena qualquer em que um grupo se divertia numa festa. Disse-me que parecia representar alegria. Perguntei lhe então o que é que eu quereria dizer jogando uma carta de alegria. Pensou um pouco. "Pode querer dizer que está alegre... Ou desafiar-me para ir a uma festa... Sei lá." Sugeri-lhe que batesse uma carta de resposta. Olhou para as suas cinco cartas e acabou por escolher uma outra em que três amigos parecem pousar para uma fotografia com um a fazer corninhos ao outro. Fui ao baralho e procurei nele a carta que me interessava e coloquei-a em cima da mesa. Quando foi a vez de ele biscar disse-lhe que não podia escolher. Teria de tirar uma carta qualquer ao acaso. Reagiu. "Isso não é justo". Expliquei-lhe que nem todos tínhamos acessos às cartas da mesma maneira e que se ele queria jogar teria de aceitar a regra. Rabujou mas acabou por lançar uma segunda carta. Repeti a procura da carta que mais me interessava e quando ele se apressava para biscar disse-lhe que, embora pudesse fazê-lo não poderia ver a carta. "Então para que é que serve?" "É um recurso que tens. Sabes que o tens mas não sabes qual é". Voltou a rabujar. Com menos cartas visíveis a tarefa dele tornou-se mais difícil. Não tinha cartas de jeito. E ainda por cima não podia ver a última. Disse-lhe que podia passar. Deu-me a vez e eu fui buscar nova carta e dei continuidade a este diálogo de emoções. Disse-lhe que como não tinha deitado uma carta fora não poderia biscar, mas eu permitia-lhe trocar uma carta que não lhe interessasse por outra do baralho, com a condição de ele não poder ver a que biscasse. Embora não gostasse da regra aceitou-a. Passou a ter duas cartas desconhecidas e três que pouco lhe interessavam. Concordamos que, ao não jogar, não só a situação dele não melhorava como eu poderia começar a desinteressar-me dele. Disse-lhe que respondesse de qualquer modo. Ou com uma carta completamente dissonante da minha ou arriscando uma carta das desconhecidas.
O jogo continuou com outras peripécias mas no fim o resultado foi uma grande irritação com o resultado daquele diálogo. A conversa sobre o jogo ajudou o jovem a rever-se na dinâmica. De facto nem sempre temos ao nosso dispor as cartas que queremos, às vezes porque o nosso baralho é pobre, outras vezes porque não sabemos jogar com as cartas que temos outras ainda porque não nos conhecermos suficientemente bem para sabermos das nossas cartas. Aí, claramente podemos optar por nos retrairmos e sair do jogo, ficar a ver sem participar ou arriscar, e mesmo podendo parecer estranho, o diálogo permitirá a troca e o crescimento. O sorriso de se ver ilustrado no jogo permitiu-me perceber que a mensagem tinha sido captada. Ficamos um pouco mais a explorar o jogo com outras regras malucas, umas minhas outras dele, mas a cartada seguiu animada. No final da sessão despediu-se a rir. "Ninguém vai acreditar que estive a tarde a jogar as cartas consigo." "Pois. É tão plausível como dizer que me diverti imenso com os teus problemas".
Enfim. Quem disse que a prevenção tem de ser muito séria? O importante é que faça sentido.

Raúl Melo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

[PREVENIcaNDO]: Quantos Lados Há?


Todos aqueles que trabalham com grupos, todos os que trabalham em contextos sociais desfavorecidos, todos os que trabalham com populações de risco já se confrontaram com a necessidade de se posicionarem. És dos nossos ou estás contra nós? Dás a cara ou passas despercebido? Intervir com grupos de risco coloca-nos numa posição estranha de nos identificarmos com eles. Como aprendi há uns largos anos atrás, as instituições que trabalham com populações segregadas, acabam de algum modo por ser encaradas como marginais, necessárias, talvez mesmo até nobres, mas regendo-se por regras necessariamente mais próximas da sua população do que da população em geral. Esse é o preço da proximidade e é um preço importante de se pagar em função do que é importante ser feito, numa sociedade em que o bem-estar colectivo é responsabilidade de todos.
Daí que pensar sobre o assunto, fazer pensar, é essencial no processo preventivo. Se vos dissesse que vos daria a possibilidade de descarregar um problema nas costas de alguém, vocês aceitariam? Se vos desse um autocolante e vos dissesse que esse autocolante era um problema e que vocês poderiam escolher alguém em quem o descarregar, aproveitariam? A dinâmica é simples. Todos os jogadores recebem um autocolante e por um período muito curto de tempo podem livrar-se do seu problema, desde que seja nas costas de alguém. E o que é que acontecesse? Alguns recusam-se a fazê-lo porque não querem sobrecarregar ninguém com o seu problema. Outros encaram a regra com entusiasmo e procuram activamente descarregar o seu problema, nos vizinhos, nas pessoas com quem têm mais à vontade, ou simplesmente em quem calhar. Por vezes no entusiasmo de descarregar colocam-se sem posições desfavoráveis e tornam-se alvo das descargas dos outros. Em consequência… uns acabam com mais problemas nas costas do que outros. Normalmente essas pessoas são aquelas que no momento indicado estavam no centro do grupo, acessíveis… Enquanto outras estavam na zona periférica do grupo, estrategicamente ou não, menos expostas… E a reflexão decorre com constatações e consciencializações que preparam os jogadores para uma nova rodada de problemas. Desta vez, aqueles que têm mais problemas nas costas estão mais limitados na sua movimentação. São mais lentos ou até mesmo estáticos, estão cegos ou impossibilitados de se defenderem. Esse é o peso dos problemas. Limitam-nos. O jogo prossegue porque há sempre novos problemas para descarregar. E com a aprendizagem anterior os jogadores entregam-se à dinâmica. E após nova descarga a reflexão regressa. Por vezes o centro do grupo esvazia-se porque se sabe que quem se põe a jeito apanha com mais problemas. Outras vezes os jogadores sobrecarregados recebem mais uns quantos problemas porque “assim como assim” eram quem estava mais à mão de semear. Outras vezes ainda alguns jogadores percebem que podem trocar problemas dando o seu em troca do outro. E a compreensão estabelece-se que os problemas, quando bem distribuídos não representam sobrecarga para ninguém. E que o medo irracional do mal que os outros nos podem fazer torna-nos jogadores ferozes que se protegem dos outros e se possível se livram do que os sobrecarrega.
E, finalmente, se jogássemos este jogo em grupo, cada um deles com os seus elementos frágeis, lentificados ou paralisados, cegos ou impossibilitados de se defenderem, o que é que aconteceria. Alguns grupos escolheriam estes elementos como alvo nas equipas adversárias. Outros protegeriam os seus elementos frágeis abdicando do ataque aos outros, outros ainda encontrariam estratégias para que todos pudessem ser parte activa quer no ataque quer na defesa. Mas nunca, mesmo nunca, vi duas equipas trocarem de problemas dando o seu em troca dos outros.
E quando pensamos sobre isto é inevitável pensar de que lado estamos? Do nosso, do deles ou do de todos? Do lado de dentro ou de fora? Na frente ou atrás? Acima dos outros, ao lado ou abaixo? Ou conseguimo-nos ver entre lados, equidistantes, preenchendo vazios, ligando partes?
Como nos posicionamos para ajudar? Ensinamos estratégias de defesa ou de ataque? Motivamos para novas batalhas? Acolhemos as descargas que resultam da revolta, da marginalização, do sentimento de injustiça? Ou ajudamos a crescer num mundo onde os problemas se descarregam mais do que se partilham?


Raúl Melo

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

[PREVENIcaNDO]: Um Outro Eu


Retomar a escrita depois de tanto tempo passado, é como reencontrar o sentido de uma frase deixada em suspenso… Por vezes as interrupções quebram a ligação entre os membros de um grupo. Porque é que eu estou aqui? O que é que me apetece dizer de novo? Este é um drama frequente no início de uma sessão de grupo quando se pede ao participante para se ligar aos outros. Dê de si, mas use o seu direito a proteger o que quer manter privado. Apresente-se sem se revelar, ou revele-se sem se apresentar…
Como se faz isto? Simples… crie um outro eu… Esta dinâmica de apresentação requer que cada participante, através de uma mentira se apresente ao grupo e dê uma justificação para se encontrar naquele lugar àquela hora. “Estou perdido e segui o pessoal que vinha para esta reunião”. “Sou um holograma e de facto não estou ali”. “Estou aqui porque não tinha outro sítio para estar”. “Sou um extraterrestre e venho aqui tomar notas sobre os terráqueos”…  A dinâmica solta o riso e revela a criatividade de cada um, dá indícios sobre a motivação e diz um pouco sobre os níveis de defesa com que se encara os outros que ali o rodeiam. O outro eu é uma construção colorida, é uma funcionalidade cumprida ou apenas o negativo do que se é.
Pelo caminho o dinamizador pode ensaiar pequenos diálogos testando a consistência da criação, alargando o falso eu em terrenos adjacentes à motivação para estar ali. De onde veio? Onde vive? O que faz? Quais os interesses? Os sonhos? Os segredos?
O eu assim criado pode ir para além da simples tarefa de apresentação e desenvolver-se numa construção progressiva de enredos que partem dos eus de cada um e os conduz a encontros impensáveis em contextos definidos pelo dinamizador. “Eu sou o Tarzan e acabei de regressar da selva”. “Eu sou um Deus que desceu do Olimpo”. Encontraram-se num elevador que ficou preso entre dois andares. De que falam? Como interagem? Os enredos podem ser previamente seleccionados pelo dinamizador e tirados à sorte por cada par. A dinâmica pode-desmultiplicar-se por diferentes sessões funcionando como um aquecimento em continuidade. Novos emparelhamentos permitem a continuidade da construção do novo eu testando a sua coerência e dos encontros entre pares pode passar-se a convívios mais alargados onde cada personagem pode apresentar aos outros personagens que conheceu antes e trocarem pequenas histórias caricatas de encontros prévios…
A partir da oportunidade para se defender não dizendo nada de si, diz-se tanto através do que não se diz.
Afinal qual é mesmo a razão que o/a trouxe até este texto?

Raúl Melo

domingo, 7 de julho de 2013

[PREVENIcaNDO]: No Return


Talvez por estar fora do país, o título saiu em estrangeiro, mas o sentido da mensagem mantém-se em bom português. Sem retorno. Sem retorno de quê? Sem feedback, sem imagem de espelho, sem… existência. Da minha formação clínica aprendi que o que não é dito não existe. Pode ser sentido, pode ser vivido pelo próprio, mas se não é partilhado nunca aconteceu. É o outro que nos valida na sua reacção, que nos baliza com sinais que nos encorajam a continuar ou nos diz que mudemos de rumo. Daí que o contacto visual desempenhe um papel tão importante na comunicação. Por isso a comunicação oral, à distância, recorre às entoações para inferir o que o olhar não pode ver, e a escrita procura na estrutura da frase o que o som não traduz e a imagem não ilustra. Por isso o vazio é tão incómodo quando nada nos orienta para além na nossa confiança, entusiasmo e estupidez natural.
É isso que acontece quando sentamos duas pessoas uma à frente da outra e alteramos as instruções que orientam a sua comunicação. É fácil sobreviver a um pedido de dois minutos de conversa perfeitamente normal face a face. Mas o que é que acontece se as duas pessoas se vêm obrigadas a rodar as suas cadeiras e a conversarem de costas voltas uma para a outra? É tranquilo?  Ou temos tendência para rodar na cadeira e procura ver o outro com quem falamos? É diferente se conhecemos o outro ou se nos é desconhecido? Segue-se um pedido de dois minutos de silêncio, olhos nos olhos com a instrução de não comunicar. O tempo arrasta-se ao longo de segundos intermináveis. Os olhos evitam-se para que a comunicação não aconteça. Por vezes sai um sorriso imediatamente travado pelo dinamizador. “Não comunica! Sorrir é comunicar!” Por fim a experiência termina. “É horrível” “Não sabia o que fazer!”
Então a instrução muda de novo. Um dos elementos do par fala ininterruptamente para o outro que tem como tarefa não reagir, não comunicar, não… nada. De novo o tempo arrasta-se. O falador inventa um tema que despeja para cima do outro que o olha impenetrável. Por vezes usam-se estratégias de provocação, fazendo perguntas de resposta proibida, ou contando uma história hilariante que põe a capacidade de controlo do Ouvidor em causa. Os papeis trocam-se e a cena repete-se. “É muito estranho falar para quem não nos responde”. É terrível não poder reagir. Dava comigo a fazer um esforço desgraçado para não abanar a cabeça, fazer sons ou simplesmente inclinar-me para o outro. Finalmente o desafio máximo. Ambos falam ao mesmo tempo, não um com o outro, mas sobrepostos um ao outro. Durante dois minutos gera-se o caos, com pares alucinados, falando sem dar ouvidos ao outro. Cada pausa no discurso é uma oportunidade para o outro nos distrair. Os jogadores agitam-se, o ritmo do discurso é frenético… ou morre simplesmente perante a impotência do jogador se manter no exercício.
A reflexão invariavelmente anda em torno do desconforto, da impossibilidade de não comunicar, da perda de qualidade relacional perante a falta de feedback do outro. “Senti-me tão sem graça” dizia alguém no decurso da reflexão. “A única forma de conseguir fazer o exercício foi esquecer que estava a falar para o outro e pensar que o estava a fazer para mim, simplesmente para preencher o silêncio, para mostrar que era capaz.”
Talvez esta experiência seja apenas um exercício doloroso que se faz em dinâmicas de grupo. Talvez seja algo que acontece em algumas relações quando a qualidade das mesmas começa a fragilizar. Talvez seja apenas um sentimento mais corriqueiro que se pode sentir quando se escreve para uma rubrica de um blog para gente pensadora que não tem tempo ou disponibilidade mental para deixar um comentário.
No returns.

            Raúl Melo

sábado, 15 de junho de 2013

[PREVENIcaNDO] Alô? Está alguém ai?


Quando nos atrasamos nos nossos compromissos ficamos naturalmente com receio das consequências. Ficaram chateados comigo? Não contarão mais comigo para outras coisas? Cortarão relações? Esquecer-se-ão de que existo? Foi isso que aconteceu comigo em relação ao presente texto.
Vergonhosamente a vida não proporcionou um tempo e um espaço para corresponder ao meu compromisso. Este vazio, este silêncio imposto pela ausência, deixa no ar o receio da quebra de um contacto, uma interrupção na estabilidade de uma relação que se vinha mantendo. Quais são as implicações? Naturalmente a primeira é o sentimento de ansiedade que se traduz no desejo de ter feedback do meu retorno. A procura de algo que me securize sobre a manutenção do contacto pré-existente. Depois a necessidade de reparar a falha, dizendo mais, sendo mais demonstrativo, querendo dizer ao outro que é importante, querendo saber se sentiu a minha falta. Se o feedback tarda, se a reparação não é possível fica um sentimento estranho que cada um resolve ou integra à sua maneira, reorientando a sua comunicação, remetendo-se ao silencio, aguardando estoicamente o retorno da comunicação. A opção terá a ver com a minha capacidade de lidar com o tempo, a confiança que tenho em mim e na relação que tenho com o outro, na importância que dou a essa relação, no contexto em que ela se enquadra, no meu estado emocional à data… tanta coisa… Mas ao limite tem a ver com a relação e como tal tem a ver com aquilo que trabalho quando intervenho na prevenção.
Uma das dinâmicas a que recorro quando quero trabalhar este tema, é de uma simplicidade atroz. Começo por pedir aos participantes que procurem um lugar na sala onde se instalem confortavelmente de olhos fechados. Depois, muito simplesmente circulo pela sala tocando-os de modo a ligarem-se ou a desligarem-se do mundo (se estão ligados o toque desliga-os). Quando ligados, cada um decide como se quer ligar ao mundo, sendo que não pode abrir os olhos nem sair de onde está. Mas pode falar, cantar, fazer ruídos ou mesmo… ficar em silêncio. E o jogo vai decorrendo, comigo a deambular por entre o grupo, permitindo ou interrompendo conversas, brincando com o ritmo com que se liga ou se desliga alguém, alargando ou reduzindo a rede de pessoas em contacto simultâneo. No final de 5 minutos, gera-se a reflexão em torno da experiência. “Senti-me muito sozinho. Ninguém me respondia.” Fiquei chateada porque fiz-lhe uma pergunta e ele não respondia. Só depois é que percebi que se calhar tinha sido desligado.” “E eu aflito porque ela ia ficar chateada comigo!”. “E preferi ficar calado a ouvir as conversas”. “Eu não sabia o que havia de dizer. Mas depois reconheci a voz de alguém que estava ao pé de mim e tudo se tornou mais fácil.”
A relação encontra os seus caminhos por entre os silêncios. Alguns são incómodos, outros aguçam o desejo do reatamento. Alguns são pesados, outros são preenchidos de significado. Os silêncios pautam a relação, dão-lhe cadência, criam espaço para a imaginação que os preenche, a dúvida que alimenta a comunicação, que por sua vez alimenta a relação.
Peço desculpa pela minha ausência… a relação segue dentro de momentos.

Raúl Melo

sábado, 11 de maio de 2013

[PREVENIcaNDO]: Em Torno da Comunicação

Já vos falei, em identidade (quem sou), do corpo, de como abrigo nele diferentes partes de mim e do espaço que ocupo, com quem o troco e o que o torna o meu espaço. Hoje vou falar-vos de comunicação. Estar com alguém, comunicar, é um factor protector essencial na prevenção. Como percebemos o que o outro nos diz? Encontramos algum significado no seu dizer? E esse significado encontra alguma ressonância nas nossas vivências do passado que nos permite seleccionar uma resposta? Tenho eu vontade de responder? E tenho eu as palavras para responder? E se o fizer consigo eu perceber como é que o outro está a reagir à minha comunicação? Este é o ciclo comunicacional onde pode surgir o bloqueio. A própria atitude, postura corporal, o tom de voz, poderão ser entraves quando entram em dissonância com a mensagem. Finalmente a própria motivação ou disponibilidade emocional introduzem ruídos na comunicação que estão frequentemente na origem de mal entendidos e da construção de distâncias entre as pessoas.
O dizer algo a alguém é pôr fora de nós o que está unicamente na nossa cabeça, dando-lhe deste modo existência partilhada. Dizer é manter a ponte entre duas pessoas, protege-la da erosão do ritmo e do tempo.
Há inúmeras dinâmicas que se debruçam sobre este tema. Pedir a cada elemento do grupo que transmita uma emoção específica (apenas do seu conhecimento) ao dizer uma frase específica, permite aos jogadores consciencializar quais os elementos que permitem identificar a emoção transmitida. Frequentemente os jogadores recorrem à linguagem corporal para melhor exprimir a emoção mas o dinamizador poderá dificultar-lhes a tarefa pedindo que a mensagem seja transmitida sem a possibilidade dos receptores visualizarem o emissor. Conseguirá o jogador colocar na entoação, no ritmo dos discurso ou na dicção os sinais que permitam identificar uma emoção? Esse é sem dúvida o desafio.
Noutra perspectiva pode-se pedir para que alguém comunique uma ideia sem poder utilizar a palavra que diretamente a identifica. Pode-se pedir a diferentes jogadores que adoptem ao longo de uma conversa normal, um conjunto de posturas (estar de costas para o grupo, abanar repetidamente a perna, posicionar o corpo orientado para que comunica, bocejar constantemente, …) e pedir no final que as pessoas transmitam o que sentiram ao longo da conversa em termos de atitude ou receptividade por parte dos colegas. Pode-se pedir que uma mensagem seja transmitida à distância no meio de o maior dos ruídos, ou contar-se sucessivamente uma história passada de participante para participante e analisar-se a perda progressiva de conteúdos e quais os que conseguem ser mantidos inalterados até ao final da sequência.
São muitas as dinâmicas que podem ser usadas para trabalhar a comunicação. Mas mais do que as dinâmicas em si, é na reflexão que melhor se trabalha a comunicação. Contem-me o que se passou no jogo? Cada participante narrará uma perspectiva pessoal de uma vivência comum, Não há leituras certas e erradas, apenas leituras pessoais, feitas a partir da sensibilidade de cada um e dos filtros que a experiência impõe. O que é que sentiram no jogo? À acção alia-se a emoção em todos os seus gradientes. Haverá convergência ou divergência mas é na diferença que mais se aprende e no respeito pelo sentir dos outros. Como se organizaram para ultrapassar a tarefa? O emergir da estratégia, pessoal ou colectiva, partilhada ou imposta, passiva ou ativa, confere à acção um novo significado dentro do qual se pode avaliar a eficácia e a capacidade de adaptação. Qual era a metáfora deste jogo? A análise volta-se agora para os conteúdos, a mensagem subjacente à acção. Tem a ver com a cooperação, tem a ver com gestão de emoções, tem a ver com… E assim se estabelece uma ponte entre o lúdico e o quotidiano a meio caminho entre o agir e o pensar. E finalmente… O que aprenderam? O que fariam diferente se voltassem a jogar?
Nesta partilha todos são actores, uns porque se expressam, outros porque ouvem, outros ainda porque são a plateia do drama posto em cena. Até vocês, leitores, têm um papel nesta dinâmica. São validadores da vivência de alguém. E se alguma destas ideias dispersas der origem a uma nova acção, são perpetuadores… depositários… herdeiros...
Façam disso um bom proveito.

Raúl Melo

quarta-feira, 10 de abril de 2013

[PREVENIcaNDO]: Porque estão onde estão?


No último texto falei-vos do corpo como a casa que habitamos. Hoje falo-vos da vizinhança. Quando pensamos numa casa ela tem um enquadramento, está no centro da cidade, ou nos subúrbios, perto de outras casas ou isolada, é um castelo ou um piso térreo despretensioso. Pensar onde nos situamos face aos outros é um tópico essencial no plano preventivo.

Um dos momentos que recordo como de maior beleza na dinamização de grupos acorreu em torno deste tema. Tratava-se de um grupo de universitários que se preparava para assumir a condução de campos de férias de grupos de jovens em rutura escolar enquadrados pelo Programa para a Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil (PEETI). Estávamos no final da formação e tinham sido já muitas as dinâmicas aprendidas, estratégias equacionadas, técnicas aprendidas. Mas era importante que cada um pensasse aonde a formação o tinha levado. Pediu-se que cada um escolhesse na sala o seu lugar. O lugar que o situasse face aos outros e face a si próprios. Uns escolheram as janelas, pela luz, pela vista para o exterior, pelo calor ou simplesmente pelo prazer. Outros procuraram lugares junto àqueles de quem mais gostavam, pelo afecto, pelo sentido que encontraram no grupo, pelo calor humano, pela proximidade. Outros escolheram estar em locais confortáveis, porque era assim que se sentiam, bem com eles e com o mundo, prontos para o que aí vinha. Uns estavam junto às paredes pela protecção que estas lhes ofereciam, num futuro que se avizinhava trabalhoso. Outros ainda estavam junto às portas, como quem entra ou já como quem sai. A formação não fora fácil para alguns e a porta assumia-se como uma segurança que permitia repensar se a coisa corresse mal. Um a um todos falaram do sítio onde estava e porque é que ali estavam. Ouvi-os do centro da sala, requerendo o silêncio de respeito, saltando de elemento em elemento, como um processo circular. O cansaço, o calor de início de verão convidava a um remate tranquilo para o percurso feito em comunhão. No final havia sorrisos cúmplices e o campo estava claramente relaxado. Do meu lugar no meio da sala dei-lhes os parabéns. Também eu sabia o meu lugar e a razão de lá estar. Eu estava ali naquele centro porque naturalmente as coisas rodavam à minha volta. Mas sobretudo eu estava ali, porque todos eles estavam onde estavam.

Raúl Melo

domingo, 17 de março de 2013

[PREVENIcaNDO]: O corpo é a nossa morada


O corpo é a nossa morada.
Quando pensamos no processo preventivo, necessariamente em algum momento damos connosco a pensar o corpo que ocupamos, como ele nos preenche e nos limita, como o vemos e como nos vemos através dele.
A comunicação que estabelecemos connosco próprio através do corpo é incrivelmente importante para uma plena consciência de nós e é tão frequente não estarmos atentos, não valorizarmos a insónia, a dor de estômago, o maior ou menor apetite, a dor no peito, na cabeça… na alma.
Não é obrigatoriamente um tema adolescente, porque a nossa relação com o corpo é transversal ao longo de toda a nossa vida. Numa primeira fase é porque não é suficientemente grande, depois é porque tem borbulhas, ou porque não é suficientemente largo, é demasiado volumoso ou pouco atraente. Depois é porque nem sempre aguenta o que queremos que aguente, dá sinais de fragilidade que antecipa a aproximação do envelhecer. Aí entram as rugas, o maior cansaço, o esquecimento e coisas que tais.
Mas ao mesmo tempo o nosso corpo é a nossa morada. É onde recebemos os amigos, onde nos refugiamos quando estamos tristes, onde fazemos experiências e onde trabalhamos. Por vezes pode ser um espaço abandonado, a precisar de obras ou reparações. Mas o mais fascinante é que é também um espaço onde guardamos segredos com mais ou menos mistérios, com interditos e recantos sombrios a que não damos acesso a ninguém.
Onde localizaríamos esses espaços no nosso corpo. Esta é a pergunta de uma dinâmica simples onde cada um pensa em partes do seu corpo e lhe atribui uma função como se de uma casa se tratasse. Qual é a sala de visitas? Onde trabalho? Onde me escondo? Onde descanso? Onde escondo os meus segredos? Com recurso ao desenho ou com base simplesmente na reflexão, exploram-se significados no nosso corpo. “Eu recebo os meus amigos nos olhos”. “Eu não. Eu acho que é nas mãos, por causa do toque”. “O meu segredo está na barriga”. “O meu é a boca quando a fecho”. Há algum espaço da casa a precisar de reparações? “Sim os meus olhos. Ando a ver mal” “Sima a barriga. Estou gordo”, “Sim a minha cabeça. Ando a bater mal”.
Simbolizar o corpo é reduzir a relação automatizada que frequentemente temos com ele, ver para além da máquina que não pode falhar, descobrir outras funções para além do veículo que nos leva aonde queremos ir. Como cuidas da casa que habitas?

Raúl Melo

sexta-feira, 1 de março de 2013

[PREVENIcaNDO]:Eu já me apresentei?


É uma pergunta estranha de pôr ao 4º texto. Mas ela faz sentido a vários níveis. Acham que já perceberam o sentido da minha linha de escrita? Acham que já começam a vislumbrar a pessoa que está por detrás dos textos? Se sim, isso é bom? É bom saberem quem sou? Quais são as implicações desse tipo de assunção? Provavelmente passarão a saber com que contar de mim. Por isso passarão ao lado da rubrica, ou antes pelo contrário procurarão ler mais. Serei considerado mais previsível, o que reduz a necessidade de uma atenção. Serei assumido como um dado adquirido, o que reduz o risco mas também o investimento. E deste modo a relação prossegue na base da superficialidade e do pressuposto.
Esta questão é muito interessante no plano preventivo. Assumindo que a segurança depende do sentimento de pertença e da qualidade dos vínculos que se estabelece, uma prevalência de relações superficiais traduz uma rede de suporte frágil que apenas permite arriscar a partilha de medos banais e necessidades básicas. Ou então, procuramos suporte em forma de passagem ao acto, descarregando no outro, esperando que o acaso nos favoreça e que as expectativas que criamos em relação à ajuda dele não falhem e que alguém esteja lá para nós.
A necessidade de compreensão do outro, de perceber as afinidades, os estilos relacionais é fundamental na promoção de um bem-estar generalizado. Daí que nos processos grupais, a promoção regular de momentos de (re)apresentação cumpram um papel essencial. É possível continuar a descobrir no outro facetas que nos surpreendem. Uma das minhas dinâmicas favoritas envolve um saco de objectos. Como é que me apresento a partir do objecto que me sai em sorte? O que posso dizer de mim desafiando o concretismo do objecto. O que dizer de mim a partir de um preservativo? Ou de uma lâmpada? Ou de uma chave de portão? “Que sorte. Ao meu vizinho saiu um caleidoscópio”. A sorte pode ser madrasta, mas a vida é assim. Não nos sai o que queremos, mas o que nos é proporcionado pelo contexto e pelas oportunidades. Depois, tudo depende do que fazemos com o que nos é proporcionado. Recriamos? Inventamos? Invejamos?
A instrução remete para dizer alguma coisa de si a partir do objecto, mas os outros podem também ajudar. Eu sou o que de mim me apercebo, mas sou também o que o outro me devolve.
E o dinamizador inventa. “Partam para a troca. Se virem um objecto que vos agrade mais, negoceiem.” Acomodo-me ao que o acaso me destinou ou assumo-me como activo na procura de um Eu mais próximo do meu desejo? Saberei encontrar forma de me expor? De vender o meu objecto para o trocar por outro? Conseguirei eu perceber as necessidades do outro para as encontrar e usa-las como moeda de troca para obter o objecto por mim pretendido? E na perspectiva inversa, saberei eu resistir à pressão do outro e preservar o meu objecto e recusar uma troca que me é indesejada? Por dez minutos, jogamos num espaço protegido, realidades que se jogam todos os dias nas vidas de cada um. Há quem diga, que a artificialidade retira à dinâmica profundidade. Mas a metáfora não deve pretender substituir-se à realidade. Apenas ilustrá-la. Torná-la acessível à compreensão e à consciência. E com isso aumentar o poder de se agir sobre o que nos envolve e nos preenche.

Raúl Melo

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

[PREVENIcaNDO] O Nosso Espaço


A identidade de alguém constrói-se no espaço. Em termos de desenvolvimento, é na exploração do que está para além do conforto materno, com a aquisição da marcha, que a separação / individuação ganha efectividade. É na forma como esse espaço é explorado, no sentimento que envolve essa actividade, a maior ou menor ansiedade do adulto, a segurança de que o outro não desaparece com o afastamento, que se gera a confiança essencial na abertura ao mundo.
Alguns autores consideram que o mapeamento do real, a forma como nos posicionamos face ao que nos envolve, a capacidade de nos perdermos e nos reencontrarmos, tem a sua raiz nesse processo de estabelecer uma distância face ao objecto primário. A distância assim criada, cria espaço para o preenchimento de memórias e referências passíveis de serem evocadas na ausência. Esse preenchimento, essa evocação garante uma atitude tranquila face ao desconhecido. De algum modo o caminho de regresso será encontrado e uma cara conhecida nos esperará para ouvir a nossa história, as nossas aventuras.

Com o crescimento, muda o enredo, mudam os contextos, mudam os personagens, mas de algum modo repete-se a história. Itálo Calvino fala-nos da importância de descobrir o mundo para reforçar o sentimento que o nosso espaço, a nossa cidade é uma, é aquela onde nos sentimos bem e à qual regressamos sempre, mesmo quando maravilhados com o que o mundo nos oferece.
E como se gera esse espaço de pertença? O jogo de construção desse espaço não é simples nem tranquilo. Nem sempre é possível haver um quarto próprio. Nem sempre as nossas coisas, os nossos objectos são só nossos. Mas aquele que é possível, é recheado por nós com marcas que nos dizem e dizem aos outros que aquele espaço é nosso. Se esse espaço está dentro na nossa casa, tem os nossos desenhos, ou os nossos posters, os autocolantes, ou a roupa e o cheiro que só por nós é tolerado. Mas quando a densidade de ocupação da nossa casa o impede, saímos para espaços mais amplos procurando sítios que possamos chamar nossos. Pode ser o sítio onde jogamos à bola, o café onde os amigos se encontram invariavelmente, ou pode ser o lugar resguardado da vista dos outros onde acontecem coisas que não confessamos. Também esses lugares são por nós marcados, com o que mais tem a ver connosco, tags, graffitis, garrafas vazias, sons batidos pela noite fora…
Fazemos do espaço público o nosso espaço por umas horas para, pela manhã voltarmos à procura de novos contextos, uns mais organizados, outros ameaçadoramente marcados pela marginalidade outros ainda, plenos de oportunidades prontas a serem aproveitadas por quem tiver unhas para as agarrar. Este vai e vem entre espaços, entre pertenças, entre facetas da nossa vida, é entremeado pelas vidas dos outros que ocupam os espaços por nós deixados, as oportunidades por nós não aproveitadas, numa dinâmica fluida de coabitação.
A consciência deste processo é essencial na intervenção preventiva. O reconhecimento da importância do nosso espaço, a consciência do papel dos outros na consolidação desse território, na forma como exigem que o defendamos ou no modo como o respeitam, são conteúdos nucleares na dinamização de um grupo. O que torna um espaço, o nosso espaço? Numa qualquer sala somos capazes de o escolher pela luz, pela vizinhança, pela tranquilidade, ou simplesmente por estar livre. Como o ocupamos? Sentámo-nos nele, deitamo-nos, preenchemo-lo com o que temos no bolso, delimitamo-lo para que os outros lhe conheçam os limites. E como o abrimos à existência dos outros? Convidamo-los a entrar? Mantemo-los à distância? Trocamos de lugar com os outros? Com quem? Com aqueles que nos são mais próximos? Com aqueles com quem estamos mais à vontade? Com aqueles que nos chamam mais à atenção ou com aqueles que estão do outro lado da sala? As regras simples do jogo obrigam apenas ao estabelecimento de um contacto visual, um rudimentar sinal de combinação obrigatoriamente silencioso (não é permitido falar) e o arriscar da troca. Por vezes à má interpretação de sinais conduz a falsas partidas, a desvios a meio do caminho, a perdas de espaços conquistados. Como na vida real, aliás. E na reflexão que se segue, entre risos e desabafos, confessa-se o engano, a sedução, a satisfação e outras coisas mais que emergem da acção. O sentido da exploração do mundo lúdico, de braço dado com a descoberta do mundo real, reforça a reinvenção de sentidos e significados. A possibilidade de os viver, consciencializar e partilhar, é a base da reescrita de uma história vivida e contada muitas vezes. Mas na dinâmica preventiva, no seio do grupo de treino de competências pessoais e sociais, o tempo pára para que a palavra empreste algo mais à simples passagem ao acto.

            Raúl Melo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

[PREVENIcaNDO]: Tempo


É cedo, são seis da manhã e estou atrasado a caminho para o aeroporto. As viagens deixam-me sempre muito acelerado. Há todo um fascínio na ida para outro país mesmo quando o motivo é trabalho. O fuso horário muda, as gentes mudam, o ritmo muda. Contudo não muda da mesma maneira para todos. À minha volta há quem corra (mais do que eu), há quem se arraste pelos acessos às portas de embarque (afinal de contas não deixam de ser seis da manhã), há quem se descontraia, há que se exercite, há quem já jogue um jogo qualquer na consola. O tempo, sendo comum a todos, é ao mesmo tempo tão diferente. Para uns pode ser denso, para outros fluido, para uns pode ser viscoso, chato e interminável, para outros é solto e rápido. No entanto, estamos todos no mesmo tempo. Ou não estaremos? Se isso é indubitável no que diz respeito ao tempo físico, já não o é no plano biológico (idades, origens geográficas, sexos,…) ou no plano psicológico (tristeza, alegria, stress, tranquilidade,…) em que a vivência do tempo é muito diferente.

Usei frequentemente nas minhas dinâmicas de grupo, o exercício de dar a pessoas diferentes, uma tarefa de natureza variada e pedir-lhes que contassem tempo. Assim, enquanto uns corriam pela sala, outros enfrentavam as paredes, outros tinham de olhar fixamente os olhos de um desconhecido, enquanto outros ainda se mantinham em posições que diferiam na escala de desconforto. Invariavelmente o mesmo intervalo de tempo esticava ou encurtava consoante a contagem era feita por alguém que se sentia bem ou mal na tarefa.
Porque é que eu usava esta dinâmica num grupo de formação? Porque frequentemente nos confrontamos com situações em que reagimos aos outros sem levar em consideração a sua vivência particular do tempo. O contexto escolar, por exemplo, obriga a processos muito complicados de adaptação a ritmos e tempos diferentes. A cadência da exposição do professor, o “compasso” das diferentes matérias, o impacto do relógio de necessidades do nosso corpo, marcam de forma diversa o estar nas aulas. O cruzamento dos diferentes “estares” provoca uma cacofonia desarmoniosa frequentemente mal entendida e mal gerida por todas as partes. Mas também em casa esta realidade se verifica. É frequente que quando os mais velhos começam a acordar estão os mais novos a pensar em dormir ou vice-versa consoante a fase do ciclo de vida. De acordo com as tarefas, constroem-se críticas em torno do ritmo de trabalho ou do ritmo de laser. Nem sempre se encontram tempos compartilhados ou simplesmente ritmos paralelos. E se tal não acontece como se pode esperar uma construção conjunta, ou diálogo uma partilha? São já bastantes os projectos e programas de trabalho que fazendo da promoção de um tempo – interno e externo – comum, um ponto de partida para o entendimento, concentração e entrega. Este tipo de abordagem tem expressão em contextos tão diferentes, quanto o escolar, familiar, organizacional, clínico entre outros. É muito curioso pensar como o tempo pode dar espaço à relação, ao conhecimento, à consciência de si e dos outros. Da mesma maneira é curioso perceber como o espaço pode dar tempo à relação, ao sentimento, à identidade. Mas disso falaremos noutro dia.
Neste momento são oito da manhã. A correria deu lugar a um voo tranquilo e os pensamentos fugidios puderam finalmente concretizar-se neste pequeno texto que estava em atraso. E do tempo investido se gera tranquilidade e da tranquilidade emerge um tempo de qualidade. Fechemos os olhos e descansemos enfim…

Raul Melo

sábado, 19 de janeiro de 2013

[PREVENIcaNDO]: PREVENIcaNDO


As primeiras linhas que incluirei nesta rubrica vou dedica-las ao nome. O nome é o que normalmente usamos para nos apresentarmos. Carrega histórias familiares, heranças que se passam de geração em geração, curiosidades na forma como são escolhidos. Os nomes são pequenos rótulos que escondem mil e uma histórias, chamam à atenção para quem os usa, ou ao contrário, são discretos e contidos, são afectuosos ou funcionais.
Ouvi mil histórias de outros tantos nomes nas múltiplas vezes que perguntei aos elementos dos grupos que dinamizei o que sabiam do seu nome. É um exercício simples que se enquadra nos jogos de apresentação. Para além de passarmos a saber o nome dos elementos que nos envolvem descobrimos o seu sentido de humor, diferentes abordagens à exposição pessoal, o moldar do que é herdado em algo com o qual nos sentimos confortáveis, e sobretudo como diferentes partes da nossa identificação revelam – entre múltiplas combinações de nomes e diminutivos – os contextos relacionais das pessoas que os usam para nos chamar.

Escolhi para a rubrica o nome PREVENIcaNDO e é com ele que me apresento. Recebi o meu nome de um jogo de palavras entre o prevenir, o brincar e o prevaricar. Resultou da influência de uma crença de que foi através do brincar que aprendemos tudo o que nos preparou para a vida e que é através desse brincar (sério) que deveremos continuar a aprender independentemente da nossa idade. Resultou também da procura de equilíbrios entre ser certinho e o procurar rupturas, entre ser o que é visível e o ser metáfora, entre o bem colectivo e a protecção do indivíduo.
Acredito numa atitude de prevenção, não enquanto o evitamento do que pode ser um problema mas enquanto o que promove o crescimento e protege, não garantir a estabilidade mas tirar proveito do risco para ensaiar a mudança e reinventar a comunidade. Acredito numa prática psicológica que procura estancar a dor e o sofrimento no seu ponto de origem. Acredito numa abordagem integrada do mal-estar onde os sintomas são apenas diferentes formas de comunicação, onde o pensamento clinico é uma base de construção do que poderia ter servido de protecção no evitar de uma patologia, onde a educação é uma fonte de inspiração estratégica não para a formatação ou influência mas para a descoberta do desejo de aprender e descobrir, onde o social é um jogo de cenários onde o crescimento se dá num compromissos entre contextos com regras e códigos próprios que moldam aqueles que por lá passam.
Acredito no papel de todos e cada um na promoção da mudança. E não podendo garantir que todos se envolvam, pelo menos partilho convosco um pouco do meu envolvimento, na esperança que o contágio se revele não apenas na doença mas também na saúde…  e sobretudo na atitude colectiva que a promova.

Raul Melo

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Raul Melo, novo autor


            É com muito agrado que comunico a participação de Raul Melo como novo autor no Psicologia Para Psicólogos!
            Raul Melo, sócio fundador da ARISCO, é Psicólogo Clínico. Trabalha actualmente no Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências do Ministério da Saúde, onde desempenha também funções no Conselho de Coordenação dos Estágios da Carreira. Além disto, é Secretário Permanente do Fórum Nacional do Álcool e Saúde. Poderão consultar esta informação no separador “Autores” da página do blog.
O Raul ira estar a cargo da rubrica “PREVENIcaNDO”, que será apresentada já amanha com a sua primeira publicação!
Desde já, as boas vindas!
Psicologia Para Psicólogos