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sexta-feira, 7 de março de 2014

[Mudança]: Isaac Newton era Agricultor


Isaac Newton era agricultor
- Como pode surgir o foco na criação de projectos sociais? -

“Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina, com o resplendor da tua fé e do teu amor. “
S.Josemaria Escrivá Caminho, n.1
Temos também em nós a natural mutilação de ideias, também somos nós os comedores de rasto. É aceite pela sobrevivência e pela luta contra o tempo-urgente: precisamos do chão de agora, do número e da data, do terreno fértil e da festa de inauguração.
Na concomitância, existe a espera, a criação, o encontro e o acaso, que são vizinhos e que às vezes dão-se mal.

Escuto-me.

As partículas de luz esperaram pelo acaso; apareceu o significado depois do encontro. Analogamente falo das ideias e da grande responsabilidade a que nos sujeitamos: sermos o motor que escolhe o agente, o objecto, a acção e a razão.
Tal como a luz, não se cria autoritariamente nenhuma lei, nenhuma ligação, nenhuma mudança. Colabora-se, com o encanto da atenção e da disponibilidade.
Naturalmente, se quisermos ser preconizadores de ideias, podemos pensar neste caminho: as pessoas procuram o encanto das raízes, do ser-aqui. A vivência de ser-aqui e não de ser-em-qualquer-sítio, do seria-igual-em-qualquer-sítio ou da vigência de se ser. As pessoas procuram através da sua natureza exploradora e existencial a forma de conhecer a história e a cultura, de se conhecerem e de se desenvolverem com a responsabilidade desse conhecimento. Reconhecerem a responsabilidade e a ideia. Respeitarem a alma, que só pode funcionar num único mundo de uma forma única, a alma como nuvem irrepetível e irreparável. A alma de estar, de ser, de crescer e de criar, que existe com alguém para este sítio e para este momento, como um júbilo do cosmos.
Por isso, que a questão do foco não nos atemorize. Onde está o foco? Treme a ciência, a investigação e os relatórios de projecto. Assustar-me-ia se perdesse eu um dia num jardim o motor que liga as ideias e as transforma numa e depois noutra.
Tudo o que já conhecemos e que respeito, porque foi, acredito, encontrado e criado para existir também - os prazos e a definição – dão-nos o prazer do movimento ao calendário; e esse prazer pode depois ser vazio, onde ao conseguir respeitar o número acaba depois o ventre do tempo. Para mim são essas as metástases da criação sem alma, sem vida e sem história.
Se a sobrevivência pede a definição, a definição também pede as raízes, a terra segura, quente e confortável, o sentimento de ter sido criada para ali e não para outro sítio. Chamo-lhe identidade.
Chamo-lhe conhecer de dentro para fora e repito a semântica: a história, a cultura, a primeira arte, as raízes, o encanto do bairro, o brilho do chão, as danças de anos, os sabores que se lêem, os instrumentos que se estudam, o tempo que não é dia nem é noite.
Porque acredito nas emoções e no compromisso com a humanidade, acredito também que a economia, a matemática e as leis da física são uma forma de sensibilidade. A economia avança também através da atitude emocional, de um trabalho reflexivo enérgico e sensível.
Também Newton estudou filosofia e teologia e depois viu e sentiu a maçã; pensou sobre a maçã; comeu a maçã. Também ele estava atento aos estímulos, à natureza, ao redor, ao redor de dentro. E teve ele a oportunidade para questionar mais e ficar encantado com isso, atento e disponível para o que o distanciava das leis.
Acredito, eu, que optar pelo poder de escolher, de limitar, de criar apenas no que conhecemos e para o que conhecemos pode funcionar se vivermos confortáveis com a hipótese escolhida. Mas também podemos finalmente ver coragem e ligar estímulos que viajam connosco para outra língua e para outros símbolos. O significado nasce e viaja e somos nós o seu veículo; e somos nós parte do motor.
Não posso ser mais objectiva, quando quisermos falar de foco. O foco é o momento certo e esse sabemos que existe, sabemos que o conhecemos e sabemos que é alcançado também através de encontros pela metodologia de contacto e de descoberta humana que se chama Intuição.
Quando um homem cria um objectivo e escolhe um foco, obriga-se a ser magnânimo. E pode ser. Mas as pequenas coisas estão neste momento a perder os olhos que as vêem e que se renovam sempre maiores quando trabalhamos com pessoas.
Aqui, quando acordamos, percebemos que foi criado o novo verbo.

Ana Rita Caldeira da Silva

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

[Mudança]: Nós de Prata

Nós de Prata - A identificação das necessidades nas famílias

Tinha uma árvore no quintal.
Da árvore caíram as folhas.
Quando estava em baixo, não tinha sombra.
Quando estava em cima, não tinha colo.

Os sistemas eclodem, celebram e necessitam, como parte da transformação. De todas as gavetas vemos uma que nunca se fecha: imergir em si, na unificação dos seus processos de vida. No compromisso, no júbilo e na autonomia dos vínculos. Esta imersão perfura a ecologia, sem rei, origem e causa.
Quando um sistema identifica necessidades, dificilmente são a do sistema, mas criadas pelos modelos e separadas do sistema. E nestes pedais, se quisermos estes pedais, quantas vezes as necessidades são identificadas pelo próprio? Quantas vezes são separadas as necessidades? Transformemos o role-play em verdadeira terapia.
Transformemos e transformem a necessidade apenas numa palavra, enchendo-a com os intervenientes. Activos e transformadores da própria necessidade.
Dimensionemos e dimensionem a necessidade, numa relação activa com os recursos, na arte do barro do que precisamos.
Escolhamos e escolham a direcção, que começa no ambiente ou na necessidade.
Seja assim a necessidade: não o ponto cego da vida de um sistema, mas o único miradouro onde se sentam ao final do dia e que os liga à memória.
E numa família salpicada de precisar, há a oportunidade das parcelas - a força colaborativa,- mas também existe com eles a força una e integrativa. E a questão recria-se no sujeito e no verbo: de que forma podemos transformar as necessidades com o que temos/somos?
No final do dia, a necessidade que foi superada foi única que não se identificou. Não era de ninguém.


Ana Rita Caldeira

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

[Mudança]: A Arte Antes do Desenvolvimento


Há uma acordo entre o corpo e o tempo e a essa circunstância chamou-se arte. Do conflito, surgiu a combinação. 

A arte antes do desenvolvimento: o diálogo do corpo
Existe uma Instituição num país de África, feita de jovens com as suas artes, cuja morada perdi e os nomes espero-os na memória que os devolve. Não sei para que lado do dia acontece, mas tenho a certeza de que acorda na arte do corpo e se prolonga da sua mente para o espaço. Não vejo que importe se a arte que se cria é de vanguarda ou se pertence ao passado do futuro; penso que não há livros de história de arte e deve haver poucas caixas de tintas acrílicas. Desta história tenho agora apenas o segmento que nos partilho, dito, com todos os olhos, pela fundadora: "Quando me dizem que não há recursos neste país, não posso aceitar. Há pessoas aqui a viver".
Como dialoga o corpo com a arte, antes do espaço disponível ao toque ou sem este existir? Como nos dizem as escolas modernas, é o desenvolvimento o elevador da arte? Como nos dizem as escolas modernas, é a arte o elevador do desenvolvimento? Nestas escolas - modernas - ensina-se arte e ensina-se desenvolvimento; admito. E muitas vezes não se cruzam, nestas escolas - modernas -, perdoem-me. Cronologicamente: a educação de infância utiliza a arte para estimular; nos anos intermédios, usa-se a arte como instrumento "de" e "para"; as faculdades reiteram delicadamente a arte, mas nunca as vi implantarem métodos de avaliação que cotem a criatividade. Nunca, até hoje, as escolas me surpreenderam ensinando através do que já existe em todos, sem necessidade de ser criado: a primeira arte. A que antecede o movimento e que está também antes do desenvolvimento; que não é apenas um veículo para um caminho de forma a chegar a um desenvolvimento específico e generosamente estratificado; que não necessita de complexos esquemas desenvolvidos para se captar. Hoje falo da primeira arte, da arte de dentro para fora, da arte como recurso já criado para que aconteça o próprio desenvolvimento, da arte como "recurso natural". Não acontece apenas durante o desenvolvimento / após o desenvolvimento; acontece antes, como a própria oportunidade de que aconteça. Aconteceu-nos.
Tento a clareza: todos devemos concordar que a arte no desenvolvimento funciona como motor, através da criação e utilização de diferentes mecanismos perante necessidades de adaptação que surgem e que se esperam esculpidas do interior para o exterior; concordamos também, arrisco, que o desenvolvimento coloca-nos lentes mais apuradas no olhar para a arte. Mas, nestes processos existe, transversalmente, a primeira arte: de procura, de exploração, de trabalho cognitivo e de socialização constante. Então concordemos que a arte existe já antes da adaptação, antes do próprio desenvolvimento. A arte que já está criada e que é o fio condutor que sai fora da nosso templo e que se estende mais além.
Quando não se aceitar a arte como "recurso natural", desafio um artista do MoMA a acendê-la em terras de Malangatana. Se for a sua arte e não a arte fora de si, será sempre uma aculturação constante do eu, onde a verdadeira criação é uma extensão do eu razão e do eu emoção, no tempo e no espaço que se liga.
Falo da arte que antecede, que integra a própria capacidade integrativa, criativa e exploratória. Que se usa do pensar e do descobrir para celebrar os espaços tão próximos entre imagem e conceito, os ínfimos tempos das culturas, das novas culturas, das outras culturas, das esquecidas culturas, desde que nos tornámos no Homem criador e construtor de sonhos.
E se um dia quisermos voltar à primeira arte, não nos espantemos, porque é sempre a última e a que, no meio, existe pelas mutantes.
Hoje fala-se em amnésia pública e penso que há-de haver alguém para reparar na amnésia do homem-artista, um educador antes do desenvolvimento, que quando não se pensa cria de fora para dentro e depois, para fora. E acabou.

Ana Rita Caldeira

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

[Mudança]: Qual é o sétimo continente?


"Qual é o sétimo continente?"
- Algumas considerações sobre o processo de mudança -

Sentou-se o ciclo, cruzou a perna:
"Sou um mutante, não me concluam".

Qualquer ciclo muda, entendam. Muda antes do seguinte, muda durante a sua rotação, muda cruelmente antes de se iniciar. A viagem é longa: comecemos por pensar, sem tolerância à primazia, que nós mudamos os ciclos e os ciclos pedem para mudar. Passo as correlações.
É possível pensar, ateoricamente, que estes movimentos genuínos se fazem a preparar o meio, aceitando a preparação na qual também este nos acolhe. É uma relação difícil, acena um sim a cabeça. É uma relação de partilha, de cedência, de controlo, de tomada de decisão, de atribuição de significados.
Todos vivemos em dois continentes: na geografia que nos acultura e na roda da imensurável coincidência circunstância-escolha chamada mudança.
Uma rua sem saída não está preparada para o atleta. Um rio sem vento não recebe o veleiro. Uma cidade sem mistérios não desafia o explorador. Tudo muda antes de mudar, diz-nos a Psicologia do Ambiente, mas também a Psicologia Cognitiva.
Ainda com esta cor de olhos, escolhemos o intervalo tempo-espaço para sermos mudados. Praticar a mudança dá-nos o papel de observador e depois, de escultor; depois, de observador do escultor numa relação criativa e exigente, neste compromisso da vida com a janela de Kafka.
Falo-vos de um globo onde existem sete continentes e onde o sétimo está presente nele mesmo e nos outros seis. Tem a circunstância, o espaço e as mãos incolores que sabem dar a volta ao mundo. O sétimo continente não tem nome mas por agora podemos chamar-lhe mudança, que é, como sabemos, o lugar onde acabamos sempre por nos encontrar.

Ana Rita Caldeira da Silva

sábado, 20 de julho de 2013

[Mudança]: Do know how ao kick-off


Do know how ao kick-off
Quantos estrangeirismos são necessários numa empresa?

"Today is the same as everyday, but yesterday is not today" Noiserv

Breve introdução: sou um dos parafusos de uma estrutura que gere equipas numa guerrilha de motivações. A empresa chama-se Connecta Group, um Contact Center no centro de Lisboa onde, no espectro organizacional, traça orgulho no seu capital humano. Miséria, sempre a minha, que escrevo sobre pedaços reais de horas e de pessoas: não experimentei de forma diferente, nas palavras sobre a organização com a qual partilho quase dois anos.
Comecemos: esperamos numa empresa a veemência das pessoas ao pensar, ao dizer e ao fazer, sendo o último movimento da trilogia o desafio latejante. Em critérios organizacionais e no dicionário dos stakeholders, do target, dos skills, dos briefings, do outplacement, do networking e do empowerment, sentimo-nos ás de espadas do itálico. Tudo se prevê obediente aos paradigmas.
Na empresa onde trabalho vivo com poucos estrangeirismo e muitos "actualogismos" da prática, que ainda se chamam aprendizagem, suporte, pragmatismo, método, curiosidade e por aí na viagem, nas estações que já nem sempre são tendências de livros ou artigos.
Por quantas estações passamos numa organização? Que palavras temos de usar para fazer acontecer? E assim, terminam as pontuações das histórias dos heróis nas empresas e começamos a falar de Profissionais de Mudança, onde o trabalho não se conclui, nem se pode concluir. Onde o trabalho temporário ganha tempo e pode ficar.
Primeiro choque: as ideias, as motivações. As pessoas, as pessoas que já não são românticas laborais, as que já não depositam motivação no trabalho - em qualquer trabalho -, nas funções humanas de elaboração, nas razões para o fazer.
Segundo choque: começar; não agir motivado no trabalho - em qualquer trabalho - . Gerir pessoas em equipas significa ser, também, arqueólogo de realidades.
Choques adversos: antes de gerir, fazer querer estar. Falo na motivação, falo nos hábitos, falo na mudança. Como se antes do sumo, fosse plantado o fruto. Então gerir pessoas em equipas significa ser, também, agricultor de pensamentos.
Choques colaterais: nas empresas tem que acontecer e as palavras perdem a força em milésimas de ócio. Então gerir pessoas em equipas significa ser, também, escultor de acções.
E expirando tanta manufactura, descobri que uma empresa colecciona histórias, métodos criativos contra o relógio e sinergias que convergem, depois de algumas colisões.
Na empresa onde eu trabalho vivem poucos estrangeirismos; não há receitas;  não há bibliografia só lida valha quando, ao fim e ao cabo, trabalhamos tão somente para pessoas. E por isso, a mudança nem começa, nem acaba: passa por nós e nós também por ela.
Não vos entrego conclusão.

Ana Rita Caldeira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

[Mudança]: "No meu livro, escrevemos nós"

"No meu livro, escrevemos nós"
A Psicologia co-construída

Aos homens que pensam deter as ciências, queiram permitir que elas voem pelo Mundo: a primeira aprendizagem acontece na partilha da observação e demora muitas pessoas.
É para todos, a Psicologia. Para os que a estudam, para os que a aplicam, para os que a lêem; para os que a esperam, para os que a descobrem, para os que a defendem. Sem a barreira da pontuação, a Psicologia é para todos. Apontemos as luzes para os que a pensam.
A primeira decepção: não há um mecanismo cognitivo e comportamental que a permita eficiente; não há um paradigma infalível; não há uma lista de regras semânticas. A Psicologia desilude: não é uma, não é sozinha, não é logo. É recriada, em todas as sessões. Neste pulsar, com o cliente, o processo nunca se replica: a Psicologia, quando é Psicologia, é uma orientação co-construída, de vida efémera. De sessão para sessão, a ingenuidade migra, por se descobrir um processo também escolhido, mais escolhido, pelo cliente; um ramo, que rega outro, até a árvore querer crescer. Uma palavra de apreço a todos os manuais galácticos que idolatramos, aos anos de anfiteatro. Afinal, são eles a nossa licença para aprender.
Numa prevaricação da escrita objectiva, falo de mim. Leio Rogers: fascínio pelos olhos que vêem a Pessoa. Antes-Depois, cachos de técnicas que nos tornam poderosos Profissionais do Humanismo. Para quem lê apenas: o rigor ainda sem teor. Uma vez (talvez ficasse lírico dizer que foi há muitas experiências, mas foi na imaturidade de dois anos) planeei uma sessão orientada para a história de vida de um cliente. Começou a linha. A caneta pousou. Percebi que não era preciso a linha, naquele dia. Não era esse o pedido. A linha ser-me-ia dada pelos segmentos e a cronologia não pedia urgência. Fui espaço, templo de validações, folha partilhada. Neste dia aceitei, finalmente, o movimento simples de saber que a Psicologia é uma relação e que nesta, há uma receita de palavras desordenadas: o cliente escolhe a primeira e nós orientamos a procura do sentido das seguintes.
Depois, nova ideia interrogativa, que tocou no ombro da anterior: que método tinha, que linha de pensamento seguia, o que me orientava. Sem perder o locus em mim, não temi aceitar que a resposta é também detida por cada Pessoa na qual me centro. A que conheço e a que virei a conhecer, em páginas terapêuticas co-construídas, histórias de tricot que sem começo, sem fim, param temporariamente onde conseguem aquecer. 
E a Psicologia - passo a cédula -, ainda é o espaço de relação onde um Homem consegue orientar Outro para o poder que tem no livro que escrevemos.

Ana Rita Caldeira

sábado, 8 de junho de 2013

[Mudança]: Bandura em Hierarquia


Pedagogia Aplicada ao Desenvolvimento Social

Fala-se em pedagogia: a que vive nas correntes, no design, nas políticas da educação, nos projectos financiados, nas metacriações, nos dilúvios estatais, no altruísmo dos que vão pela causa. Omnipresente.

Foco a lente na pedagogia aproximada às práticas de intervenção. Foco a pedagogia no desenvolvimento social e comunitário.
Não raras vezes, nascem projectos elaborados sobre refinados dogmas, destinados a uma população, com um how-to fabricado nas nossas ideias. Muitas vezes, dedicados a grupos de jovens. Adequemo-nos, nós, profissionais. Sejamos parte do processo e do seu nascimento; não as figuras distantes que escolhem os parágrafos certos dos livros. Adequemos as práticas, sejamos as práticas, conheçamos as pessoas, contemplemos as fases de vida, estudemos a pedagogia.

Vamos mergulhar num setting: sistemas – contexto de risco – relações intergeracionais conflituosas – desemprego – pirâmide de Maslow asfixiada (passo a causalidade tão linear). Depois, pensamos num projecto de intervenção, desenvolvimento e formação para os desafios. Aplaudimos os conteúdos: emoções – pensamentos - comportamentos – vínculos – papéis – resolução de conflitos – partilha. Clap – clap.
Talvez tenhamos que ser também outras práticas. Naturalmente, aqui estamos nós a existir e junto a nós, os nossos desafios intelectuais e tácitos, no caminho que nos cativa para o que há além. Assim, no trabalho com práticas pedagógicas e formativas em contexto de risco, com preâmbulos comunitários, podemos nós ser a corda que dá o sopro ao salto.

Peguemos de novo nas emoções, pensamentos, comportamentos, vínculos, papéis, resolução de conflitos, partilha (clap-clap) e construamos uma pirâmide de prioridades pedagógicas. Não só com os conteúdos: com as pessoas do sistema que são o início dos modelos sociais. A pedagogia, em pirâmide, com a colaboração dos elementos que transmitem o modelo geracional, usando o que já fazem, o que já conhecem, o que já funciona.  
Acções começam na prática com a valorização do que já existe, no fermento de ser maior. Não regar a corrosão; ser justamente a película que protege as competências que já respiram e que polvilha a motivação no seu desenvolvimento.
Quero ser mais organizadora: há uma população; há diferentes sistemas; há diferentes selves. Histórias de vida, de relações, de desafios, de pontos fortes, de mudanças. Qualquer acção pedagógica e formativa será o novo embrião, nascido top-down. A realidade que veste as práticas e que reforça a importância prioritária de também formar adultos, que são modelos para outras gerações. Adultos que têm práticas e que em contexto de risco, nem sempre são o target escolhido. Estes, também interrompem os seus estádios com desafios temporalmente muito próximos e negligenciam a sua formação e a consolidação de competências funcionais. Estes, são o modelo dos filhos, dos netos. Dos que estão perto.
Neste sentido (que é semanticamente um, no humanismo de muitos) somos nós, profissionais, também responsáveis pela Modulagem das pessoas com as quais trabalhamos. E se Maslow tem uma Hierarquia de Necessidades, vejo Bandura com uma Hierarquia de Modulagem: usar a pedagogia como veículo para formar modelos para as gerações. Também esta prática é piramidal e todos, enquanto crianças, do topo da pirâmide viajamos até à base. À base enquantos adultos, que também formam, que educam, que são pedagogos nos seus sistemas.
Pensemos, quando escolhermos mudanças, que a prática é o primeiro espelho onde o desenvolvimento se consegue reflectir.

Ana Rita Caldeira

domingo, 28 de abril de 2013

[Mudança] (ar)Riscar na Arte


Jovens e Processos Artísticos: Construir em Contextos de Risco

Quantas vezes a estação
É estação de novo.
E a viagem antecipa sempre a ideia,
de voltar a ser.

Liberto-me dos ensaios que concretizam conceptualmente pobreza e criminalidade. Partilho a recriação: jovens, pessoas numa continuidade descontínua de desenvolvimento; arte, hiato para que não haja espaço com barreiras de pensar, nem inércia de construir; contextos de risco, com desafios e necessidades de adaptação mais próximos no espaço e no tempo, que exigem um treino neuronal de tomada de decisão, num ambiente com menos recursos humanos e sociais para os valorizar.
Nesta medida, que há-de ser a minha medida, liberto-me do que pode ser a inclusão social e mergulho no que pode ser o desenvolvimento humano em contextos de risco, onde (sem também) há ruas, tempo, pessoas, desafios e nichos com o chão do crescimento.
Socialmente - reformulo -, economicamente, não sobejam as ferramentas pedagógicas e desenvolvimentistas, porque mesmo quem as pode manusear, os menos jovens, continuam em constante resposta ao meio desafiante, num invólucro tracejado em espiral.
Então, podemos falar em risco transversal e longitudinal. Risco de se bloquear em qualquer momento o papel no sistema, pelo infortúnio treinado de respostas menos adaptadas ao que o contexto grita. Idílico seria pensar em competências que calassem o balbucio barulhento e arrancassem a semântica que todos podemos perceber.

Agora o que pode ser a arte? Arte e Jovens. Harmonizar da criação. Possibilidade de construção. Fase que ainda não escolheu, que ainda não se habituou. A intervenção social, ancorada nas artes e aplicada aos processos de maturação e de escolha, pode ser a mudança que ainda não acordou. Neste movimento existe a vontade de empowerment comunitário, com quem ainda não perdeu a retina de olhar para o lugar e para o ser, apreendendo e movimentando-se. Em contextos de risco, as horas desafiantes, associadas a anos precários, colocam no palco o julgamento do território, que retira, que exige e que, na visão mais romântica, apenas permite sobreviver.
Os processos artísticos utilizados como ferramentas de intervenção comunitária e humana em grupos de jovens serão a folha em branco do pensamento criativo, exploratório e divergente, que procura novas respostas aos desafios, que sobretudo admite haver novas respostas. Seguindo esta assumpção a arte dará, em primeira instância, uma maior capacidade de adaptação aos desafios, nas suas diferenças e recompensas. Dará uma maior capacidade protectora às exigências sistemáticas, num escudo de controlo interno sobre o meio. Dará uma foz às próprias soluções, com responsabilização e júbilo, por assim serem. O contexto será a página que aumenta com novos significados, numa vontade revigorante de procurar sem querer encontrar, de viver as pessoas e de construir uma nova cultura de comunidade.
E quando se fala em arte, fala-se em tudo o que possa já ser ou que possa ser criado, mas sobretudo, criado numa visão gregária: não como um projecto pedido pelo relógio, mas aceitando que sem fim, as ideias da pessoa que vive ao lado são também uma nova motivação para recomeçar.

Oriento as palavras à apresentação da Emergência Social, IPSS que se dedica ao desenvolvimento comunitário no Bairro da Cruz Vermelha, na Alta de Lisboa. Suporte de necessidades básicas da hierarquia de Maslow, avança também nas competências sociais e valores humanos core. Equipa de Profissionais do Humanismo, com quem partilho ideias e intervenções, exerce um trabalho também focado nos jovens e no potencial humano de mudança que o processo de crescimento tem associado. Este ano trabalhamos as artes, no calendário de actividades Moviment´Arte, no qual em cada mês será trabalhado um processo artístico. Serão facilitadas actividades de expressão envolvidas em cada área e também integrada uma vertente de aproximação à prática, através de workshops. A ênfase é dada à construção de projectos de vida, ao desenvolvimento de competências, à descoberta de vocações e de novos significados e em grande cenário, a cultura de bairro como ar que inspira.

No que é caminho, arte e jovens em contextos de risco pretende ser uma relação dinâmica de conhecimento; lápis que cria; ruas que se vivem e não se temem; projectos de vida que devem integrar as fases de desenvolvimento, para poder ser desenvolvimento.
A arte, além de exaltar as respostas criativas aos desafios que se supõem sempre iguais, é caminho para a valorização pessoal, para a orientação a skills artísticos e para o fortalecimento da ideia de cultura comunitária. A arte, como fermentador do potencial humano que adormece.
O que nos acompanhará: criar as ideias será conhecer os novos comportamentos.

Ana Rita Caldeira da Silva

sexta-feira, 29 de março de 2013

[Mudança]: Projecto PROCESSO(s)

Projecto PROCESSO(s) - Ser a Pessoa dos seus Talentos

            Falo-vos do Projecto PROCESSO(s). Nasceu de catarses entre Psicologia e Arte e, sem conceito que lhe fosse foz, propôs-se redesenhar o verbo criar a partir de uma linha temporal contínua, ancorando-se em vários nichos sociais. Surgiu como um projecto emergente, contínuo e gregário, com uma forte vertente humana e com o grande objectivo de mover massas num processo de criação sem limites sociais ou temporais. O objectivo core é dinamizar a sociedade, através de projectos artísticos que devem partir do aproveitamento dos seus recursos. Assim, podem ser expandidos vários caminhos artísticos, tendo como base a crença de que todos podem gerar arte e de que esta pode acrescentar caminho à sociedade.
            Qualquer leitor pode questionar-se relativamente à utilização da arte como catalisador do desenvolvimento supramencionado.

            Os nossos olhos vêem que arte deve ser uma forma de valorizar cada elemento pertencente a um grupo como "pessoa dos seus talentos", de promover o pensamento divergente, a exploração de alternativas e assim, os processos criativos, tendo como destino o desenvolvimento humano e social. A aprendizagem da utilização dos recursos já existentes permite a economia de recursos humanos e materiais e assim, cada vez mais, o desenvolvimento "reciclado". 

            Numa altura em que a sociedade já nada espera de si, em que os recursos parecem inexistentes e quando se espera que a solução seja extrínseca, o PROCESSO(s) ambiciona reverter as crenças para um controlo interno nos desafios que surgem. Assim, o trabalho artístico, nas várias áreas, prevê-se como catalisador de mudança e de evolução cognitiva, emocional e social.
            A ideia que se coloca como base do projecto é a de que a arte não representa um hiato, um local, um molde. Vive de co-construções contínuas entre Pessoas e deve integrar o seu quotidiano, sendo envolvida nas suas tarefas, hábitos e desafios. Aqui, não se pretende que o PROCESSO(s) seja um museu ou um centro de arte. Pretende-se que seja uma ferramenta, um catalisador de desenvolvimento comunitário, que estará em constante deslocação, interacção e evolução. Em verbalizações práticas, o nome surgiu de um insight que prevê arte a partir do processo individual que nos nutre, mas também dos processos entre os vários singulares. O Projecto PROCESSO(s) pretende assim iluminar talentos, através da promoção do auto-conhecimento e maximização de competências.

            Numa visão mundial, muitos países adquirem muito do seu capital através da arte (temos o exemplo da China que foi o líder mundial do mercado da arte em 2011, segundo o Jornal Público), tendo muitas categorias laborais neste mercado; Portugal ainda não dedica recursos suficientes ao desenvolvimento de ferramentas que lhe gerem este valor. O objectivo é conceber vontade, oportunidade e valor a este mercado, na medida em que todos podem ser arte e a arte pode ter várias figuras. Mais ainda, mostrar que arte pode ser de/para todos e não apenas de uma elite. Neste sentido, aumentando o campo de acção em vários contextos, pretende mostrar-se que o que pode ser arte numa Instituição Social, pode sê-lo de forma diferente numa Faculdade de Psicologia, numa Empresa de Publicidade ou numa Livraria. O PROCESSO(s) pretende assim não cingir o conceito, mas expandi-lo, aumentando a probabilidade de criação e de sucesso. Aqui não há populações prováveis ou mais talentosas a priori.

            Mergulhando no contexto social, actualmente com maior interacção com o PROCESSO(s), tendem a ser gastos muitos recursos em apoios pontuais, que acabam por ser interrompidos e/ou coagidos. Se for realizado um trabalho contínuo e aprofundado, valorizando o papel social activo dos elementos que dão vida a estes sistemas, não se corre tanto o risco de perder o processo de desenvolvimento. A arte parece constituir uma das mais valiosas ferramentas para o desenvolvimento pessoal e, assim, frutífero para qualquer população. Além disso, não raras vezes, a fonte de reorganização é implementada a partir do exterior e nem sempre pensada como passível de ser auto-gerada. Desenhando um exemplo prático: uma instituição pode desenvolver um projecto artístico e assim o valor será individual e desenvolvimentista, mas também social e por conseguinte podemos tracejar um avanço económico. Considerando-os como vectores.
            O facto de ser um projecto social conjunto entre várias pessoas e equipas também educa para a gregariedade, onde cada um deve sentir-se parte integrante do projecto, aumentando assim o sentimento de identidade e pertença. Esta dança avança na visibilidade de trabalhos que a maior parte das vezes não passam as portas de um "pequeno mundo".
Desta forma pretende-se também, num degrau menos niilista, aumentar o rendimento destes locais, que muitas vezes, não tendo o apoio financeiro necessário, acabam por fechar, deixando pelo caminho muitos selves em desenvolvimento.

            Este projecto não quer ser um momento estanque, temporal; não é um momento que privilegia uma classe, uma elite; não é um museu, nem uma exposição. É um trabalho de co-construção da obra- que é plural -, entre pessoas e entre as suas várias formas de Ser-Pessoa e terá uma continuidade conceptual. Mais do que tudo, que arte possa ser mote de evolução de um país e de uma sociedade, tanto a nível humano como económico.

Não deixemos de pensar que uma sociedade desenvolvida é a sua própria cura.

            Ana Rita Caldeira da Silva

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

[Mudança]: "Ceci n´est pas un Neurone"

O Desenvolvimento Social através da Arte: Co-construção e Complementariedade

Esta arte - a que vemos, - não é a mesma. Não é a que eu vejo e você, aqui perto, consegue ver. Mas é a mesma estrutura, o mesmo espaço e o mesmo tempo. Então porque é que esta arte não é também una na forma como a integramos?

Pois bem, porque sozinha não tem sentido, nem interpretação. Porque precisa de cada um, e cada um dela, para ter de facto existência e semântica. Parece pretensioso?

Lembra-se quando Magritte afirmou, perante a imagem convencional de um cachimbo, "ceci n´est pas une pipe" (1928-29)? Pode ter sido um pedido ao Homem-Artista para parar de ambicionar representar a vida tal como ela é e as coisas tal como são, num realismo absurdo e inatingível.
Foi um pedido ao Homem-Artista para admitir que é um Zé-Ninguém quando fala, quando se move, quando executa; que só em conjunto com a obra terá algum significado, significado esse que nunca será o mesmo aqui, ali ou além; nunca será exactamente o mesmo para mim, para si e para o Homem-Artista. É disso que vive a magnitude do significado de arte: tê-lo de todas as formas, quantas aquelas em que existimos.
Isto levanta uma celeuma assustadora, bem sei. Então não é possível perceber a arte da mesma forma? Ficaremos destinados ao sulco inevitável, ainda que por vezes ténue, que existe entre a minha interpretação e a sua interpretação? Sim. Lamento. Mas não é isto que buscamos? Diga-me uma peça de arte que tenha esgotado os seus significados e que tenha, num momento impávido, tido o mesmo para Fulano e Beltrano? Nenhuma, pelo menos a intemporal. Porque essa, vive preparada para rearranjos e ajustamentos ao contexto e aos novos olhos; os que nascem. Tal como nós - pensamentos e movimentos em sociedade.
Porque "Guernica" (Picasso, 1937) do séc. XX não é a mesma do séc. XXI e é precisamente isso que a torna sempre nova e emocionante. Porque nós, as nossas emoções e as nossas narrativas não são as mesmas hoje, amanhã e depois; a interacção é sempre diferente, entre obra-pessoa e pessoa-obra. Restamos assim, subjugados a este jogo de interacções que permite, aos mais audazes, tentar perceber o que o outro vê e acomodar-se à aventura de nunca o perceber.
Parece confuso, obtuso, cruelmente epistemológico. Não creio. É tão simples como pintar uma rua e percebê-la como rua. É tão simples como ler a palavra cachimbo e daí, imageticamente, termos um. Dentro dessa simplicidade -mágica- deve ser percebido que o significado que uma rua tem para mim, não terá para si, nem para os nossos filhos, daqui a quantos anos forem vida. Se percebermos isto, podemos perceber tudo sem limites e sem barreiras interpretativas. E mais então, teremos paladar para construir, com os outros, que também somos nós.
Falo agora na obra "A Culpa não é Minha" (João Pedro Vale, 2003). Também irónica, retrata a forma como podemos ficar encalhados, amarrados, petrificados, se atracarmos a criação e o "mais-além" que é Nosso, de Todos e de Ninguém. Não vou explicar a minha confusão, deixo-a assim, para a sua interpretação cuidada e objectiva. Se a arte for para o autor, não haverá arte. Se a arte for para o público, não haverá arte. Se a arte for um momento, não haverá arte. Se a arte for intocável, não haverá arte. Se a arte tiver uma data, não haverá arte. A arte não quer ser um Eu. Não quer ser um Ninguém, um Alguém; não quer ser Dela própria.
Só assim haverá arte.
Se personificarmos a arte vemo-la como uma túlipa leve, crua, devastadora. Vemo-la como Pipilotti Rist a quis, em Ever is All Over (1997), cheia de liberdade e impacto, livre de tudo e de ela própria.
Deixo-nos um conselho: não queiramos perceber nada do que digo. É apenas a minha forma de ver arte, muito diferente da sua, certamente. Deixemo-nos ver; assim. Deixemo-nos ser olhos de Pessoas, tacto que quer perceber, areia que se move unida, livro que se reescreve em todas as horas. Se for assim, será não só arte para nós, como de ninguém.

Ana Rita Caldeira da Silva
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(Imagens retiradas do google)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

[Mudança]: MUdar


Não parece nada fácil.

Hábitos, trejeitos, expressões, tiques, posturas, perífrases, metáforas, eufemismos, silêncios, opiniões. Trabalho árduo de construção, trabalho fácil de habituação.
É assim que funcionamos ao longo da vida: primeiro, não sabemos nada, tabula rasa sedenta de vontade de integrar. Nesta altura desenvolvem-se as mais refinadas estratégias de acomodação e assimilação, entenda-se isto como um passo crucial na integração da novidade (que por esta altura deve ser tudo). Posteriormente, a confiança aumenta e também a selecção do que queremos apreender fica mais evidente.
O contexto induz-nos a gostar mais de umas coisas em detrimento de outras e isso é legítimo. O indivíduo X nasce num meio abastado e intelectualmente desenvolvido, que fomenta o gosto pela arte. Não nos iludamos: o indivíduo X começará por querer saber tudo mas posteriormente, na arrogância do desenvolvimento, tenderá a escolher o que vai ao encontro do seu interesse, genético mas também aprendido. Se assim for, poderá ir a concertos, poderá ouvir sonatas e poderá ter amigos leitores assíduos. Tal como ele, também nós passamos pela tendência de usar o que de melhor nos cabe e que ficará automatizado. Talvez para nos pouparmos a novos investimentos intelectuais, para nos tornarmos rápidos a escolher e a depreciar, para ingenuamente considerarmos a certeza de que sabemos bem de que somos feitos.
E assim, nós, que tínhamos uma casa com dezenas de andares, que começamos bem, criativos, empreendedores, sanguessugas de informação, sabotamos a oportunidade que temos para evoluir e abrir novos caminhos. Na verdade, passamos grande parte da vida a utilizar apenas um ou dois andares da casa que somos. Porque cansa, arrisca, perturba, desestabiliza. É este o retrato que temos da mudança: "periguifica" tudo o que alcançámos, que mesmo que não seja bom, é nosso.
A mudança não tem mau carácter (passo a personificação). Apenas nos quer mostrar que não nos permitimos experimentar o máximo, quando é essa a nossa obrigação existencial.

 E assim, ao longo do desenvolvimento, sedimentamos a tendência cerebral para pensar em termos de opostos redutores: através da etiquetagem dicotómica bom/mau, feio/bonito, moral/imoral, possível/impossível. Entre outras, neste dislate criativo. Consequentemente, quanto mais se pensa em termos de conceitos divergentes, mais se desenvolvem essas redes neuronais rápidas e rígidas que corroboram o sentido polarizado dos comportamentos dos outros e dos acontecimentos.
Para MU(Dar) pede-se flexibilidade, arte de discernimento e ainda criatividade interpretativa com abertura a alternativas. Pede-se análise escrutinada, capacidade para experimentar o lugar do outro, para abandonar o juízo crítico-destrutivo e abarcar um sentido cooperativo de acção e reflexão. Pede-se pouco. Pede-se congruência com a evolução humana, biológica e social. Pede-se que consigamos isto por nós e pelos outros.
Na ausência de novas estratégias, usam-se as antigas: disfuncionais ou não. Peca-se assim quase sempre pela não mudança.

É esta a miséria que mais nos afecta, antes de qualquer outra.

Ana Rita Caldeira da Silva

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

[Mudança]: Apresentação!

Mudança e Processos Cognitivos; Arte e Processos Cognitivos

A rubrica baseia-se em reflexões acerca da resistência à mudança evidenciada por todos nós, que tende a desenvolver-se à medida que amadurecemos cognitivamente. Tem inspiração em algumas ideias provenientes da Psicologia do Desenvolvimento e da Psicologia Cognitiva, pretendendo realçar o potencial de crescimento do qual dispomos.
É dirigido à maximização das competências individuais, visando a promoção do desenvolvimento humano e social, visto vivermos num sistema em constante interacção. Ao longo das reflexões passa-se pelo percurso desenvolvimentista humano e pela forma como a maturação se mostra muitas vezes uma antítese do seu propósito: a solidificação da capacidade de investir em hipóteses virtuais, de uma forma deliberada, antecipada e estratégica.
Neste sentido, ao depararmo-nos com este paradoxo cognitivo, que se liga ao não aproveitamento de todas as competências que temos ao nosso dispor na idade madura e assim colocando em causa o que é per si o sentido do desenvolvimento, podemos colocar a questão: de que forma poderemos transformar esta tendência humana para permanecer no espaço seguro, não fazendo jus ao que nos torna únicos no nosso Ecossistema?
Não é pretendido falar apenas em mudança, mas sim mencioná-la como uma forma de interagir com os outros, de alcançarmos metas tendo em vista um bem individual mas também social. Nenhum homem é uma ilha e desta forma cabe-nos a nós objectivar, delinear e executar as pontes que nos interligam.
Também serão partilhadas reflexões que se baseiam na arte como ponto de mudança, de desenvolvimento individual e social. Sobretudo, arte como motor de criatividade, exploração de alternativas e desenvolvimento dos processos cognitivos individuais e do processo social que nos envolve.
Estas rubricas misturam-se nos seus sentidos: a mudança permite o caminho para a arte, para o que de novo podemos desenvolver, com o que de nós podemos sempre ser. Arte permite mudança, por acordarmos em novos rumos.

Ana Rita Caldeira da Silva