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domingo, 24 de novembro de 2013

[The Naked Lunch]: Nova lei do álcool


Entrou em vigor no passado dia 1 de Maio a nova lei do álcool. Esta lei proíbe o consumo e a venda de bebidas alcoólicas em postos de combustíveis e, depois da meia-noite, em qualquer estabelecimento que não seja de restauração e bebidas. Relativamente à idade de consumo prevê o aumento para os 18 anos a idade limite para consumo de álcool, mas apenas para as bebidas de elevado teor de álcool, as chamadas bebidas espirituosas (e.g . whisky, vodka…). O consumo de vinho e cerveja continua a não ser proibido a jovens a partir dos 16 anos! Confesso, como profissional de saúde a trabalhar com problemas ligados ao álcool, ter ficado em choque com esta nova lei. Do ponto de vista prático coloca imensas dificuldades: como controlar em simultâneo a idade e o que a pessoa consome? Se no nosso país já é várias vezes referida a dificuldade na fiscalização referente à idade, como irão as autoridades fiscalizar também o tipo de bebida? Pedem para provar!?

Esta nova lei para além de ser um recuo ao nível da prevenção acaba por se tornar ridícula e passar uma mensagem dúbia aos jovens face ao consumo de álcool: Então existirá um “álcool bom” e um “álcool mau”? Do ponto de vista científico não faz sentido esta distinção entre bebidas espirituosas e outras bebidas alcoólicas. A composição molecular da substância (etanol) é a mesma. A diferença concerne à concentração de álcool em cada uma delas, mas bebendo diferentes quantidades de diferentes bebidas estaremos a ingerir a mesma quantidade de álcool ¼ L aguardante = 1L Vinho= 2L Cerveja. Assim, não fica claro o objectivo deste diploma. Até porque o objectivo da alteração da lei pretendia a defesa da saúde pública e não a perseguição fundamentalista ao consumo de álcool.
Contudo, um dos aspectos desta lei que parece ter sido “acarinhado” pelas autoridades de segurança é a obrigatoriedade das autoridades notificarem os pais quando os seus filhos são encontrados embriagados.
E vocês, o que acham?

Poderão consultar a informação referente a esta lei no diretório do álcool:  http://www.diretorioalcool.pt/Paginas/LeiDoAlcool.aspx
 
Ana Nunes da Silva

sexta-feira, 12 de julho de 2013

[The Naked Lunch]: Festivais de verão, Consumos e Comportamentos de Risco


Verão rima com calor, praia e festivais de verão!
Para os mais jovens a loucura: acampar, directas, copos, boa companhia e bom som! Para a maioria dos pais: preocupação!
Uma sondagem recente revela “Festivaleiros britânicos preferem consumir álcool e drogas do que ver concertos”.* Segundo esta sondagem “apenas 45 por cento das pessoas admitiram que a música é a razão pela qual vão a um festival.
Todos aqueles que já foram a um festival sabem que há muito mais a acontecer num festival que apenas a música. E se me arriscaria a antecipar que em Portugal a maioria das pessoas diria que vai aos festivais por causa da música, muitos são os outros aspectos que contribuem para aquilo que um festivaleiro chamaria a “qualidade” do festival.
Um tema indissociado dos festivais são os consumos. Sabemos que, apesar de haver excepções, a maioria dos festivaleiros vai beber ou consumir algum tipo de substância. O próprio ecletismo dos festivais actuais – com tendas electro; palcos variados desde reggae, passando pelo jazz até ao metal; e zonas chillout – faz-nos associar, ainda que possa ser uma ideia pre concebida, estes diferentes “contextos” mais a uma ou outra substância.
Assim, mais do que entrar numa lógica de dissuasão, gostava de deixar aqui alguma dicas para que possam ter um consumo “controlado” ou com menor risco.
Penso que um aspecto importante é estar rodeado por pessoas de confiança. Sabemos que nos vamos divertir com os nossos amigos por perto. Se houver algum problema são pessoas a quem podemos recorrer. Tentem intercalar o álcool com água – se por um lado sabe bem uma cerveja fresquinha, esta é um diurético e aumenta a desidratação. Alimentem-se! Não é incomum, quer seja para poupar uns trocos, ou porque levámos o stock de latas de atum da casa dos pais, nos dias de festival as nossas refeições serem mais desregradas, fora de horas e com um baixo valor nutricional. De qualquer forma a sugestão que deixo é se vão beber, comam. Um estômago vazio aguenta pior o álcool. Se o objetivo é divertir-me não vou querer passar a noite maldispost@, não é?
Para aqueles de vocês que estão a pensar “então?! mas eu bebo para me embriagar!”: Cuidado com os comportamentos de risco, como por exemplo o sexo desprotegido, que se tornam mais frequentes quando estamos num estado alterado de consciência.
Nunca é demais referir para terem cuidado com a oferta de bebidas de estranhos. No ambiente de festival é comum conhecermos pessoas novas. Para se poupar uns trocos junta-se numa garrafa de gasosa ou sumo vinho do supermercado e até é normal irmos bebendo todos da mesma garrafa. Não é necessário desenvolver um núcleo paranóide mas pelo menos estar atento.

Não se esqueçam: ter alguns cuidados para poderem curtir os festivais de verão ao máximo! Divirtam-se!
Ana Nunes da Silva

quinta-feira, 13 de junho de 2013

[The Naked Lunch]: Álcool e Sociedade


Na sequência da leitura da notícia “40% dos homicídios estão relacionados com problemas de álcool” (18/03/2013), comecei a esboçar mentalmente este post.


Soube logo sobre o que queria escrever mas confesso que levei algum tempo até encontrar um título que me satisfizesse…
Ao longo da notícia podemos ler sobre uma série de estatísticas das consequências dos consumos: 40% dos homicídios estão relacionados com problemas de álcool; mais de 40% das situações sinalizadas às comissões de protecção de crianças e jovens pertencem a famílias com problemas de alcoolismo; estima-se que cerca de 30% dos acidentes rodoviários, assim como 25% da sinistralidade laboral estejam associados a consumos de álcool...
Pensei que um bom título seria “álcool e problemas legais”, que mais poderia ser? Mas o que estava na minha mente ao ler a notícia era a ideia de quão aceite são os consumos de álcool na nossa sociedade, quão presente o álcool está nos nossos costumes, rituais, nos momentos considerados mais importantes da nossa vida (“vamos fazer um brinde!”).
Assim, este post não se poderia chamar “álcool e problemas legais”. Penso que isso iria tirar de certa forma a responsabilidade social, de todos nós, neste problema. Quando se lê “em Portugal, morrem cerca de 7.000 pessoas por ano devido a problemas ligados ao álcool, sendo assim considerado o terceiro de 26 factores de risco de doença, depois do consumo de tabaco e da hipertensão arterial” assusta!
Parece inconsistente uma substância que tem tantas consequências nefastas para o ser humano ser também tão acarinhada e figura indispensável e de referência no nosso dia-a-dia. Ser anunciada inclusivamente como uma referência do nosso país (vejam os outdoors da cerveja sagres).
Não quero ser mal interpretada, eu gosto de um belo copo de moscatel! Mas olho para estes dados e penso “o que pode ser feito? O que é que nós enquanto sociedade podemos fazer? Ou o que é que tem sido mal feito até aqui?”
Para já não tenho respostas, só muitas questões. A única coisa que eu sei é que este post não se podia chamar “álcool e problemas legais”…

Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 15 de maio de 2013

[The Naked Lunch]: Crise e Consumos


Numa época em que a palavra crise é a ordem do dia, palavra tão banalizada que qualquer dia nem se percebe bem o que quer dizer, gostaria de começar por esclarecer o que a mesma significa.

Na wikipédia pode ler-se: “Crise (do grego κρίσις,-εως,ἡ translit. krisis; em português, distinção, decisão, sentença, juízo, separação) é um conceito utilizado na sociologia, na política, na economia, na medicina, na psicopatologia, entre outras áreas de conhecimento.”

Não satisfeita, continuei a minha busca, de onde me deparo com a definição do dicionário Priberam da Língua Portuguesa (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=crise)
“crise (latim crisis, -is, do grego krísis, -eós, acto.ato.ato de separar, decisão, julgamento, evento, momento decisivo) s. f.
1. [Medicina]   [Medicina]  Mudança súbita ou agravamento que sobrevém no curso de uma doença aguda (ex.: crise cardíaca, crise de epilepsia).
2. Manifestação súbita de um estado emocional ou nervoso (ex.: crise de choro, crise nervosa). = ACESSO, ATAQUE
3. Conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo.
4. Falta de alguma coisa considerada importante (ex.: crise de emprego, crise de valores).
5. Embaraço na marcha regular dos negócios.
6. Desacordo ou perturbação que obriga instituição ou organismo a recompor-se ou a demitir-se.”

Aqui já comecei a ter definições mais específicas em função do contexto e fiquei a pensar ”Bom, se calhar não está assim tão banalizada, porque actualmente estamos perante quase todas estas crises!”

Do ponto de vista psicológico, a crise ocorre quando há um desequilíbrio que exige um esforço adicional para manter a harmonia/estabilidade emocional. Para poder lidar com a instabilidade, o indivíduo deverá ser capaz de tolerar esse(a) sensação/estado a fim de conseguir ultrapassar a dificuldade. Daí a referência a um período de crise (social, biológico ou psicológico) como um período igualmente de potencial, na medida em que se podem desenvolver competências para novos equilíbrios, capacidade de adaptação, etc.

Apesar das ideias de oportunidade e de potencial associadas aos períodos de crise, normalmente estes não são períodos fáceis. O próprio põe em causa as suas competências para ultrapassar a situação e pode ter dificuldade em gerir os recursos à sua volta, ou sentir mesmo que não tem qualquer tipo de recursos. No contexto actual em que nos encontramos envolvidos numa crise económica e social, uma situação de crise individual pode tomar proporções mais complicadas do que noutros períodos, na medida em que se pode percepcionar o contexto como não oferecendo recursos viáveis ao equilíbrio individual interno. Por outro lado, existe também quem mais facilmente, por características pessoais, meio envolvente, ou pela experiência de outras crises vividas no passado, se sinta capaz de lidar com estas adversidades, com menos dificuldade. Por exemplo, uma pessoa que numa situação de desemprego se vê envolvida em toda uma espiral de acontecimentos sentindo-se deprimida e incapaz para fazer face à situação e outra que numa situação semelhante, opta por arriscar e criar um negócio.

Por vezes num contexto de crise – social, económica ou psicológica – o individuo pode sentir que não tem condições de auto gestão e (re)iniciar consumos abusivos, quer de álcool ou outras substâncias, quer numa perspectiva anestesiante ou estimulante. Este risco estará acrescido em pessoas que já tenham usado esta estratégia como forma de regulação emocional ou que tenham uma dependência de substâncias (ainda que em abstinência). No contexto actual de crise económica, com aumento do desemprego e crescente visão negativa do futuro (pessoal, do país, etc) parece-me que estamos perante um risco acrescido de aumento dos consumos de substâncias.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia acerca deste tema comentou  numa entrevista “A crise económica associada que está ao desemprego gera um aumento de consumo de bebidas alcoólicas e das suas consequências. Há evidências de que um aumento de 3% no desemprego se associa a 28% de mortes causadas pelos problemas ligados ao álcool. Esta grave crise que estamos a atravessar é propícia ao aumento dos consumos e às consequências do mesmo. Sempre que existe um mal-estar procuramos alivia-lo, e as bebidas alcoólicas acessíveis e a custos baixos são um recurso possível. Mas não fiquemos “atolados” no pessimismo, porque as crises também geram alternativas e oportunidades de mudança para melhor. Espero que esta crise propicie movimentos e medidas positivas para enfrentar este gravíssimo problema.”(http://saude.sapo.pt/saude-medicina/artigos-gerais/crise-esta-a-aumentar-o-consumo-de-alcool.html?pagina=2)

Muito mais se poderia dizer sobre este tema. Vocês o que pensam sobre isto?

Ana Nunes da Silva

quinta-feira, 18 de abril de 2013

[The Naked Lunch]: Leves e pesadas?


Apesar deste poder ser um título controverso, a realidade é que não é a melhor forma de se abordar o tema das drogas. Posso-vos dizer que já tive contacto com um paciente que consumira cocaína apenas num pequeno período da sua vida, até consumidores de haxixe com consequências bem complicadas.
Pois é, desengane-se quem pensa que a cannabis é do mais inofensivo que há. E se é real que quem consome haxixe pode não estar em risco de passar “das levas para as pesadas”, como vimos no último post, não deixar de estar em risco pelo consumo em si.
Existe uma síndrome clínica – síndrome amotivacional – que é normalmente descrita em utilizadores crónicos de cannabis. Posso-vos dizer que esta é uma das situações que senti como mais complicadas de trabalhar do ponto de vista clinico. Como é que um profissional que trabalha como motivações, trabalha com um paciente amotivacional?!
Clinicamente, este síndrome caracteriza-se por: alterações do comportamento, como o isolamento social, a passividade e a auto-negligencia; alterações cognitivas, como deficit de atenção, prejuízo da memória, diminuição da capacidade para resolver problemas, prejuízo da capacidade de julgamento e dificuldade nas tomadas de decisões; e ainda alterações volitivas, como a diminuição do interesse pela aparência pessoal, apatia, inércia, falta de objetivos na vida, diminuição dos impulsos, perda do interesse pelas atividades sociais, académicas e ocupacionais. Esta síndrome parece ter uma etiologia multi-factorial, estando associado a problemas cognitivos e depressivos causados pelo consumo regular de cannabis.

Para uma droga leve, parece bem pesada, não acham?
 
Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 20 de março de 2013

[The Naked Lunch]: Da Cannabis Passa-se para a Heroína


“Da cannabis passa-se para a heroína e depois acaba-se a vida!”

Depois do post anterior quase que me apetecia ter só testemunhos de pessoas que estão em ou fizeram um processo terapêutico. Espero em breve poder trazer-vos outros testemunhos. Se alguém se quiser voluntariar e enviar anonimamente o seu testemunho pode sempre fazê-lo através do e-mail do blog.

Desde já peço que não se assustem com o título do post. Andava aqui a pensar sobre o que escrever, sendo que o mês passado andámos focados nas permissões e nas proibições, e lembrei-me desta frase. Confesso que não me lembro onde a ouvi, mas lembro-me de a ouvir quando era miúda e da confusão que esta ideia ligada ao consumo de droga gerava. A ideia era que basicamente a pessoa experimentava um cigarro de haxixe e a partir daí já não conseguia parar e posteriormente passava para as drogas ditas “pesadas”. A realidade é que as coisas não se processam dessa forma e dava-se o caso de isto ser dito com o objectivo de evitar consumos, mas só gerava confusão. Porque efectivamente havia pessoas que experimentavam um cigarro de haxixe e não se sentiam “agarrados” e pensavam “ah então até posso experimentar outra droga, que isto não é nada como dizem praí”.
Penso que muito se evoluiu desde aí, tanto ao nível da prevenção, como ao nível das campanhas de redução de risco e minimização de danos. Cada vez mais é necessária uma diferenciação no que concerne aos efeitos e riscos das diferentes substâncias e não colocá-las no mesmo saco. A própria forma como se tratam/abordam os consumidores também deve ser diferenciada, tendo em consideração que o uso/abuso/dependência de drogas e os seus significados são diferentes de individuo para individuo, e mais diferentes serão em diferentes épocas e diferentes culturas. Possivelmente é isto que acaba por tornar a intervenção da psicologia tão importante neste contexto. E se isto parece algo básico, implica algum trabalho, conhecimento das próprias substâncias, não se deixar levar por preconceitos e acima de tudo estar consciente e disponível para abraçar a complexidade e riqueza que é ser humano.
Apesar da prevenção não ser apenas veiculada pelas palavras, convenhamos – as palavras e a forma como comunicamos têm um impacto gigante nos dias que correm ainda por cima numa era em que estamos todos interconectados à distância de um click.

Façam bom uso das vossas palavras!

Ana Nunes da Silva

domingo, 10 de março de 2013

[The Naked Lunch]: Perspectiva de alguém que decidiu pedir ajuda

Pedido de ajuda e Processo Terapêutico

Olá! Decidi pedir a alguém que partilhasse a sua perspectiva associada ao pedido de ajuda psicológico. Apesar de não estar directamente relacionado com consumos, este post vem na sequência do anterior associado ao aumento de consumo de substâncias associado a depressão e ansiedade. Pareceu-me bastante interessante abordar a dificuldade que é pedir ajudar e a vivência de um processo terapêutico… Aqui ficam as palavras de alguém que não se importou de partilhar a sua experiência. Desde já aqui fica o meu apreço e gratidão pela sua disponibilidade.

“Bem, se me estás a ler provavelmente estarás em busca do teu problema e a internet por mero a caso ou não, trouxe-te até aqui. Sei bem o que é isso. Primeiro chama-nos devagarinho como se fosse uma “vozinha” lá ao fundo...depois quando dás por ti essa “voz” está te a gritar repetidamente aos ouvidos e não consegues pensar em mais nada a não ser nesse mau estar que estás a sentir. Começamos por pensar que somos loucos, diferentes, começamos por esconder o problema, ou até muitas das vezes acabamos por tentar esconder o problema de nós mesmos; os nossos pensamentos começam a viver em círculos, bolas de neve...o nosso corpo começa a corresponder ao que pensamos e à forma como estamos a pensar sobre o problema, arranjamos mil e uma desculpas ou para não pensar, ou pensamos freneticamente, alguns procuram amigos, companheiro/a, família em momentos de aflição, outros preferem estar sozinhos; outros recorrem a algum tipo de droga, muitas das vezes acabamos por até recorrer a algum tipo de cognição que faz com que agrave mais o problema. Enfim todos reagimos de forma diferente. Mas todos deveremos aceitar que não estamos bem e tentarmos encontrar a melhor solução.

Essa vozinha de que falei aparece no teu corpo para te alertar de algo; não...não me refiro a nenhuma voz no sentido literal da palavra, mas de algo que está a chamar o teu organismo em forma de reacção física para determinado momento emocional que estás a viver ou viveste da tua vida. Começas por sentir picadas, batimentos acelerados do coração, espasmos, dormências, problemas intestinais, desconcentração, falta de ar, nós na garganta, vontade de salivar, vazio, enfim se não referi nenhum tipo de reacção/sintoma foi porque não me lembrei e porque felizmente não os tive a todos, até porque diferencia muito de pessoa para pessoa. Geralmente no início pensas que essas sensações vão passar, dizes para ti mesmo que é temporário, outras vezes pensas que é por ter bebido um cafezito a mais, andares a dormir mal, a realidade é que estás com um problema e não vale a pensa fugires. “Podes fugir mas não te podes esconder” seria até uma boa frase para relacionar com tudo isto. Ainda noutro dia estive com uma amiga, que esteve ao telefone cerca de uma hora com outra amiga dela que estava na auto-estrada e não conseguia respirar e nem se concentrar no momento presente, e procurou-a para conseguir fazer o caminho até casa (a desculpa dela era o excesso consumo de cafeína na coca-cola que tinha estado beber...).

Quanto mais fugires do problema e inventares para ti mil e uma desculpas (em que até os portadores desta coisa costumam ser peritos), pior te sentirás, e o teu corpo ainda vai se vingará mais por não o enfrentares! Já devem saber que “vozinha” é esta, que “coisa” é esta de que estou a falar...crises de ansiedade...ataques de pânico...”adornozinhos da ansiedade”, como lhe queiram chamar! Se quiserem até a podem chamar de inferno! Sim, porque como eu e como muitos vocês já devem ter vivido momentos de inferno por terem que conviver com esta característica inerente a vocês mesmos. O importante é saber que existe forma de conseguir conviver com este problema que muitas das vezes é acentuado em determinado momento da vida por x, ou por y factor que diferencia de pessoa para pessoa.

Eu levei algum tempo a procurar ajuda, acho que existem dentro de nós ideias bastante erradas em relação à saúde mental, induzidas pela própria sociedade material que vivemos, que não está preparada para falar de um dos mais potentes órgãos que temos - a nossa cabeça - e no fundo do nosso coração - as nossas emoções.

No início custa, custa termos que enfrentar isto, custa ter que tomar medicação por vezes, custa até abrirmo-nos com alguém que não conhecemos, e toda esta ideia inicialmente nos parece estranha. Nem sempre a terapia podia funcionar (por acaso a minha primeira experiência terapêutica não funcionou); mas depois começamos a ganhar uma grande magnitude sobre o tema, sobre nós mesmos, ou até mesmo sobre quem nos rodeia. Aprendemos uma série de coisas desconhecidas sobre nós, outras reforçamo-las, há dias que saímos ainda mais ansiosos da sessão, outros em que parece que aquela sessão nos limpou por completo a alma, enfim se vais iniciar esta experiência, será sem dúvida uma viagem muito interessante ao pais da complexidade do teu eu, rodeado de distorções e muitas vezes maravilhas que tu desconhecias. Vais ter um guia nessa viagem que será o teu terapeuta, que te indicará o melhor caminho segundo o que queres e precisas procurar em ti; ele não te julgará nessa luta. Será um trabalho de ambas as partes. Com muitos tpcs pelo meio, e muitas descobertas e às vezes lágrimas. Eu ainda continuo em terapia e estou disposta a vir aqui falar-vos mais vezes da minha experiência e da forma como a vivo.

Deixo-vos desta vez um pequeno grande conselho, quanto mais tempo levarem a procurar ajuda, mais grave se tornará o problema, por isso sem medos, sem desculpas e sem complicações recorram agora a ajuda terapêutica.”

Mais palavras para quê?
(mais uma vez OBRIGADA a quem partilhou estas palavras)

Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

[The Naked Lunch]: “Ah! Isso é psicológico!...”


Fazendo uma pausa nas questões das proibições Vs permissões, hoje venho falar-vos do consumo de psicotrópicos em estudantes universitários.

“Um terço dos universitários no Porto consome psicotrópicos”

A notícia apresenta alguns dos dados de um estudo realizado pela Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (SPESM): “mais de 30% dos alunos universitários do Porto consome medicamentos psicotrópicos e afirma não ter prazer nas coisas que faz na vida.” Este estudo refere consumo de ansiolíticos, hipnóticos e antidepressivos, associado ao aumento de “estados de ansiedade”, “do risco do suicídio” e “questões de isolamento”.

Este tema não é recente, mas dadas as circunstâncias actuais do próprio país, esta parece uma realidade cada vez mais presente não só para os estudantes universitários como para os jovens adultos que vem as suas perspectivas de futuro mais sombrias. Na notícia são ainda focados os consumos de álcool “19% referem consumos todos os dias e 52,4% referem consumos regulares aos fins-de-semana”.
Para além das questões da prevenção mencionadas na notícia, e de algum apoio que poderia ser potenciado pela comunidade, amigos e familiares, penso que existem outras dificuldades associadas a esta situação. Se por um lado é verdade que os recursos (pelo menos no SNS) dificultam uma resposta atempada e o diagnóstico adequado, por vezes a própria pessoa sente dificuldade em procurar este tipo de ajuda porque ainda existe algum (bastante!?) estigma associada aquilo que vem nomeado na notícia como “doenças mentais leves”. Confesso que não gosto do termo usado, penso que seria mais adequado chamar-lhe problemas associados à saúde mental ou algo do género (mais focado na dimensão saúde e não na doença). Como provavelmente isso implicará a procura de um Psi, muitas vezes o individuo vai adiando a procura de ajuda na esperança que a coisa passe “é só uma fase”. E por vezes até pode ser, e se a pessoa se rodear dos meios adequados possivelmente é “só uma fase”. Contudo, não é incomum, na prática clinica, os clientes surgirem já com 3 ou 4 (ou mais!) anos de início das crises de ansiedade ou as tais “doenças mentais leves”. Vão usando as estratégias que tem à mão, que muitas vezes potenciam o problema, como o isolamento, a auto medicação, ou o consumo mais acentuado de substâncias, principalmente o álcool, como estratégia reguladora.

Queria aproveitar para deixar um apelo, se tiverem algumas destas queixas procurem o vosso médico de família, falem da hipótese de serem acompanhados por um psicólogo. Não adiem a procura de ajuda porque normalmente só traz mais sofrimento associado. Se não se sentirem com energias para isso tentem não se isolar: falem das vossas dificuldades com um amigo mais próximo, um familiar… Ninguém deveria ter que passar por este tipo de sofrimento sozinho.

Habituamo-nos a ouvir no senso comum “Ah! Isso é psicológico!...” com uma certa conotação depreciativa e desvalorização daquilo que o outro está a sentir/viver. A ansiedade, e também a sintomatologia depressiva, podem realmente ser muito incapacitantes e de leve não têm nada! Procurar ajuda só pode ser um sinal de coragem e nunca de fraqueza! Se por vezes não fosse necessário um certo tipo de apoio, nós (psis) não estávamos cá a fazer nada, não é? ;)

Ana Nunes da Silva

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

[The Naked Lunch]: Permissões e Proibições

Que implicações têm as permissões vs proibições do ponto de vista psicológico?

Na sequência do último post sobre o eventual fim das smart shops, ou pelo menos legislação adequada, surgiu a questão de “que implicações têm as permissões vs proibições do ponto de vista psicológico?”
Inevitavelmente esta questão leva-nos a aspectos da auto-regulação, controlo e o saber fazer escolhas. Quando falamos destes aspectos podemos estar-nos a referir ao consumo de substâncias, mas também a outros aspectos da vida quotidiana, como por exemplo fazer uma dieta.
Como o tema é bastante vasto, para começar queria propor-vos algo mais experiencial focado na proibição:
Todos nós podemos fazer a experiência de deixar de comer um dos nossos alimentos favoritos e perceber o impacto que isso tem na nossa mente! Experimentem pelo menos durante uma semana não comer algo que adoram (por exemplo, chocolate!) e vão ver se o fruto proibido não é o mais apetecido! Esta pode ser uma experiência importante no sentido de se conseguir empatizar mais com pacientes com dependência de substâncias, ou até mesmo pacientes com dificuldade em deixar de fumar, ou a fazer determinado tipo de dieta.
Porque todos temos efectivamente formas diferentes de viver as situações, durante essa semana reflitam e tentem compreender o que foi mais difícil, ou fácil, e porquê. Vão com certeza perceber que nem tudo se resume a “força de vontade”…
Façam a experiência, enviem-nos os vossos comentários e daqui a 15 dias falaremos sobre isso, ok?

Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

[The Naked Lunch]: Fim das Smartshops?


Antes de mais bom ano a todos!

Para fechar o ciclo das smartshops nada melhor do que a notícia “Governo aguarda parecer para pôr fim às smartshops”. Já não era sem tempo! Apesar do título falar em “pôr fim” quando lemos a notícias percebe-se que o objectivo é “limitar venda de drogas legais e exigir período de teste antes de serem colocadas no mercado.
Segundo a notícia do jornal Sol online de dia 6 de Janeiro “O parecer em causa irá determinar a forma como será realizada a quarentena dos produtos: um mecanismo que obriga as novas substância que surgem no mercado a ficar em teste durante algum tempo para se verificar se são perigosas para a saúde.
Contudo depois de ler todo o conteúdo fiquei um pouco confusa. Algures no final da notícia vem a referência à posição das smartshops: O certo é que esta nova legislação está a preocupar os responsáveis das smartshops. A Stepet – que detém as lojas Magic Mushroom – prepara-se para apresentar na próxima semana ao Ministério da Saúde e aos deputados uma proposta onde defende ser «mais prejudicial para a população proibir este tipo de substâncias do que regular o sector».
Então mas não é mesmo isso que está a ser feito? A regulação destas substâncias? Permitir só por permitir já se viu que não é muito positivo, ainda por cima quando são disfarçadas de adubos, sem qualquer responsabilidade para as ditas lojas. Claro que podemos sempre entrar pela já habitual controvérsia do legal versus ilegal e quem ganha com isso.
A análise destas substâncias fará com que seja mais fácil a sua regulação. Eventualmente poderia ser também o passo para a regulação de outras substâncias…? O que é que acham? Que implicações têm as permissões vs proibições do ponto de vista psicológico?

Segue abaixo o link da notícia


            Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

[The Naked Lunch]: No planeta seguinte vivia um bêbedo…


E como estamos em época natalícia deixo-vos um excerto de um livro que eu considero magnífico.

“No planeta seguinte vivia um bêbedo. Foi uma visita muito curta, mas que mergulhou o principezinho numa grande melancolia.
 - O que é que estás a fazer? – perguntou ele ao bêbedo que foi encontrar muito calado, diante de uma colecção de garrafas vazias e uma colecção de garrafas cheias.
- Estou a beber – respondeu o bêbedo, com um ar lúgubre.
- E porque é que estás a beber? – perguntou o principezinho.
- Para me esquecer – respondeu o bêbedo.
- Para te esqueceres de quê? – perguntou o principezinho, que já começava a ter pena dela.
- Para me esquecer de que tenho vergonha – confessou o bêbedo, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê? – tentou informar-se o principezinho, cheio de vontade de ajudar.
 - Vergonha de beber! – concluiu o bêbedo, fechando-se definitivamente ao seu silencio.
E o principezinho foi-se embora, perplexo.
“Não há dúvida de que as pessoas grandes são mesmo muitíssimo esquisitas”, foi o que ele foi a pensar, durante a viagem.”

O principezinho, Antoine De Saint-Exupéry 

            Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

[The Naked Lunch]: Lei Contra as "Drogas Legais"


Nem de propósito! Na sequência do último post, enviaram-me esta notícia do jornal Público, onde é referido que o “IDT avança com lei contra as "drogas legais" nas smartshops até fim do mês”, portanto até ao final do passado mês de Novembro.
[Só um pequeno aparte - Para quem não sabe o IDT já não existe. Foi extinto e agora integra a Administração Regional de Saúde (ARS) e criou-se uma estrutura que é o SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências), continuando a estrutura a ser presidida pelo Dr. João Goulão.]
Ao que parece a Região Autónoma da Madeira já tem legislação para esta matéria, apesar das reservas apresentadas pelo tribunal constitucional… e foi publicada pela assembleia legislativa dessa Região a 22 de Outubro do corrente ano. Pelo que pude perceber pelo artigo da revista “Dependências” de Outubro de 2012 (para os interessados esta revista encontra-se disponível no portal da saúde) “O regime legal criado institui uma suspensão de venda das novas substâncias, pelo período de 18 meses, obrigando que o interessado tenha de obter prova que as mesmas não acarretam risco para a saúde.”.
Neste sentido vem também o Presidente do SICAD, Dr. João Goulão, referir o avançar da proposta de criação de legislação por todos os riscos associados a estas substâncias, como já referido anteriormente. Aliás ele tem vindo nos últimos tempos a referir estes riscos, sendo que a última vez que o ouvi a falar sobre a gravidade desta situação foi no XXV Encontro da Taipas realizado no passado mês de Outubro. Contudo, não conheço, nem consegui encontrar referências ao conteúdo da proposta do SICAD, nem se vai no mesmo sentido da proposta da Região Autónoma da Madeira.
 
Não sei se ultrapassar o problema dos consumos, ou das dependências, passa exclusivamente pela legislação, mas pelo menos que os consumidores tenham total conhecimento dos riscos associados a estas substâncias.

            Ana Nunes da Silva


Segue abaixo o link da noticia.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

[The Naked Lunch]: SmartShops: Serão assim tão smarts?


Que são smartshops? São lojas que vendem drogas legalmente como se fossem produtos naturais – incensos, fertilizantes, cultivo… Estas são apenas algumas das categorias que encontram ao entrarem no site de uma das várias smartshops existentes. Isto até poderia ser algo “inofensivo” não fosse o desconhecimento acerca de muitas destas substâncias. Se um utente der entrada num serviço de saúde com uma intoxicação por álcool ou uma overdose de heroína, saberão como o tratar. Quando se dá entrada com alterações por uso de um desses “fertilizantes” a coisa já é outra.
Um dos aspectos mais grave desta situação é que estas lojas estão por aí ao alcance de qualquer um, legalmente, com os produtos sujeitos a 23% de iva! A própria descrição que vem na embalagem de um destes “fertilizantes”, “incensos”, etc diz “produtos não destinados ao consumo humano”.
Actualmente já são conhecidos casos de intoxicação com substâncias compradas nas ditas smartshops, mas em termos legais pouco ou nada se pode fazer. Ao provar-se que o produto tem malefícios apenas poderá ser tirado do mercado mas rapidamente aparecem mais 20 ou 30 novos sem qualquer tipo de avaliação/controlo.
Eu até consigo perceber que se queira experimentar umas coisas novas, beber uns copos... Se calhar por defeito de profissão vi tanta gente a sofrer por causa da dependência de álcool, surtos psicóticos em jovens por causa de um charro… que me assusta ver a leveza com que esta situação das smart shops está a ser (não) gerida.
Pouco ou nada sabemos sobre estas substâncias. Como profissional de saúde confesso um certo receio das surpresas que os produtos destas lojas inteligentes nos possam trazer.
Acham os meus receios infundados? Já experimentaram alguma destas substâncias? Conhecem algum caso de intoxicação?

Esperteza onde nos levas?

Ana Nunes da Silva

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

[The Naked Lunch]: Consumos Problemáticos?


Mantendo-nos à volta do álcool, e uma vez que já usei a expressão anteriormente, parece-me importante esclarecer o que é um consumo moderado.
Para quem está a pensar “é beber e ainda ser capaz de fazer o 4” desengane-se! Este não é um conceito fácil de transmitir na medida em que a expressão transmite ideias diferentes para pessoas diferentes. É comum ser associado ao que é socialmente aceite beber e até é uma expressão usada em nota de roda pé nos anúncios a bebidas com álcool “deve beber com moderação”. Mas usualmente não é explicado o que significa. A denominação consumo moderado foi inclusivamente recentemente alterada para consumo de baixo risco, na medida em que a partir do momento em que se ingere uma bebida com álcool há um risco acrescido.
Para a população adulta, baixo risco significa uma quantidade máxima diária de 2 bebidas padrão ou 20 g* de álcool puro para os homens; quantidade que após os 65 anos deve ser reduzida para 1 bebida padrão ou 10g* de álcool puro.
Para as mulheres beber moderadamente significa 1 bebida padrão ou 10g* de álcool puro em qualquer idade.
De salientar que esta definição se refere à quantidade consumida num único dia e não significa a média ao longo de vários dias. Como por exemplo, beber 6 bebidas ao sábado “já tenho a minha cota da semana”.
Não devemos esquecer as exceções, como as mulheres grávidas e a amamentar, as pessoas com alterações do SNC, as pessoas que estão a fazer medicação, e as pessoas com dependência de álcool, que não deverão beber qualquer tipo de bebida alcoólica.

A Organização Mundial de Saúde classifica ainda os consumos de álcool como:
Consumo de risco - é um padrão de consumo que pode vir a implicar dano físico ou mental se esse consumo persistir.
Consumo nocivo/abuso - é um padrão de consumo que causa danos à saúde, quer físicos quer mentais. Todavia não satisfaz os critérios de dependência.
Dependência - é um padrão de consumo constituído por um conjunto de aspectos clínicos e comportamentais que podem desenvolver-se após repetido uso de álcool, desejo intenso de consumir bebidas alcoólicas, descontrolo sobre o seu uso, continuação dos consumos apesar de consequências gravosas, uma grande importância dada aos consumos em desfavor de outras actividades e obrigações, aumento da tolerância ao álcool (necessidade de quantidades crescentes da substância para atingir o efeito desejado ou uma diminuição acentuada do efeito com a utilização da mesma quantidade) e sintomas de privação quando o consumo é descontinuado.

Por vezes as pessoas ficam um pouco chocadas com as quantidades para um consumo de baixo risco, porque são muito abaixo do que é socialmente aceite.

Qual a vossa opinião/posição face aos consumos de álcool? Já tiveram algum episódio mais desagradável com álcool, pessoalmente, ou com amigos? Já quiseram ajudar alguém com descontrolo ao nível dos consumos e não souberam como?
Se têm dúvidas acerca do vosso padrão de consumo podem usar um auto teste – AUDIT – que permite um despiste rápido do tipo de consumo.

Tenham uma boa semana. Ah! E se conduzirem não bebam! Ou vice-versa!

Ana Nunes da Silva
 
*Conversão do volume de álcool em gramas
Podemos converter qualquer volume de álcool em gramas seguindo a seguinte regra: cada mililitro de álcool , tem 0.8g de álcool puro.
Exemplo: I l de vinho de 12º = 120 ml de álcool
120 ml x 0.8 (factor de conversão ) = 96 gramas
Não esquecer que bebidas com mais graduação terão mais gramas de álcool por litro!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[The Naked Lunch]: Mitos sobre o Álcool


Antes de começar a escrever este post, gostaria de começar por agradecer aos meus colegas da Unidade de Alcoologia de Lisboa, do instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). Muito do que hoje sei acerca das diversas intervenções no âmbito dos problemas ligados ao álcool (PLA) deve-se ao que aprendi com os elementos desta equipa, muitos deles com mais de 20 anos de experiência na área.
Um dos primeiros contactos que tive com a área foi no âmbito de desmistificar ideias que muitas vezes são veiculadas no senso comum, e que é importante ter em conta principalmente ao trabalhar-se neste contexto.

Alguns de vocês estarão já a pensar “mas ela não ia falar de toxicodependências? E agora está para aqui a falar de álcool?!”

           O álcool é uma droga (VERDADEIRO). O álcool provoca dependência física e psíquica como qualquer outra droga, como a heroína ou a cocaína. A diferença encontra-se na legalização, sendo o álcool uma droga legal e o seu consumo é socialmente aceite e até mesmo incentivado. Para algumas pessoas é possível um consumo moderado [explicarei as normas de moderação noutro post] não implicando riscos para a saúde.
A Unidade que referi anteriormente criou uma brochura que se encontra disponível on-line no portal da saúde na qual poderão encontrar alguma desta informação.

Um dos mitos, talvez dos mais antigos, associado ao consumo de álcool é que o álcool aquece. Isto não é verdade. Efectivamente quando se bebem bebidas com álcool existe uma sensação de calor que leva à percepção de se estar a ficar mais quente. Contudo, estamos é a perder calor! O álcool faz com que o sangue se desloque do interior do corpo para a superfície, provocando essa sensação de calor. Mas efectivamente estamos a perder calor, porque este movimento do sangue provoca perda de calor interno: o sangue encontra-se a uma temperatura de cerca de 37º e normalmente é superior à temperatura ambiente. Quando o sangue volta a passar pelo coração há necessidade do organismo despender energia no restabelecimento da sua temperatura!

Algo que também se ouvia muito, principalmente nas zonas rurais, era que “o álcool dá força”. Também não é verdade. O álcool tem um efeito estimulante e anestesiante, que disfarça o cansaço provocado pelo trabalho físico ou intelectual intenso, dando a ilusão de voltarem as forças. Mas, depois o cansaço é a dobrar porque o organismo vai gastar ainda mais energias para "queimar" o álcool no fígado e por um esforço acrescido do coração para restabelecimento da sua temperatura! Não nos podemos esquecer que o álcool não é um alimento (verdade!). Contrariamente aos verdadeiros alimentos, ele não ajuda na edificação, construção e reconstrução do organismo. O álcool não tem valor nutritivo porque produz calorias inúteis para os músculos e não serve para o funcionamento das células!

Um outro mito associado ao consumo de álcool é a que ajuda a digestão e abre o apetite. Not true! O álcool faz com que os movimentos do estômago sejam muito mais rápidos do que o normal e os alimentos passam precocemente para o intestino sem estarem devidamente digeridos, dando a sensação de estômago vazio. O seu uso prologado pode resultar na falta de apetite e no aparecimento de gastrites e de úlceras! 

Um outro mito, que me parece que pode prejudicar bastante, e agora penso em particular no grupo dos jovens, é a ideia de que o álcool ajuda a lidar com a timidez e facilita as relações sociais. FALSO! O álcool até pode ter esse efeito desinibidor, e assim haver a sensação de estar mais à vontade. Mas não será isso uma ilusão? Por um lado, nem sempre é possível controlar os consumos nesse ponto, entre o estar “sóbrio” e mais desinibido, e por outro as relações não se tornarão pouco profundas ou até mesmo artificiais?

Aguardo dúvidas, sugestões e comentários! E vejam lá não se metam nos copos! ;)

Ana Nunes da Silva

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

[The Naked Lunch]: Apresentação!

Olá a todos!

O meu nome é Ana, sou psicóloga clínica e vou estar encarregue da rúbrica “The Naked Lunch”. Como podem antecipar pelo nome, esta rubrica estará relacionada com as toxicodependências, mas não só. Este nome é inspirado na obra escrita por William S. Burroughs em 1959, narrada por um junkie, e ao que parece o escritor estava em ácidos ao escrevê-la…

Tendo trabalhado na área da saúde mental desde 2006, os últimos anos foram dedicados principalmente à intervenção nos problemas ligados ao álcool. Encontro-me atualmente a realizar um doutoramento na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa sobre Alexitimia, Processamento Emocional e Psicoterapia.

Mitos e crenças associadas ao álcool e outras drogas, intervenção, prevenção e políticas associadas, serão alguns dos temas que iremos abordar. Espero poder contar com os vossos comentários, perguntas e sugestões!

Ana Nunes da Silva