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segunda-feira, 10 de março de 2014

Da Psicologia: Rótulos, Estereótipos e Esquemas


Em termos sociais, os rótulos são as etiquetas usadas para definir alguém ou um grupo, algo ou um conjunto. Porque ocorre? Por associação directa à sua utilização anterior.
Assim, cada vez que um rótulo é utilizado, o sentimento, pensamento e comportamento associado ao que é rotulado, ocorre de forma mais célere, sendo mais fácil, para quem rotula, agir.

O que significa isto?

Um rótulo é um estereótipo. Uma ferramenta cognitiva que diminui as ligações psicológicas para sentir, pensar e agir, permitindo uma actuação com menos custos. No entanto, este funcionamento, assente em esquemas, pode ser funcional ou não funcional.
Quando este esquema assenta em preconceitos, a reação gerada pelo funcionamento esquemático daquela derivação nem sempre é a mais benéfica para a conclusão desejada à nossa interpretação. A situação em causa é interpretada de forma enviesada, e como o sentir, pensar e agir é célere e com baixos custos e recursos cognitivos, não é discutido e debatido psicologicamente o esquema a utilizar. É, assim, utilizado o esquema mais acessível, o do estereótipo em causa, e a acção é directa, sem passar por um filtro de controlo.
Se na maioria das vezes os estereótipos e esquemas são ferramentas essenciais da acção Humana, noutras vezes são situações de conclusão errónea para o ser Humano e, por isso, não adaptativas.
Mas não se enganem. É preciso querer que a adaptação ocorra. Se o erro for de bom grado para o próprio, por muito que seja perceptível a incorrecção do sentimento, pensamento ou comportamento, ele será mantido.
Mudar custa, mas faz bem.

Tiago A. G. Fonseca

terça-feira, 19 de março de 2013

Prenda Emocional!?


Remeto as considerações sobre a existência do Dia do Pai para a publicação sobre o Diada Mulher, sendo que na minha opinião, são diferentes. Este segundo remete ao estereótipo antigo, já discutido na dita publicação. O primeiro, existe em paralelo com o Dia da Mãe. Podemos dizer que são “dias” comemorativos criados pelo e para o comércio, mas a comemoração dos dois inibe a criação e manutenção do estereotipo de um deles.

Assim, gostava apenas de reflectir convosco sobre esta imagem, relativa ao Dia do Pai, mas com uma mensagem maior, parece-me.

 
Vivemos todos numa sociedade consumista, onde muitos dos valores que nos são transmitidos socialmente passam pela aquisição e atribuição material, como é o caso da troca de prendas no Natal, as prendas de aniversário e destes dias comemorativos (etc).

O valor do beijo e do abraço perde força quando comparados com uma prenda material? Ou serão estas representações emocionais mais fortes e memoráveis? Penso que a sociedade se arraste e posicione no sentido da memória ligada ao material, e noutros nichos, ligação ao emocional revelado no gesto e/ou na intenção. As duas são encontradas, sendo a segunda mais adaptativo em termos humanos.

É importante que nunca esqueçamos estes momentos emocionais, estes gestos e as suas implicações, que não tenhamos vergonha das ligações emocionais que nos unem a todos e que consigamos promove-las sempre de forma saudável, pois são elas que toldam e moldam a nossa regulação emocional, que, quando não é cuidada, nos transmite informação errónea sobre as nossas necessidades psicológicas, levando à sua não satisfação, e assim, à nossa não óptima adaptação e funcionalidade.

Permitam-se ser emocionais, mas façam-no de forma equilibrada e regulada!

Feliz Dia do Pai!

Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 8 de março de 2013

Porquê um Dia da Mulher?

Antes de mais, feliz Dia da Mulher!
Não serve esta publicação como forma de protesto contra a existência de um dia comemorativo da mulher, ou porque não existe um do homem ou apenas porque sim. Serve para mostrar um outro lado da existência destes dias e deixar uma ideia para reflexão.
 

A existência de um dia comemorativo de algo serve vários propósitos de agenda social e cultural, bem como uma interligação entre o comemorado e quem comemora.
A mensagem transmitida é que é neste dia que se criam actividades de comemoração do comemorado, que se alerta a população para situações urgentes e necessárias e que se promove algo, como igualdade e justiça num determinado tema.
Mas deveria ser suposto comemorar a mulher todos os dias? Não deveria a população ter atenção ao seu nível de diabetes todos os dias? Não deveriam todos os seres humanos ter os mesmos direitos? E todos saberem e promoverem isto todos os dias? Então o paradigma tem de ser outro. Educar, todos os dias, até ser padrão cultural, que se deve ter orgulho em quem se é, que nos devemos preocupar com determinadas situações e que, acima de tudo, temos de ter respeito pelas escolhas e opções de todos.
Os estereótipos são do tamanho da importância que lhes damos. Quanto menos importância, menos influência tem o estereótipo e mais normalizado se torna. Esta normalização promove padrões de comportamento adequados, tornando os dias comemorativos em situações diárias.
Fica a ideia!

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

[Psicologia e Política]: Lei da Paridade é Igualdade?


            A Lei da Paridade, Março de 2006, estabelece que as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as Autarquias Locais, têm de ser compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos.
            Significa isto que em cada 3 elementos de uma lista, 1 tem de ser do sexo feminino.
            Colocando de lado a aplicação ou não da lei, será importante perceber as implicações psicológicas de tal lei.

            O que se verifica na maioria das listas apresentadas desde então, é que as mulheres aparecem nos números 3, 6, 9, 12… passando de elementos participantes e intervenientes, a elementos necessários. É impossível não sentir desmotivação ao perceber este dado. A sensação que dá é que é necessário mais esforço por parte dos elementos do sexo feminino para não estarem em lugares múltiplos de 3. Não se quer participar em algo que interpretamos como sendo “para encher” ou “porque é obrigatório”. Não se quer investir em trabalho neste formato.
            É como se fosse criado um estereótipo: Pessoas do Sexo Feminino que Participam na Política, onde as mulheres são claramente, por lei, identificadas como minoria. Como se fosse necessária uma lei para que as mulheres participassem na vida política. Por vezes, parece que nos esquecemos que grandes mulheres já fizeram – e fazem – parte da vida política em Portugal.
            O efeito obtido é o contrário. Ao invés de 2 ou 3 mulheres participantes, temos 6 onde apenas metade aparece e participa, que tiram, protegidas por lei, lugar a quem poderia efectivamente trabalhar politicamente. A percepção de que é necessária uma lei que valorize o trabalho das mulheres, é ridícula. A percepção de que alguém é bom e por isso faz falta, é correcta. A motivação para a política deve ser verdadeira, sendo que a disponibilidade para tal exercício deve ser real e não promovido por lei.

            A igualdade não pode ser alcançada por leis, mas sim por mudança de pensamentos, onde terá de existir a compreensão global, por parte da sociedade em todas as suas classes, de que homens e mulheres em política, têm necessariamente de trabalhar para um todo, isso sim, protegido por lei.
            Uma lei que visa promover a igualdade de género criando desigualdades políticas directas, é uma lei sem fundamento. É necessário actuar nas opiniões públicas e na sociedade de forma a demonstrar e a valorizar o papel que as mulheres podem ter na política e na sociedade.

Tiago A. G. Fonseca

domingo, 13 de janeiro de 2013

Da Psicologia: O Que São Afinal as Atitudes?


            Muito se têm falado de atitudes. As nossas, as dos outros, mas sobretudo a sua influência no dia-a-dia. Mas o que são afinal Atitudes?
Para o senso comum, encontrei que Atitudes são “os nossos comportamentos” e “o que fazemos em relação a algo”.
As Atitudes são assim vistas como comportamentos. A forma como nos comportamos e agimos perante uma situação. Mas não.

Afinal, o que são Atitudes? Segundo Gleitman, Fridlund e Reisberg (2007), Atitudes são uma “disposição relativamente estável, avaliativa, que faz uma pessoa pensar, sentir ou comportar-se, positiva ou negativamente em relação a determinada pessoa, grupo ou problema social” (pp. 1225).

Percebendo a definição, podemos dizer que Atitudes são a vertente psicológica de um Comportamento. São as nossas percepções, expectativas e conhecimentos, que juntos influenciam a nossa avaliação de algo ou alguém. Esta avaliação conduz a um comportamento ou a pensamentos e sentimentos. Pelos pensamentos e sentimentos, podemos concretizar comportamentos, e pelos comportamentos podemos deduzir atitudes.
Para dar um exemplo, falemos de estereótipos. Estes aspectos podem aqui ser distinguidos. Uma atitude agressiva para com um indivíduo de outra raça será um comportamento, que poderá ter base em sentimentos de inferioridade e pensamentos de perigosidade, todos assentes numa atitude estereotipada e pré concebida, que envolve as expectativas, percepções e conhecimentos passados do sujeito.
Quando se diz “não interessam palavras, interessam atitudes” (exemplo também dado quando recolhi o que eram Atitudes), o sentido que se quer fazer transmitir é o inverso. As palavras provêm de atitudes. Há que construir boas atitudes para que as palavras sejam as pretendidas. Atitudes não-adaptativas levarão a consequências não-adaptativas, enquanto atitudes adaptativas levarão a consequências adaptativas. Estas consequências são os seus resultados, ou seja, sentimentos, pensamentos e comportamentos.

Tiago A. G. Fonseca

 
Gleitman, H., Fridlund, A. J., & Reisberg, D. (2007). Psicologia (7ª ed). Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Homem do Violino


Dos constructos cognitivos condicionantes da percepção à que destacar os estereótipos. Estas estruturas cognitivas são compostas, segundo Hamilton e Trolier (1986), pelos nossos conhecimentos e expectativas, ou seja, pelos resultados psicológicos das nossas experiências. Ainda segundo os autores, os estereótipos determinam os nossos julgamentos e avaliações, acerca de grupos e/ou dos seus membros. Acrescento aqui, também, além do apontado pelos autores, o contexto e os seus estímulos.
Deixo-vos um exemplo, ocorrido no ano passado numa estação de metro, nos Estados Unidos da América. Segue o relato escrito e o clip com o ocorrido.

Um homem sentou-se numa estação de metro de Washington DC e começou a tocar violino, era uma fria manhã de Janeiro; Ele tocou seis peças de Bach durante aproximadamente 45 minutos. Durante esse tempo, já que era hora de ponta, calcula-se que cerca de 1,100 pessoas atravessaram a estação, a sua maioria, a caminho do trabalho.
Três minutos passaram quando um homem de meia idade notou que o músico estava a tocar, abrandou o passo e parou por alguns segundos, mas continuou depois o seu percurso para não chegar atrasado.
Um minuto depois, o violinista recebeu o seu primeiro dólar: uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e continuou o seu caminho.
Alguns minutos depois, alguém se encostou à parede para o ouvir, mas olhando para o relógio retomou a marcha. Estava claramente atrasado para o trabalho.
Quem prestou maior atenção foi um menino de 3 anos. A mãe trazia-o pela mão, apressada, mas a criança parou para olhar para o violinista. Finalmente, a mãe puxou-o com mais força e o miúdo continuou a andar, virando a cabeça várias vezes para ver o violinista. Esta acção foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem excepção, obrigaram as crianças a prosseguir.
Nos 45 minutos em que o músico tocou, somente 6 pessoas pararam por algum tempo. Cerca de 20 deram-lhe dinheiro mas continuaram no seu passo normal. Ele recolheu cerca de 32 dólares. Quando ele parou de tocar e o silêncio tomou conta do lugar, ninguém se deu conta. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.
Ninguém sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas alguma vez escritas num violino de 3,5 milhões de dólares. Dois dias antes de tocar no metro, Joshua Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dólares.
Esta é uma história real, Joshua Bell tocou incógnito na estação de metro num evento organizado pelo Washington Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e prioridades.

Acrescento que a mulher que surge na segunda parte do clip mostrando todo o interesse durante grande parte da actuação, justifica a mesma com o conhecimento que tem de quem é Joshua Bell.

Não existiu, claramente, uma percepção clara do que estava a ocorrer. Podemos deduzir várias hipóteses: não existem expectativas para aquele acontecimento naquele contexto; as prioridades individuais não permitiam a percepção da actuação de forma adequada; variáveis idiossincráticas que justificam a não atenção; Tendo em conta tudo o que já foi dito neste espaço sobre percepção, estas hipóteses podem ter base em estereótipos.
A realidade de cada um é uma construção realizada pelas suas percepções. As nossas percepções são resultado de estereótipos, expectativas, motivações e resultados anteriores que são projectados para as situações actuais.
Devido a razões idiossincráticas, centenas de pessoas perderam uma actuação espantosa, e de forma gratuita. Outra variável da percepção, que aqui faria, com certeza, diferença, é a informação disponível no contexto, que, se disponível sobre esta actuação, várias pessoas teriam parado para ouvir.
A mulher do final do clip que fala com o músico não padece do estereótipo de todos os outros. A informação que tem do contexto é oposta a todas as outras pessoas: sabe quem realiza a actuação e pára para ouvir, prestando uma atenção que apenas uma motivação intrínseca poderia provir. Existe também um homem que ouve durante algum tempo, mas como não se manifesta verbalmente, não é possível aferir a sua percepção da situação. Mas claramente, foi diferente. Não usou estereótipos e permitiu-se ser surpreendido por informação nova. Não valerá esta permissão a pena, mesmo que de vez em quando?


Tiago A. G. Fonseca

Hamilton, D.L., & Trolier, T.K. (1986). Stereotypes and stereotyping: An overview of the cognitive approach. In J. Dovidio & S. Gaertner (Eds.), Prejudice, discrimination, and racism (pp. 127-163). Orlando, FL: Academic Press.