Em
termos sociais, os rótulos são as etiquetas usadas para definir alguém ou um
grupo, algo ou um conjunto. Porque ocorre? Por associação directa à sua
utilização anterior.
Assim,
cada vez que um rótulo é utilizado, o sentimento, pensamento e comportamento
associado ao que é rotulado, ocorre de forma mais célere, sendo mais fácil,
para quem rotula, agir.
O
que significa isto?
Um
rótulo é um estereótipo. Uma ferramenta cognitiva que diminui as ligações
psicológicas para sentir, pensar e agir, permitindo uma actuação com menos
custos. No entanto, este funcionamento, assente em esquemas, pode ser funcional
ou não funcional.
Quando
este esquema assenta em preconceitos, a reação gerada pelo funcionamento
esquemático daquela derivação nem sempre é a mais benéfica para a conclusão
desejada à nossa interpretação. A situação em causa é interpretada de forma
enviesada, e como o sentir, pensar e agir é célere e com baixos custos e
recursos cognitivos, não é discutido e debatido psicologicamente o esquema a utilizar.
É, assim, utilizado o esquema mais acessível, o do estereótipo em causa, e a
acção é directa, sem passar por um filtro de controlo.
Se
na maioria das vezes os estereótipos e esquemas são ferramentas essenciais da
acção Humana, noutras vezes são situações de conclusão errónea para o ser
Humano e, por isso, não adaptativas.
Mas
não se enganem. É preciso querer que a adaptação ocorra. Se o erro for de bom
grado para o próprio, por muito que seja perceptível a incorrecção do
sentimento, pensamento ou comportamento, ele será mantido.
Remeto
as considerações sobre a existência do Dia do Pai para a publicação sobre o Diada Mulher, sendo que na minha opinião, são diferentes. Este segundo remete ao
estereótipo antigo, já discutido na dita publicação. O primeiro, existe em
paralelo com o Dia da Mãe. Podemos dizer que são “dias” comemorativos criados
pelo e para o comércio, mas a comemoração dos dois inibe a criação e manutenção
do estereotipo de um deles.
Assim,
gostava apenas de reflectir convosco sobre esta imagem, relativa ao Dia do Pai,
mas com uma mensagem maior, parece-me.
Vivemos
todos numa sociedade consumista, onde muitos dos valores que nos são
transmitidos socialmente passam pela aquisição e atribuição material, como é o
caso da troca de prendas no Natal, as prendas de aniversário e destes dias
comemorativos (etc).
O valor do beijo e do abraço perde
força quando comparados com uma prenda material? Ou serão estas representações
emocionais mais fortes e memoráveis?
Penso que a sociedade se arraste e posicione no sentido da memória ligada ao
material, e noutros nichos, ligação ao emocional revelado no gesto e/ou na
intenção. As duas são encontradas, sendo a segunda mais adaptativo em termos
humanos.
É importante que nunca esqueçamos
estes momentos emocionais, estes gestos e as suas implicações, que não tenhamos
vergonha das ligações emocionais que nos unem a todos e que consigamos promove-las
sempre de forma saudável, pois são elas que toldam e moldam a nossa regulação
emocional, que, quando não é
cuidada, nos transmite informação errónea sobre as nossas necessidades
psicológicas, levando à sua não satisfação, e assim, à nossa não óptima
adaptação e funcionalidade.
Permitam-se ser emocionais, mas
façam-no de forma equilibrada e regulada!
Não
serve esta publicação como forma de protesto contra a existência de um dia
comemorativo da mulher, ou porque não existe um do homem ou apenas porque sim. Serve para mostrar um outro lado da
existência destes dias e deixar uma ideia para reflexão.
A
existência de um dia comemorativo de algo serve vários propósitos de agenda
social e cultural, bem como uma interligação entre o comemorado e quem
comemora.
A
mensagem transmitida é que é neste dia que se criam actividades de comemoração
do comemorado, que se alerta a população para situações urgentes e necessárias
e que se promove algo, como igualdade e justiça num determinado tema.
Mas
deveria ser suposto comemorar a mulher todos os dias? Não deveria a população
ter atenção ao seu nível de diabetes todos os dias? Não deveriam todos os seres
humanos ter os mesmos direitos? E todos saberem e promoverem isto todos os
dias? Então o paradigma tem de ser outro.
Educar, todos os dias, até ser padrão cultural, que se deve ter orgulho em quem
se é, que nos devemos preocupar com determinadas situações e que, acima de
tudo, temos de ter respeito pelas escolhas e opções de todos.
Os estereótipos são do tamanho da
importância que lhes damos. Quanto menos importância, menos influência tem o
estereótipo e mais normalizado se torna. Esta normalização promove padrões de
comportamento adequados, tornando os dias comemorativos em situações diárias.
A Lei da Paridade, Março de 2006, estabelece
que as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para
as Autarquias Locais, têm de ser compostas de modo a assegurar a representação
mínima de 33% de cada um dos sexos.
Significa isto que em cada 3
elementos de uma lista, 1 tem de ser do sexo feminino.
Colocando de lado a aplicação ou não
da lei, será importante perceber as implicações psicológicas de tal lei.
O que se verifica na maioria das
listas apresentadas desde então, é que as mulheres aparecem nos números 3, 6,
9, 12… passando de elementos participantes e intervenientes, a elementos
necessários. É impossível não sentir
desmotivação ao perceber este dado. A sensação que dá é que é necessário
mais esforço por parte dos elementos do sexo feminino para não estarem em
lugares múltiplos de 3. Não se quer
participar em algo que interpretamos como sendo “para encher” ou “porque é
obrigatório”. Não se quer investir em trabalho neste formato.
É
como se fosse criado um estereótipo: Pessoas do Sexo Feminino que Participam na
Política, onde as mulheres são claramente, por lei, identificadas como minoria.
Como se fosse necessária uma lei para que as mulheres participassem na vida
política. Por vezes, parece que nos esquecemos que grandes mulheres já
fizeram – e fazem – parte da vida política em Portugal.
O efeito obtido é o contrário. Ao invés
de 2 ou 3 mulheres participantes, temos 6 onde apenas metade aparece e
participa, que tiram, protegidas por lei, lugar a quem poderia efectivamente
trabalhar politicamente. A percepção de que é necessária uma lei que valorize o
trabalho das mulheres, é ridícula. A
percepção de que alguém é bom e por isso faz falta, é correcta. A motivação
para a política deve ser verdadeira, sendo que a disponibilidade para tal exercício
deve ser real e não promovido por lei.
A igualdade não pode ser alcançada
por leis, mas sim por mudança de pensamentos, onde terá de existir a compreensão
global, por parte da sociedade em todas as suas classes, de que homens e
mulheres em política, têm necessariamente de trabalhar para um todo, isso sim,
protegido por lei.
Uma lei que visa promover a
igualdade de género criando desigualdades políticas directas, é uma lei sem
fundamento. É necessário actuar nas opiniões públicas e na sociedade de forma a
demonstrar e a valorizar o papel que as mulheres podem ter na política e na sociedade.
Muito se têm falado de atitudes. As
nossas, as dos outros, mas sobretudo a sua influência no dia-a-dia. Mas o que são afinal Atitudes?
Para
o senso comum, encontrei que Atitudes são “os
nossos comportamentos” e “o que
fazemos em relação a algo”.
As
Atitudes são assim vistas como comportamentos. A forma como nos comportamos e
agimos perante uma situação. Mas não.
Afinal, o que são Atitudes? Segundo Gleitman, Fridlund e Reisberg (2007), Atitudes
são uma “disposição relativamente
estável, avaliativa, que faz uma pessoa pensar, sentir ou comportar-se,
positiva ou negativamente em relação a determinada pessoa, grupo ou problema
social” (pp. 1225).
Percebendo
a definição, podemos dizer que Atitudes
são a vertente psicológica de um Comportamento. São as nossas percepções,
expectativas e conhecimentos, que juntos influenciam a nossa avaliação de algo
ou alguém. Esta avaliação conduz a um comportamento ou a pensamentos e
sentimentos. Pelos pensamentos e sentimentos, podemos concretizar
comportamentos, e pelos comportamentos podemos deduzir atitudes.
Para
dar um exemplo, falemos de estereótipos. Estes aspectos podem aqui ser
distinguidos. Uma atitude agressiva para
com um indivíduo de outra raça será um comportamento, que poderá ter base em
sentimentos de inferioridade e pensamentos de perigosidade, todos assentes numa
atitude estereotipada e pré concebida, que envolve as expectativas, percepções
e conhecimentos passados do sujeito.
Quando
se diz “não interessam palavras,
interessam atitudes” (exemplo também dado quando recolhi o que eram
Atitudes), o sentido que se quer fazer transmitir é o inverso. As palavras provêm de atitudes. Há que
construir boas atitudes para que as palavras sejam as pretendidas. Atitudes
não-adaptativas levarão a consequências não-adaptativas, enquanto atitudes adaptativas levarão a
consequências adaptativas. Estas consequências são os seus resultados, ou
seja, sentimentos, pensamentos e comportamentos.
Tiago
A. G. Fonseca
Gleitman,
H., Fridlund, A. J., & Reisberg, D. (2007). Psicologia (7ª ed). Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.
Dos
constructos cognitivos condicionantes da percepção à que destacar os
estereótipos. Estas estruturas
cognitivas são compostas, segundo Hamilton e Trolier (1986), pelos nossos conhecimentos e expectativas,
ou seja, pelos resultados psicológicos
das nossas experiências. Ainda segundo os autores, os estereótipos determinam os nossos julgamentos e avaliações, acerca
de grupos e/ou dos seus membros. Acrescento
aqui, também, além do apontado pelos autores, o contexto e os seus estímulos.
Deixo-vos
um exemplo, ocorrido no ano passado numa estação de metro, nos Estados Unidos
da América. Segue o relato escrito e o clip com o ocorrido.
“Um homem sentou-se numa estação de metro de
Washington DC e começou a tocar violino, era uma fria manhã de Janeiro; Ele
tocou seis peças de Bach durante aproximadamente 45 minutos. Durante esse
tempo, já que era hora de ponta, calcula-se que cerca de 1,100 pessoas
atravessaram a estação, a sua maioria, a caminho do trabalho.
Três minutos passaram quando um
homem de meia idade notou que o músico estava a tocar, abrandou o passo e parou
por alguns segundos, mas continuou depois o seu percurso para não chegar
atrasado.
Um minuto depois, o violinista
recebeu o seu primeiro dólar: uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e
continuou o seu caminho.
Alguns minutos depois, alguém se
encostou à parede para o ouvir, mas olhando para o relógio retomou a marcha.
Estava claramente atrasado para o trabalho.
Quem prestou maior atenção foi um
menino de 3 anos. A mãe trazia-o pela mão, apressada, mas a criança parou para
olhar para o violinista. Finalmente, a mãe puxou-o com mais força e o miúdo
continuou a andar, virando a cabeça várias vezes para ver o violinista. Esta
acção foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem excepção,
obrigaram as crianças a prosseguir.
Nos 45 minutos em que o músico
tocou, somente 6 pessoas pararam por algum tempo. Cerca de 20 deram-lhe
dinheiro mas continuaram no seu passo normal. Ele recolheu cerca de 32 dólares.
Quando ele parou de tocar e o silêncio tomou conta do lugar, ninguém se deu
conta. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.
Ninguém
sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do
mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas alguma vez escritas num
violino de 3,5 milhões de dólares. Dois dias antes de tocar no metro, Joshua
Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dólares.
Esta é uma história real, Joshua
Bell tocou incógnito na estação de metro num evento organizado pelo Washington
Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e
prioridades.”
Acrescento
que a mulher que surge na segunda parte do clip mostrando todo o interesse
durante grande parte da actuação, justifica a mesma com o conhecimento que tem
de quem é Joshua Bell.
Não
existiu, claramente, uma percepção clara do que estava a ocorrer. Podemos
deduzir várias hipóteses: não existem expectativas para aquele acontecimento
naquele contexto; as prioridades individuais não permitiam a percepção da
actuação de forma adequada; variáveis idiossincráticas que justificam a não
atenção; Tendo em conta tudo o que já foi dito neste espaço sobre percepção,
estas hipóteses podem ter base em estereótipos.
A realidade de cada um é uma
construção realizada pelas suas percepções.
As nossas percepções são resultado de estereótipos, expectativas, motivações e
resultados anteriores que são projectados para as situações actuais.
Devido
a razões idiossincráticas, centenas de pessoas perderam uma actuação espantosa,
e de forma gratuita. Outra variável da
percepção, que aqui faria, com certeza, diferença, é a informação disponível no
contexto, que, se disponível sobre esta actuação, várias pessoas teriam parado
para ouvir.
A
mulher do final do clip que fala com o músico não padece do estereótipo de
todos os outros. A informação que tem do contexto é oposta a todas as outras
pessoas: sabe quem realiza a actuação e pára para ouvir, prestando uma atenção
que apenas uma motivação intrínseca poderia provir. Existe também um homem que
ouve durante algum tempo, mas como não se manifesta verbalmente, não é possível
aferir a sua percepção da situação. Mas claramente, foi diferente. Não usou estereótipos e permitiu-se ser
surpreendido por informação nova. Não valerá esta permissão a pena, mesmo que
de vez em quando?
Tiago
A. G. Fonseca
Hamilton, D.L., & Trolier, T.K. (1986).
Stereotypes and stereotyping: An overview of the cognitive approach. In J.
Dovidio & S. Gaertner (Eds.), Prejudice,
discrimination, and racism (pp. 127-163). Orlando, FL: Academic Press.