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domingo, 4 de maio de 2014

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”

            Não, deixou de o ser. O que era continuou a sé-lo. Mas a avaliação “impossível” é que veio de alguém diferente. Pensamento diferente, percepção diferente, esquemas diferentes. Limitações subjectivas que a tendência Humana empurra e atribui aos outros. O que eu achar impossível para mim, assim o terá de ser para os outros.

            Mas outros, não sabendo da minha avaliação, criam a sua. E a sua é, obrigatoriamente, diferente das anteriores. Podem ter as mesmas palavras nas conclusões retiradas, mas os caminhos que a levaram até lá foram diferentes. E mantêm os comportamentos a ocorrer diferentes também. Isto ocorre pois a percepção dos estímulos envolventes às situações são entendidas por cada um com base nas suas experiências anteriores, e isso, como é entendido, é idiossincrático. Uma mesma situação é entendida por cada indivíduo de forma diferente. Variando entre indivíduos, varia ainda em cada momento do mesmo, pois face a situações semelhantes, temos respostas diferentes ao longo do tempo.
            Se a avaliação da situação não é de que a mesma é impossível, os esquemas criados para a mesma não a mostram como tal. Assim, as limitações do funcionamento esquemático são diferentes, mais abertas, menos rígidas, e permitem uma melhor adaptação face à mesma. A conclusão será, assim, a mais adaptativa possível no sentido do objectivo desejado de acordo com os comportamentos realizados.

            A atribuição de rótulos baseados em avaliações de terceiros levam-nos a erros de percepção para as situações do dia-a-dia. Algumas, como diz a história espelhada nos provérbios e fado cultural de um povo, ajudam-nos a viver melhor, evitando isto e aquilo, como um guia tradicional a realizar. Outros, inibem experiências e desenvolvimento pessoal, pensamento crítico e acção geradora de bem-estar.
            A distinção entre ambas é essencial para a melhor adaptação dos indivíduos que potencie o seu desenvolvimento enquanto seres Humanos, Pessoas, Cidadãos, e todos os outros papeis que, bem ou mal, temos na sociedade.

            Tiago A. G. Fonseca

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[Coisas da Percepção]: Datas...

            Os dias funcionam como triggers.
            Activadores de esquemas, potenciadores de crenças e as percepções seguem-se.
         Realizam-se associações, recordam-se eventos, comportamentos, pensamentos e sentimentos que apenas são associados a tudo, excepto ao que os fez surgir: o canto do monitor com a data.
         A data, essa, pode nem ser a mesma. O ano é outro, o mês poderá ser diferente. Mas o que faz disparar os sentidos da mente, raramente, é linear. Coerente, sim. Mas nunca linear.
          Tudo é resultado da percepção. Umas mais funcionais que outras, umas mais emotivas do que outras, mas todas com o papel de alterar o nosso presente psicológico.
            Uns dirão que se devem controlar. Outros dirão que devem ser vividas.
        Eu cá digo que controlando-as, disfarçamos o seu efeito; vivendo-as, potenciamos a sua acção. Aceitar e integrar, parece-me o indicado.

            Tiago A. G. Fonseca

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

[Coisas da Percepção]: Como entendo a Percepção



Depois de nos últimos 12 meses ter realizado várias publicações sobre Percepção, crio assim uma rubrica mais dinâmica, não mensal, sobre as Coisas da Percepção.
O que tenho demonstrado ao longo de várias publicações é a variação da percepção, entre indivíduos, em diversos contextos, variante com crenças e motivações.
Entendo a Percepção como a base primária do nosso comportamento. Porquê? A Percepção é a resposta psicológica aos estímulos do meio, que foram a nossa base cognitiva, que originam as emoções que levarão, mais à frente, aos nossos comportamentos. Estes serão assim respostas, baseadas em esquemas e crenças, aprendizagens e experiências anteriores, que serão consequência directa da nossa percepção.
As suas variações, adaptativa ou não, com ou sem desvios, faz do que realizamos a base do que, na essência, somos.

Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Psicólogos Envolvidos em Montanha-Russa


            A “Smiler” é a nova atracção do parque de diversões britânico “The Staffordshire”, e custou mais de 21 milhões euros, conseguindo um recorde de 14 "loopings", alternados com uma velocidade de 85 Kms/hora e descidas de 30 metros.
            Como podem perceber, é algo repleto de estímulos activadores do funcionamento humano, físico e psicológico.

            E não é por acaso. Esta nova diversão foi concebida com a ajuda de vários investigadores, onde foram incluídos especialistas em psicólogos. Segundo os criadores, a tarefa destes especialistas era simples: criar efeitos psicológicos nos utilizadores, "esbatendo a linha entre a ilusão e a realidade". Acrescentam que  "Há cinco efeitos mentais distintos, todos concebidos para baralhar o cérebro".

            Fica a notícia com um vídeo, simulando uma viagem no “Smiler”.

            Que vos parece?

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 29 de abril de 2013

[Psicologia e Política]: Percepção do 25 de Abril de 1974

            Não sou da geração que viveu este dia, mas sou da geração que se preocupa com ele. Porquê? Porque existiu um conjunto de valores que foram sendo passados de geração em geração, de pessoa para pessoa, até me chegar a mim e que, depois, fizeram sentido e foram integrados como informação válida a ser utilizada.
Mas a questão que fica é: Como é que pessoas que não viveram o acontecimento, podem ser tão entusiastas da mesma? Isto é, como é que a nossa base psicológica nos permite acreditar em algo não experienciado por nós?

A isto chamamos de Cultura.
Outras teorias, como a de Jung, chamariam, à causa deste acontecimento, uma acção do Inconsciente Colectivo. Isto é, um conjunto de práticas, de saberes, de tradições e costumes, que são passados entre pessoas. Estas informações, a fazerem sentido e sendo úteis, para a acção ou compreensão da realidade, transformam-se em verdades universais de determinada população. Assim justificamos o significado dos feriados e seus motivos, ou as consequências positivas e negativas de determinados acontecimentos.

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 1 de abril de 2013

[Psicologia e Política]: Tradições

Quero trazer-vos hoje um tema sempre actual. Tradições Culturais.

            Todas as culturas as têm, mais ou menos carregadas, com mais ou menos impacto social, com mais ou menos identificação cultural, mas é certo que elas são parte integrante de cada pessoa, integrada na cultura a que pertence, definindo-a e distinguindo-a entre sociedades.
            A imagem seguinte mostra uma tradição de grande história em Portugal, comparando a sua imagem de marca “tradição” com outras presentes num passado.

 


            Antes de mais quero esclarecer que não importa aqui a minha posição face às tradições mencionadas. Importa levantar algumas questões psicológicas que interferem na nossa posição face a essas tradições.

            Sabe-se que desde sempre existiu necessidade de passar às gerações seguintes o conhecimento das gerações anteriores. Isto acontece devido à noção da mortalidade do Homem, e faz-se através da realização de actividades que promovam a identificação dos povos. Com estas práticas, os conhecimentos e costumes de uma sociedade são transmitidos, e é assegurada a continuidade de uma tradição, de uma cultura, de uma sociedade. Podemos dizer que será tão mais duradoura uma população, quanto mais tempo souber preservar as suas tradições, os seus costumes e a sua cultura.

            Com o avançar do tempo surgiu uma questão moral associada às tradições: algumas delas têm impacto directo nas diferentes opiniões da população, dentro de uma mesma cultura.
            A associação directa a este fenómeno tem a ver com o avançar dos tempos e a disponibilidade da informação a todos elementos de uma população, que cria algo impensável há muitos, muitos anos: dentro de uma mesma população, com uma mesma cultura, existem diferentes opiniões, que se reflectem em diferentes visões de uma mesma tradição.
            O que é motivo de orgulho para uns, não é para outros. O que é alvo de identificação para uns, não o é para outros.

            Mas então, o que acontece em termos psicológicos? O que leva a mudanças nas tradições? O que leva à sua manutenção?
O que deve ser ponderado é o que pesa mais na nossa opinião. O que é de mais fácil aceitação. O que nos trás mais motivos de orgulho no que somos e no que pertencemos. O que nos dá mais momentos prazerosos.
Muitas das vezes, o que pesa nestas premissas é o hábito e o medo de mudança, e não a actividade em si. Como será se for diferente?
Outra dificuldade é na visualização da possibilidade. Dá para ser diferente?

Importa agora pensar que tradições queremos – e devemos – passar Às futuras gerações. Este pensamento é demonstrado quando vemos as outras tradições apresentadas na imagem. Umas desaparecem, outras modificam-se e outras mantêm-se.

O esquema psicológico onde nos movemos diariamente é o mais fácil. Mudar custa. Sejam tradições, sejam simples comportamentos idiossincráticos, que de simples, pouco têm.
Existem vários tipos de elos que nos unem enquanto pessoas de uma mesma sociedade, enquanto pessoas de uma mesma cultura, de uma mesma população. Somos da mesma vila, da mesma cidade, do mesmo país, falamos a mesma língua, temos a mesma formação, somos do mesmo clube. As actividades tradicionais unem estes grupos e dão-lhes – mais e maior – significado.

Tiago A. G. Fonseca

terça-feira, 19 de março de 2013

[Psicologia e Política]: Instabilidade Política 2: O Outro Lado

É importante que se perceba e esclareça que política não se resume a partidos políticos.
Política é a acção em função das pessoas, normalmente, relativo à gestão e administração de grupos populacionais, como autarquias ou estados e países. Mas desengane-se quem acha que agir para e pelos outros não é sempre política. Quando participamos numa associação, num grupo desportivo, numa instituição, e agimos no sentido da promoção dos outros, criando plataformas e condições favoráveis e de melhoramento da vivência dos outros, seja com que tipo de serviços forem, estamos a fazer política.
Aqui, e dependendo – obviamente – das intenções de cada um, estaremos a promover a nossa própria auto-estima, realizando acções que promovem algo de bom nos outros. A continuação de boas práticas promove outras, motivando quem as pratica. É importante termos objectivos e conseguir alcançá-los, mas sobretudo, pensar como os podemos alcançar. E esta é claramente uma boa forma. A esperança não desaparece quando vemos que a nossa acção faz bem nos outros, e que os outros se sentem mais esperançados e motivados na sua própria acção e vivência pelo exemplo que lhes foi prestado. Esta é a cooperação da sociedade, funcionar uns para os outros. Isto é fazer política.
Todas as variáveis que foram faladas nesta e na publicação anterior – esperança, percepção de controlo e de segurança, auto-estima e motivação – dependem da nossa percepção do quanto estamos inseridos, do quanto somos ouvidos, do quanto nos parece que algo é feito por nós quando é evocado em nosso nome. Mas nem sempre esta percepção é correcta, pois as variáveis que a influenciam são muitas.
Diria que a percepção de controlo tem aqui um papel chave. Se percebermos o que podemos influenciar no meio, se percebermos o que podemos e devemos controlar do que nos rodeia, se percebermos que devemos partilhar o controlo sobre diversas actividades e situações, conseguimos estar melhor connosco próprios, em coerência, e promover em nós bem-estar psicológico, essencial para a calma necessária à percepção correcta das outras variáveis.
Nem tudo é realidade, mas tudo são percepções.

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Comboio, Parte 2


Um comboio para o desenvolvimento psicológico

  Passaram uns dias e eis-me aqui, de novo, para começar a reflectir convosco sobre o nosso comboio. Lembram-se dele?

Vejamos então como essa simples experiência de um comboio que passa regularmente nos transporta para duas dimensões básicas e fundamentais do desenvolvimento psicológico. 
Em primeiro lugar, não há desenvolvimento psicológico sem experiência de si e do mundo.
Como poderia dizer o Tiago Fonseca quando nos descreve a percepção, objectivamente, é sempre um comboio, que repete o mesmo percurso, sensivelmente à mesma velocidade. Mas, não é isso que aqui nos interessa. Aqui fala-se da nossa percepção, da experiência que nós próprios construímos e que nos leva à consciência da necessidade que, uns e outros, sentimos de compreender o tempo.
Tal como este e muitos filósofos, nós, os psicólogos, falamos sempre, de uma forma ou de outra, sobre a experiência de nós próprios e do mundo que nos rodeia; mas, ao contrário dos filósofos, procuramos uma descrição e compreensão científica dessa experiência e da forma como ela regula a nossa conduta e a conduta humana, em geral.
 
Em segundo lugar, não há desenvolvimento psicológico sem acção, sem construção activa da experiência de si e do mundo.
Actualmente, para a maioria dos psicólogos e, particularmente, dos psicólogos do desenvolvimento, percepcionar, memorizar, aprender, conhecer, pensar, sentir, não é, como queriam os filósofos empiristas, captar e reproduzir passivamente o mundo dito real, objectivo ou meramente sensitivo; nem é, como queriam os filósofos racionalistas, elaborar um mundo ideal, lógico ou meramente subjectivo.
Se assim fosse, poderíamos pôr a hipótese extrema que, chegados ao século XXI, já não haveria, por exemplo, necessidade de investigação científica, pois qualquer destes mundos, empírico ou racional, estaria há muito desvendado.
Se assim fosse, a passagem regular de um simples comboio despertaria necessariamente em qualquer observador a mesma experiência, o que, de facto, não acontece. Pensem no “Homem do Violino” de que também nos fala o Tiago Fonseca. Quando tocou no metro, todos os que ali passavam o ignoraram, salvo um desses passantes, que não se submeteu ao estereótipo e se deixou fascinar pela magia daquela música.
 
Deixo-vos uma definição, proposta por Serge Netchine (1970, p. 304), das perspectivas filosóficas designadas por empirismo (cf. Locke e Hume, entre outros) e racionalismo (cf. Leibniz, entre outros) ou, na tradição da filosofia marxista, designadas por materialismo e idealismo:
“Os empiristas defendem que as ideias são adquiridas a partir da experiência e, portanto, que elas têm uma génese; mas, esta perspectiva é insatisfatória enquanto “doutrina da acomodação que esqueceu a existência da assimilação” (Piaget, 1970, p 68). Dito de outro modo, o empirismo propõe uma concepção do psiquismo…como construção passiva a partir da acção da realidade sensível.
Quanto aos racionalistas, eles são…inatistas, pois afirmam que as ideias estão no espírito antes de toda a experiência e que regulam as aquisições, em vez de derivarem delas. Assim sendo, insistem, correctamente, no papel activo do sujeito no conhecimento, mas negam ou subestimam os efeitos da experiência recebida por contacto com a realidade objectiva. Apresentam então “doutrinas da assimilação pura que esquecem as suas relações com a acomodação” (Piaget, 1970, p. 68)”. 
Percepcionar, memorizar, aprender, conhecer, pensar, sentir, será então, dizem-nos particularmente os psicólogos do desenvolvimento (Piaget, Vygotski e muitos outros), agir e interagir com o mundo externo ou interno a cada um de nós e, progressivamente, ir construindo e reconstruindo essa experiência empírica, a representação que temos de nós próprios e do mundo, à medida que se vai organizando e reorganizando a nossa própria acção, ou seja, a nossa conduta de relação connosco e com o mundo que vivemos.

O que será isto? Porque que é que os investigadores nos dizem que, basicamente, este é o processo de desenvolvimento psicológico?
Ficam estas duas questões para cada um pensar sozinho e, juntos, conseguirmos compreender, mais e melhor, o nosso comboio…

M. Stella Aguiar

Referências:
Netchine, S. (1970). Sur les notions d’enfance et de changement dans le débat entre rationalistes et empiristes. Enfance, (3-5), p. 303-324.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Experiência Culinária de Jamie Oliver

Vejam bem este pequeno filme.

 
Nele, Jamie Oliver faz uma pequena experiência culinária, onde demonstra a crianças como são feitos alguns nuggets, fazendo sempre, em paralelo ao processo, a pergunta “onde está a boa comida?”. A certo ponto, a resposta sofre uma alteração.

            Onde surge esta mudança? Onde é feito o “clique”? Que alteração de pensamento ocorre? O que acontece no cérebro das crianças no momento em que o dedo deixa de apontar, de forma consciente (!!!!!!), para a comida que lhes faz bem?

            A resposta apenas pode ser uma: Percepção.
            A mudança na percepção das crianças, ao visualizarem todo o processo, é alterado. Possivelmente porque, para as crianças, a fast food é melhor que os cozinhados de casa. Mas também não é assim com os adultos?

No fim do filme, o Oliver explica de forma muito acertada o que ocorreu, até de um ponto de vista psicológico: "Andamos a formatar as nossas crianças tão bem, que depois não sabem a distinção".

Não será tempo de se estudar os efeitos, a curto e a longo prazo, destas formatações? Será que as tendências e opções a que sujeitamos as crianças são as adequadas à sociedade que queremos no futuro? De que forma são as boas avaliações e percepções afectadas e/ou dificultadas por estes processos?
Ficam as questões para reflexão.

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

[Psicologia e Política]: Mudar Custa...


A acção política afecta tudo e todos. Quem se interessa por política e quem não se interessa por política. O que é facto é que a política funciona com as pessoas, no seio da população, implementando a mudança. A direcção dessa mudança não está aqui em causa, nem é alvo desta publicação.
Estas mudanças implicam as pessoas, o seu dia-a-dia, a sua gestão pessoal e colectiva, a sua acção e o seu pensamento. Mas mudar não é fácil. Nunca foi. E não é apenas em Política. Mudar não é fácil.

Sempre que as mudanças são aplicadas, estas são percebidas como boas ou más, e daí a sua percepção fazer variar a dificuldade da sua implementação e aceitação. Mas existe sempre dificuldade inicial. Não é para todos, pois há pessoas que se adaptam mais facilmente, outras que se adaptam com mais dificuldade. Outras, que pela sua experiência, não se querem adaptar. Outras ainda que não têm competências para isso. E ainda outras que não estão aptas a isso pelas suas condições actuais. Significa isto que nada está bem para todos ao mesmo tempo. É impossível.

O que é certo é que existem facilidades de mudança, já faladas nesta rubrica, que passam pela boa comunicação e pela facilitação da percepção das boas consequências da mudança. Mesmo assim existirão sempre pessoas que não ficarão satisfeitas com a mudança. Porquê? Porque por muito bom que seja, mudar custa.

Tiago A. G. Fonseca

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Comboio

Um Comboio para o Desenvolvimento Psicológico

Jean Guitton, um filósofo católico francês, na autobiografia intitulada “Um século, uma vida” conta-nos como, desde a atracção que sentia pelo “Rápido de Paris”, chegou ao tema que o iria apaixonar toda a vida, o Tempo e a Eternidade. Talvez porque este livro foi o primeiro de muitos outros traduzido pela minha mãe e talvez porque o acaso da vida me faz ouvir periodicamente o comboio de Cascais, também para mim este som familiar tem o poder evocar o tempo, não só o tempo intemporal e eterno, mas o tempo do nosso próprio desenvolvimento psicológico.
Porque, sempre que o combóio passa, o som muda e evolui, primeiro leve e longínquo, depois cada vez mais forte e mais próximo e, por fim, de novo, mais e mais esbatido e distante. Porque o comboio passa todos os dias, regularmente, e aquele som familiar vai marcando o presente, que logo se transforma em passado e que, antes, era esperado como futuro. E também porque a passagem regular daquele comboio parece eterna, sempre outra e sempre igual, como se o tempo nada mudasse e apenas reproduzisse uma sucessão de sons familiares e também como se o tempo tudo mudasse, porque muda sempre a experiência de quem o pressente.

Veremos então como esta simples experiência de um comboio que passa nos transporta para algumas dimensões básicas e fundamentais do desenvolvimento psicológico de cada um de nós e, porque não arriscar, das comunidades humanas, em geral.

Embora este objectivo possa parecer muito global e até demasiado teórico, acredito que não o é.
Neste espaço que me foi aberto pelo Tiago Fonseca, um dos meus estudantes de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Lisboa que nunca mais pude esquecer, pretendo apenas retomar e continuar a reflectir sobre a questão que ele próprio colocou a duas jovens que frequentam hoje o 2º ano dos nossos cursos:

“Psicologia. Porque continua a fazer sentido?”
            É, de facto, uma questão importante! Recordemos então o que nos diziam a Ana Mesquita e a Filipa Vieira.
“Porque cada cantinho do mundo é influenciado por nós, e…perceber um pouco do que nos move, é perceber mais um pedaço…desse mundo que também é nosso…Porque continua a ser-me imprescindível uma maior compreensão dos outros e, acima de tudo, de mim, enquanto indivíduo genérico e enquanto eu, passado, presente e possível futuro” (Ana Mesquita).
Porque é bom sentir que consigo com algumas palavras ajudar bastantes pessoas a conseguirem continuar com as suas vidas… Basicamente aquele é o meu motivo: ajudar as pessoas através de palavras e de apoio” (Filipa Vieira).

Acredito que, de uma forma ou de outra, toda a história do pensamento e do conhecimento se dirige ao homem e procura promover o bem-estar, físico e psicológico, de todos e de cada um de nós. A teologia e a filosofia querem conhecer o porquê de Deus, do universo e do pensamento humano; muitas e diversas ciências querem descrever e compreender, de forma objectiva, como é, como funciona e como se pode controlar, o mundo físico e os seus organismos; mas, só a psicologia procura conhecer e pensar, mais e melhor, a conduta humana, essa experiência de relação do homem consigo mesmo e com o seu mundo físico e social.
Ora, por um lado, é precisamente essa experiência, essa representação que nós próprios construímos, que tem o poder de transformar o mundo no nosso mundo e que tem, por isso, o poder de transformar os tempos de vida de cada um de nós em espaços de tristeza ou de bem-estar, em fases de regressão ou de desenvolvimento pessoal, em síntese, que tem o poder nos ir transformando, pouco a pouco, em pessoas psicologicamente mais ou menos equilibradas e felizes. Por outro lado, é precisamente esse objectivo, esse conhecimento e compreensão da conduta e da experiência humana que permitem ao psicólogo ajudar os outros e a si próprio através de formas de avaliação e de ajuda de natureza relacional, interpessoal e intersubjectiva.

Concluindo, também para mim, a Psicologia e, particularmente a Psicologia do Desenvolvimento fazem sentido, pois propõem uma conjugação do objecto e do método de conhecimento que lhe é própria e que não se encontra em qualquer outra disciplina.    
Mas, ainda se lembram do comboio? Cada vez que passa, parece sempre igual e sempre diferente.
Então, daqui a uns dias, começaremos a reflectir sobre esta imagem e sobre o sentido do conhecimento científico e da prática em psicologia do desenvolvimento.

M. Stella Aguiar

Referências
Guitton, J. (1995). Um século, uma vida. Coimbra: Gráfica de Coimbra, Lda.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

[Psicologia e Política]: Lei da Paridade é Igualdade?


            A Lei da Paridade, Março de 2006, estabelece que as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as Autarquias Locais, têm de ser compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos.
            Significa isto que em cada 3 elementos de uma lista, 1 tem de ser do sexo feminino.
            Colocando de lado a aplicação ou não da lei, será importante perceber as implicações psicológicas de tal lei.

            O que se verifica na maioria das listas apresentadas desde então, é que as mulheres aparecem nos números 3, 6, 9, 12… passando de elementos participantes e intervenientes, a elementos necessários. É impossível não sentir desmotivação ao perceber este dado. A sensação que dá é que é necessário mais esforço por parte dos elementos do sexo feminino para não estarem em lugares múltiplos de 3. Não se quer participar em algo que interpretamos como sendo “para encher” ou “porque é obrigatório”. Não se quer investir em trabalho neste formato.
            É como se fosse criado um estereótipo: Pessoas do Sexo Feminino que Participam na Política, onde as mulheres são claramente, por lei, identificadas como minoria. Como se fosse necessária uma lei para que as mulheres participassem na vida política. Por vezes, parece que nos esquecemos que grandes mulheres já fizeram – e fazem – parte da vida política em Portugal.
            O efeito obtido é o contrário. Ao invés de 2 ou 3 mulheres participantes, temos 6 onde apenas metade aparece e participa, que tiram, protegidas por lei, lugar a quem poderia efectivamente trabalhar politicamente. A percepção de que é necessária uma lei que valorize o trabalho das mulheres, é ridícula. A percepção de que alguém é bom e por isso faz falta, é correcta. A motivação para a política deve ser verdadeira, sendo que a disponibilidade para tal exercício deve ser real e não promovido por lei.

            A igualdade não pode ser alcançada por leis, mas sim por mudança de pensamentos, onde terá de existir a compreensão global, por parte da sociedade em todas as suas classes, de que homens e mulheres em política, têm necessariamente de trabalhar para um todo, isso sim, protegido por lei.
            Uma lei que visa promover a igualdade de género criando desigualdades políticas directas, é uma lei sem fundamento. É necessário actuar nas opiniões públicas e na sociedade de forma a demonstrar e a valorizar o papel que as mulheres podem ter na política e na sociedade.

Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Homem do Violino


Dos constructos cognitivos condicionantes da percepção à que destacar os estereótipos. Estas estruturas cognitivas são compostas, segundo Hamilton e Trolier (1986), pelos nossos conhecimentos e expectativas, ou seja, pelos resultados psicológicos das nossas experiências. Ainda segundo os autores, os estereótipos determinam os nossos julgamentos e avaliações, acerca de grupos e/ou dos seus membros. Acrescento aqui, também, além do apontado pelos autores, o contexto e os seus estímulos.
Deixo-vos um exemplo, ocorrido no ano passado numa estação de metro, nos Estados Unidos da América. Segue o relato escrito e o clip com o ocorrido.

Um homem sentou-se numa estação de metro de Washington DC e começou a tocar violino, era uma fria manhã de Janeiro; Ele tocou seis peças de Bach durante aproximadamente 45 minutos. Durante esse tempo, já que era hora de ponta, calcula-se que cerca de 1,100 pessoas atravessaram a estação, a sua maioria, a caminho do trabalho.
Três minutos passaram quando um homem de meia idade notou que o músico estava a tocar, abrandou o passo e parou por alguns segundos, mas continuou depois o seu percurso para não chegar atrasado.
Um minuto depois, o violinista recebeu o seu primeiro dólar: uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e continuou o seu caminho.
Alguns minutos depois, alguém se encostou à parede para o ouvir, mas olhando para o relógio retomou a marcha. Estava claramente atrasado para o trabalho.
Quem prestou maior atenção foi um menino de 3 anos. A mãe trazia-o pela mão, apressada, mas a criança parou para olhar para o violinista. Finalmente, a mãe puxou-o com mais força e o miúdo continuou a andar, virando a cabeça várias vezes para ver o violinista. Esta acção foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem excepção, obrigaram as crianças a prosseguir.
Nos 45 minutos em que o músico tocou, somente 6 pessoas pararam por algum tempo. Cerca de 20 deram-lhe dinheiro mas continuaram no seu passo normal. Ele recolheu cerca de 32 dólares. Quando ele parou de tocar e o silêncio tomou conta do lugar, ninguém se deu conta. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.
Ninguém sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas alguma vez escritas num violino de 3,5 milhões de dólares. Dois dias antes de tocar no metro, Joshua Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dólares.
Esta é uma história real, Joshua Bell tocou incógnito na estação de metro num evento organizado pelo Washington Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e prioridades.

Acrescento que a mulher que surge na segunda parte do clip mostrando todo o interesse durante grande parte da actuação, justifica a mesma com o conhecimento que tem de quem é Joshua Bell.

Não existiu, claramente, uma percepção clara do que estava a ocorrer. Podemos deduzir várias hipóteses: não existem expectativas para aquele acontecimento naquele contexto; as prioridades individuais não permitiam a percepção da actuação de forma adequada; variáveis idiossincráticas que justificam a não atenção; Tendo em conta tudo o que já foi dito neste espaço sobre percepção, estas hipóteses podem ter base em estereótipos.
A realidade de cada um é uma construção realizada pelas suas percepções. As nossas percepções são resultado de estereótipos, expectativas, motivações e resultados anteriores que são projectados para as situações actuais.
Devido a razões idiossincráticas, centenas de pessoas perderam uma actuação espantosa, e de forma gratuita. Outra variável da percepção, que aqui faria, com certeza, diferença, é a informação disponível no contexto, que, se disponível sobre esta actuação, várias pessoas teriam parado para ouvir.
A mulher do final do clip que fala com o músico não padece do estereótipo de todos os outros. A informação que tem do contexto é oposta a todas as outras pessoas: sabe quem realiza a actuação e pára para ouvir, prestando uma atenção que apenas uma motivação intrínseca poderia provir. Existe também um homem que ouve durante algum tempo, mas como não se manifesta verbalmente, não é possível aferir a sua percepção da situação. Mas claramente, foi diferente. Não usou estereótipos e permitiu-se ser surpreendido por informação nova. Não valerá esta permissão a pena, mesmo que de vez em quando?


Tiago A. G. Fonseca

Hamilton, D.L., & Trolier, T.K. (1986). Stereotypes and stereotyping: An overview of the cognitive approach. In J. Dovidio & S. Gaertner (Eds.), Prejudice, discrimination, and racism (pp. 127-163). Orlando, FL: Academic Press.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Perception


            Resumindo o que temos falado sobre Percepção e Realidade, deixo-vos esta imagem com uma frase retirada da recente série norte-americana “Perception”.


Reality is a Figment of Your Imagination”.

Como podemos dizer que não? O oposto também pode ser perguntado.
Como podemos dizer que sim?
          Certo é que somos nós que construímos a realidade, baseada no que percepcionamos. Isto é, por outras palavras, apenas acontece o que nosso cérebro permitir que aconteça, tendo em conta que só vemos o que acreditamos poder existir. Isto dá um papel maior à nossa criatividade e imaginação, sendo estas parte da percepção. E assim, a realidade fica limitada a essa imaginação, a essa percepção.

            Tiago A. G. Fonseca