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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[Coisas da Percepção]: Datas...

            Os dias funcionam como triggers.
            Activadores de esquemas, potenciadores de crenças e as percepções seguem-se.
         Realizam-se associações, recordam-se eventos, comportamentos, pensamentos e sentimentos que apenas são associados a tudo, excepto ao que os fez surgir: o canto do monitor com a data.
         A data, essa, pode nem ser a mesma. O ano é outro, o mês poderá ser diferente. Mas o que faz disparar os sentidos da mente, raramente, é linear. Coerente, sim. Mas nunca linear.
          Tudo é resultado da percepção. Umas mais funcionais que outras, umas mais emotivas do que outras, mas todas com o papel de alterar o nosso presente psicológico.
            Uns dirão que se devem controlar. Outros dirão que devem ser vividas.
        Eu cá digo que controlando-as, disfarçamos o seu efeito; vivendo-as, potenciamos a sua acção. Aceitar e integrar, parece-me o indicado.

            Tiago A. G. Fonseca

domingo, 1 de dezembro de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Tempo na Psicologia do Desenvolvimento - Parte 2


 Lembram-se de Einstein e do desafio de descentração cognitiva que, há uns meses, deixei aos nossos leitores, particularmente aos psicólogos? 
Vejamos então se conseguiram captar a forma de pensar o tempo que vos mostrei há uns dias e que Piaget situou num nível intermédio entre o pensamento pré-operatório e o pensamento operatório concreto de representação da idade das pessoas!

Nesta segunda forma de representação, a criança associa a idade das pessoas, ou à data de nascimento, ou ao crescimento físico. Vejamos!
As crianças que Piaget designa de tipo 2.1 já sabem ordenar corretamente as datas de nascimento e associam a idade das pessoas a essa ordem, mas nem por isso concluem que a idade permanece necessariamente no tempo. Assim, já não é a própria criança que nasce sempre primeiro, pois os avós nasceram antes dos pais, os pais antes dos irmãos mais velhos e assim sucessivamente…Porém, o que parece é ainda demasiado sedutor e, um dia mais tarde, quando forem crescidos, os que eram mais novos podem ficar os mais velhos ou podem até ficar todos da mesma idade.
Pelo contrário, as crianças que Piaget designa de tipo 2.2 já sabem que as diferenças de idade se conservam no tempo, mas nem por isso concluem que elas indicam a ordem de nascimento das pessoas. Assim, os avós são sempre mais velhos do que os pais, os pais mais velhos do que os filhos…Porém, isso não quer dizer que os filhos e, particularmente a própria criança, não possam ter nascido antes dos avós ou dos pais, pois isso a criança não pode saber, porque não viu, já não se lembra e ainda não perguntou a ninguém.

Em síntese, este nível intermédio entre o pensamento pré-operatório e o pensamento operatório concreto é alternadamente regulado, ou pela permanência dos critérios perceptivos e egocêntricos primitivos, ou pela emergência de critérios lógicos ou operatórios (seriação dos nascimentos e coordenação com as diferenças de idade das pessoas; ou seriação das idades e conservação dessas diferenças etárias) associados à capacidade de descentração cognitiva e, por isso, o que parece já pode ou não ser assim.
Oiçam agora o que diziam outras crianças, da mesma idade ou um pouco mais velhas, cuja representação da idade das pessoas já não nos surpreende!

Tens irmãos? Um irmão mais pequeno e outro ainda mais pequeno, Charles e Jean. Quem nasceu primeiro? Eu, depois Charles, depois Jean. Quando vocês forem grandes, quais serão as idades de cada um? Eu mais velho, depois Charles, depois Jean. Tu serás muito mais velho? A mesma coisa que agora. Por quê? É sempre a mesma diferença. Isso depende de quando nós nascemos. (Piaget, 1946a/2002, p. 240-241) 

Para as crianças, adolescentes ou adultos que Piaget situa no nível operatório concreto, a noção de idade torna-se independente da percepção, do crescimento físico das pessoas e, agora, o que parece não é necessariamente assim. Porquê? Porque, uns e outros, já conseguimos coordenar, de forma reversível, a seriação dos nascimentos e das idades das pessoas, compreendemos que a ordem de nascimentos indica diferenças de idade e vice-versa e, por isso, concluímos que essas diferenças de idade se conservam, permanecem, necessariamente, imutáveis no tempo.

M. Stella Aguiar

terça-feira, 18 de junho de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Tempo na Psicologia do Desenvolvimento


Lembram-se de Einstein? Desafiei, particularmente os psicólogos, a um exercício de descentração cognitiva, pelo menos tão “genial” como aquele que levou Einstein a descobrir a importância da psicologia do desenvolvimento cognitivo!  
Vejamos então se conseguiram captar a pré-lógica que caracteriza a forma de representar o tempo que vos mostrei há uns dias e que Piaget designou pensamento pré-operatório. 
Nesta primeira forma de representação, a criança associa a idade das pessoas ao crescimento físico (particularmente à altura), a dimensão perceptivamente saliente. Por isso, quem é fisicamente maior é sempre mais velho e, se os adultos pararam de crescer, então já não podem envelhecer mais. Também por isso, a idade não depende da data do nascimento, pois quem nasceu primeiro é geralmente a própria criança, mesmo que seja a mais nova da família (egocentrismo do pensamento), mas os mais novos podem sempre, um dia mais tarde, passarem a ser os mais velhos, se crescerem muito e ficaram fisicamente maiores. Em síntese, o pensamento pré-operatório é regulado por critérios perceptivos e egocêntricos que são inquestionáveis para o próprio sujeito, pois o que parece é e não pode deixar de ser assim.
Oiçam agora o que diziam outras crianças, da mesma idade ou um pouco mais velhas (4-7 anos), cujo pensamento Piaget situa num nível intermédio (entre o pensamento pré-operatório e o pensamento operatório concreto) de representação da idade das pessoas!

Tens irmãos? Uma irmã e um irmão, Florian, de 9 meses. Vocês são da mesma idade? Não. Primeiro o meu irmão, depois a minha irmã, depois eu, depois a mãe, depois o pai. Mas quem nasceu primeiro? Eu, depois a minha irmã, depois o meu irmão. Então quando tu ficares velho, o Florian vai continuar mais novo do que tu? Sempre não. A gente vai ficar com a mesma idade. (Piaget, 1946a/2002, p. 235-237, Tipo 2.1) 

Tens irmãos? Uma irmã mais nova, de 6 anos. Quantos anos menos do que tu? Dois anos. Quando tu fores uma senhora, ela terá a mesma idade que tu? Não, ela será menor do que eu. Quantos anos menos. Dois. Tens a certeza? Sim. Porquê? Porque é sempre a mesma coisa que agora. E quando forem muito velhas? Sempre a mesma coisa. Então qual das duas nasceu antes da outra? Não sei. Quem nasceu primeiro? Não sei. Ela não me disse quando nasceu. (Piaget, 1946a/2002, p. 235-237, Tipo 2.2)   

Será que estas duas formas de pensar a idade das pessoas são, de facto, mais inteligentes do que a representação que tinham as crianças pré-operatórias? Porquê? O que é novo, diferente, mais realista, na representação da idade por estas crianças? E o que permanece primitivo, perceptivo e egocêntrico? Ou será que Piaget não tem razão, o pensamento das crianças continua apenas regulado por critérios pré-lógicos, pré-operatórios, e isso a que chamou desenvolvimento cognitivo permanece, por agora, uma pura ilusão?
Desafio então os meus leitores, particularmente os psicólogos, a um novo exercício de descentração cognitiva, tão exigente como aquele que já experimentaram. Espero!...
Porquê? Porque só esse esforço nos permite compreender esta nova forma de representação do tempo e do mundo em que vivemos. E, também, porque só esse esforço de descentração cognitiva nos permite captar a perspectiva de análise dos psicólogos do desenvolvimento. 


Maria Stella Aguiar

quinta-feira, 23 de maio de 2013

[Comboio do Desenvolvimento] O Tempo na Psicologia do Desenvolvimento

A imagem do nosso comboio – lembram-se? - levou-nos a descobrir que o tempo é uma dimensão fundamental do desenvolvimento psicológico. Porém, não é o próprio tempo que atrai os psicólogos do desenvolvimento, mas sim os processos temporais, a sucessão de mudanças de comportamento que ocorrem no tempo e que não resultam necessariamente da idade ou do tempo de vida do nosso próprio organismo.
Vejamos então, hoje, como este interesse pelos processos temporais que marcam o desenvolvimento psicológico levou alguns investigadores a questionarem e descreverem a génese do nosso próprio conhecimento do tempo.

Deixo-vos um episódio surpreendente narrado por Jean Piaget.
“Há muitos anos (em 1928), A. Einstein, que presidiu, na Suíça, um encontro sobre filosofia da ciência, interessou-se por alguns dos nossos resultados sobre a causalidade física na criança e aconselhou-nos a estudar o seguinte problema: A intuição da velocidade supõe, na sua formação, uma compreensão prévia da duração ou constitui-se independentemente dela?” (Piaget, 1974, p.63). Ou, dito de outro modo: “A intuição subjectiva do tempo é primitiva ou derivada, é solidária ou não da intuição da velocidade?” (Piaget, 1946a/2002, Prefácio) 
 
Segundo Piaget (1974), esta questão visava, de facto, saber se, na sua génese, o conhecimento ou a representação que temos do tempo corresponde à descrição da mecânica clássica (a velocidade é função da relação entre duas intuições elementares, o espaço percorrido e a duração) ou à descrição da mecânica relativista (a duração é, ela própria, função da velocidade).
Porém, o que esta questão nos mostra também é que o estudo dos processos temporais que marcam o desenvolvimento psicológico (ou, neste caso, o desenvolvimento cognitivo) faz mesmo sentido, até para Einstein.

Porquê?
Porque, ao contrário das epistemologias clássicas, só a epistemologia genética,  proposta por Piaget, poderia indagar como o pensamento humano chega ao conceito de tempo partilhado pelos adultos e largamente debatido pelos filósofos, físicos, biólogos, e outros pensadores. Dito de outro modo, só a epistemologia genética poderia questionar e descrever como o conhecimento sobre o tempo se vai organizando, transformando e construindo no próprio tempo, ao longo da ontogénese de cada um de nós.
Comecemos então, porque mais atractivo para os nossos leitores, por um estudo sobre o tempo psicológico e vejamos como Piaget conversava com as crianças e indagava a representação que tinham sobre a idade das pessoas.

“Quantos anos tens? Quatro e meio. Tens irmãos? Um irmão mais velho. Tu nasceste antes ou depois dele? Antes. Então qual é o mais velho? É o meu irmão, ele é maior…. Quando ele era pequeno, quantos anos tinha mais do que tu? Dois. E agora? Quatro. Então a diferença pode mudar? Sim. Se eu comer muito eu passo à frente dele. Como é que sabemos que uma pessoa é mais velha? Porque a gente é maior.
A mãe é mais velha do que tu? Sim. E a avó é mais velha do que a mãe? Não. São da mesma idade? Sim. Cada ano que passa, a avó fica mais velha? Ela fica a mesma coisa. E a mãe? Fica a mesma coisa. E tu? Eu fico mais velho. E a mãe envelhece? Não. Porquê? Ela já é velha.” (Piaget, 1946a, p. 229-233)

Uma enorme confusão? Estas crianças não estavam “com atenção”? Nem sequer perceberam as perguntas? Será que precisam de aprender esta matéria “como deve ser”, de ir para a escola, de mudar de educador? Ou serão crianças “problemáticas” que necessitam de apoio psicológico?
Não! Não se preocupem com as crianças. Elas estavam atentas, percebiam o que Piaget perguntava e deram respostas até muito consistentes. Preocupem-se antes convosco, pois somos nós, adultos, que estamos a pecar por egocentrismo do pensamento.
Einstein foi, de facto, um génio. Porque descobriu e propôs a teoria da relatividade. E também – perdoem-me a centração! – porque descobriu que era importante saber o que os mais pequemos sabiam do tempo.


Desafio então os meus leitores, particularmente os psicólogos, a um exercício de descentração cognitiva ainda mais exigente do que aquele que despertou a curiosidade de Einstein para a psicologia do desenvolvimento cognitivo. Se assim o fizerem, conseguirão compreender esta forma de representar o tempo, e também do mundo, que Piaget descobriu e que designou pensamento pré-operatório. 

M. Stella Aguiar

Referências
Flavell (1963). The developmental psychology of Jean Piaget. Princeton, NJ: Van Nostrand (Trad. Portuguesa, São Paulo: Pioneira Editora, 1975)
Piaget (1946a). Le développement de la notion de temps chez l’enfant. Paris: PUF. (Trad. Portuguesa, RJ: Record, 2002)
Piaget, J. (1946b). Les notions de mouvement et de vitesse chez l’enfant. Paris: PUF.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Tempo na Psicologia do Desenvolvimento


Como prometi, vamos continuar a reflectir sobre a relação dos psicólogos do desenvolvimento com isso a que chamamos tempo.
Vimos, há uns dias, que não é o próprio tempo que nos atrai, mas sim os processos temporais, aquilo que ocorre no tempo.
Porquê?
Porque os psicólogos do desenvolvimento procuram essencialmente descrever como a conduta humana muda no tempo, e não com o tempo, ou seja, como a experiência de relação consigo, com os outros e com o mundo físico se vai sucessivamente transformando, organizando e reorganizando ao longo do ciclo de vida de cada um de nós.



 
Lembram-se do nosso comboio? Sempre que passava, percorria o mesmo percurso, sensivelmente à mesma velocidade e um qualquer gravador, fixo num mesmo local, registaria certamente a mesma sequência de sons que invadiam o espaço e que ocupavam, sensivelmente, o mesmo intervalo, a mesma duração, no tempo. Mas, não eram, de facto, esses intervalos de tempo que moviam o comboio ou que faziam mudar a intensidade dos sons que a máquina registava. A passagem regular daquele comboio, por aquele local no espaço, até parecia acontecer com o tempo, pois podíamos prever a hora em que iria passar e a duração do som que nos iria deixar. Mas nunca era, de facto, essa hora ou essa duração do tempo que fazia o comboio seguir aquele percurso, com aquela velocidade e deixar aqueles sons que a máquina guardava. 

Para os psicólogos do desenvolvimento, o tempo biológico, os processos temporais que marcam a maturação e a degenerescência do organismo que somos são determinantes, pois induzem mudanças comportamentais inquestionáveis. Desde sempre se reconhece o efeito das mudanças biológicas e, actualmente, investigam-se, cada vez mais, as relações entre os componentes psicológicos e neurológicos da conduta humana.
Porém, apesar do aceso debate actual sobre a independência e identidade da nossa disciplina, acredito que a Psicologia continua a fazer sentido e que ainda podemos argumentar, com Piaget, Vygotski e muitos outros psicólogos do desenvolvimento, que o tempo de vida, a idade de cada um de nós não constitui o único motor, senão mesmo o principal factor, de mudança comportamental.
Pensem, por exemplo, nas crianças e adolescentes que vivem, hoje, nas sociedades social e culturalmente mais evoluídas. Os cuidados pré-natais e neonatais, o acompanhamento médico regular, a qualidade da nutrição e o exercício físico a que são submetidas têm promovido uma maioria de crianças e jovens saudáveis, do ponto de vista orgânico, fisiológico. Permanecem, porém, acentuadas diferenças individuais no seu desenvolvimento psicológico, cognitivo, sócio-cognitivo, emocional ou social-relacional.
Pensem, por exemplo, na actual campanha em favor do envelhecimento activo. Nesta faixa etária, o risco de doenças do foro neurológico é particularmente acentuado e, para o prevenir, muitos especialistas reconhecem, cada vez mais, o efeito positivo da conjugação do exercício físico e da nutrição saudável com a actividade intelectual ou artística, a socialização ou, mesmo, com a intervenção psicológica.

Para os psicólogos do desenvolvimento, o tempo biológico é inquestionável. Mas, este não é, em rigor, o nosso objecto de investigação, de avaliação e de intervenção.
O tempo que interessa os psicólogos do desenvolvimento é o que poderemos designar o tempo psicológico, ou seja, os processos temporais que marcam a sucessão de mudanças de comportamento, de natureza qualitativa, estrutural e funcional, relativamente estáveis e duráveis no ciclo de vida das pessoas. Dito de outro modo, os investigadores do desenvolvimento psicológico procuram captar, descrever, compreender e prever o processo de evolução e de involução da experiência e/ou da conduta humana, processo este que ocorre no tempo e não necessariamente com o tempo, pois não é apenas um resultado passivo da idade, do tempo de vida do organismo que somos.
Mas, daqui a uns dias, continuamos a reflectir um pouco mais sobre o tempo que atrai os psicólogos do desenvolvimento.

M. Stella Aguiar


Referências:
Castro Caldas, A. (2013). Uma Visita Politicamente Incorreta ao Cérebro Humano. Lisboa: Bertrand.
Smith, L. B. & Thelen, E. (2003). Development as a dynamic system. TRENDS in Cognitive Sciences, 7 (8), 343-348.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

[PREVENIcaNDO]: Tempo


É cedo, são seis da manhã e estou atrasado a caminho para o aeroporto. As viagens deixam-me sempre muito acelerado. Há todo um fascínio na ida para outro país mesmo quando o motivo é trabalho. O fuso horário muda, as gentes mudam, o ritmo muda. Contudo não muda da mesma maneira para todos. À minha volta há quem corra (mais do que eu), há quem se arraste pelos acessos às portas de embarque (afinal de contas não deixam de ser seis da manhã), há quem se descontraia, há que se exercite, há quem já jogue um jogo qualquer na consola. O tempo, sendo comum a todos, é ao mesmo tempo tão diferente. Para uns pode ser denso, para outros fluido, para uns pode ser viscoso, chato e interminável, para outros é solto e rápido. No entanto, estamos todos no mesmo tempo. Ou não estaremos? Se isso é indubitável no que diz respeito ao tempo físico, já não o é no plano biológico (idades, origens geográficas, sexos,…) ou no plano psicológico (tristeza, alegria, stress, tranquilidade,…) em que a vivência do tempo é muito diferente.

Usei frequentemente nas minhas dinâmicas de grupo, o exercício de dar a pessoas diferentes, uma tarefa de natureza variada e pedir-lhes que contassem tempo. Assim, enquanto uns corriam pela sala, outros enfrentavam as paredes, outros tinham de olhar fixamente os olhos de um desconhecido, enquanto outros ainda se mantinham em posições que diferiam na escala de desconforto. Invariavelmente o mesmo intervalo de tempo esticava ou encurtava consoante a contagem era feita por alguém que se sentia bem ou mal na tarefa.
Porque é que eu usava esta dinâmica num grupo de formação? Porque frequentemente nos confrontamos com situações em que reagimos aos outros sem levar em consideração a sua vivência particular do tempo. O contexto escolar, por exemplo, obriga a processos muito complicados de adaptação a ritmos e tempos diferentes. A cadência da exposição do professor, o “compasso” das diferentes matérias, o impacto do relógio de necessidades do nosso corpo, marcam de forma diversa o estar nas aulas. O cruzamento dos diferentes “estares” provoca uma cacofonia desarmoniosa frequentemente mal entendida e mal gerida por todas as partes. Mas também em casa esta realidade se verifica. É frequente que quando os mais velhos começam a acordar estão os mais novos a pensar em dormir ou vice-versa consoante a fase do ciclo de vida. De acordo com as tarefas, constroem-se críticas em torno do ritmo de trabalho ou do ritmo de laser. Nem sempre se encontram tempos compartilhados ou simplesmente ritmos paralelos. E se tal não acontece como se pode esperar uma construção conjunta, ou diálogo uma partilha? São já bastantes os projectos e programas de trabalho que fazendo da promoção de um tempo – interno e externo – comum, um ponto de partida para o entendimento, concentração e entrega. Este tipo de abordagem tem expressão em contextos tão diferentes, quanto o escolar, familiar, organizacional, clínico entre outros. É muito curioso pensar como o tempo pode dar espaço à relação, ao conhecimento, à consciência de si e dos outros. Da mesma maneira é curioso perceber como o espaço pode dar tempo à relação, ao sentimento, à identidade. Mas disso falaremos noutro dia.
Neste momento são oito da manhã. A correria deu lugar a um voo tranquilo e os pensamentos fugidios puderam finalmente concretizar-se neste pequeno texto que estava em atraso. E do tempo investido se gera tranquilidade e da tranquilidade emerge um tempo de qualidade. Fechemos os olhos e descansemos enfim…

Raul Melo