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sexta-feira, 9 de maio de 2014

[Envelhecer]: Solidão


Um tema que surge frequentemente associado aos Idosos é o isolamento.
A perda, na maior parte dos casos, da rede social associada à actividade laboral, com a reforma, e a saída dos filhos de casa marcam o início do que para muitos é o princípio do fim da vida. A rampa final onde simplesmente se padece e pacientemente se espera.
Um dos factores deste isolamente é a perda dos familiares e amigos da mesma idade que vão perecendo ao longo dos anos e, previsivelmente, com o avançar dos anos estas perdas tornam-se mais numerosas, criando maiores vazios na rede social destas pessoas.
Estes sobreviventes da sua geração além de lidarem com as suas perdas relacionais vão perdendo algumas das características que a sociedade moderna tanto valoriza, como a velocidade, a flexibilidade, a agilidade na adaptação, e a juventude, ficando ainda mais isolados da restante sociedade.
Apesar do tom deste discurso não pretendo ignorar que há excepções a esta regra, no entanto esta é a regra quando se fala e pensa acerca dos idosos, a visão pessimista do desenvolvimento prevalece. Por isso gostaria de deixar aos leitores uma reflexão acerca do isolamento, ou será da percepção do mesmo? E percepção de isolamento por parte de quem vive esta etapa da vida ou de quem a olha de fora? Estarão os idosos mais sozinhos do que os jovens? Será que existem diferenças entre os idosos que vivem na cidade, rodeados de casas vazias todo o dia e de pessoas que não sabem o seu nome e os que vivem nas aldeias onde sempre viveram mas longe das oportunidades de socialização urbanas? E ainda estarão os idosos religiosos mais sós do que os agnósticos?
Gostava de contar com as vossas ideias acerca da solidão envelhecida.

Ana Carla Nunes

domingo, 19 de janeiro de 2014

[Envelhecer]: Estaremos a oferecer o que os idosos desejam/precisam?

Estaremos a oferecer o que os idosos desejam/precisam?

Neste primeiro apontamento de 2014 acerca do envelhecimento, pretendo contemplar a adequação das ofertas de entretenimento/lazer/actividades direccionadas aos idosos.
Como é comummente aceite a ideia (e é patente no documento da UNESCO de 1985, p. 51 referido em *1) de que um envelhecimento activo e bem sucedido está ligado a uma participação e envolvimento em actividades, lúdicas, de cariz social como voluntariado e actividades para prevenir o sedentarismo e o isolamento. É referido também nesse artigo que a participação dos idosos nas variadas ofertas de educação continua a ser insatisfatória. Reflecte-se portanto na dinâmica recursos disponíveis vs aproveitamento dos mesmos.
Mas se os idosos decidem não aderir a tais ofertas, no mínimo serão ingratos? Ou as ofertas não lhes interessam? O que será que lhes interessa?
Parece-me que ao abrigo de estereótipos de invalidez e de regresso à infância os idosos são forçados, talvez pela ausência de alternativa, a aderir a actividades que pouco os estimulam, tanto cognitivamente como animicamente, pois como é referido no artigo*2, "...não é o simples facto de participar em actividades de lazer que garante a promoção do bem-estar dos idosos: é ainda necessário considerar a qualidade e o significado que tais actividades têm para os mesmos."
Supondo que os idosos, ou genericamente todos os que se reformaram da vinculação a um emprego, continuassem a ter um papel activo socialmente, longe do estereótipo de inutilidade social e humana a que são vetados. E se fosse possível continuar a encará-los como adultos responsáveis e capazes de tomar decisões sobre o que lhes interessa fazer e o que os motiva, nessa fase privilegiada de disponibilidade para perseguir interesses e gostos que foram adiados ao longo da vida, a sua participação em actividades que lhes aumentasse a qualidade de vida, em vez de actividades infantilisantes e com pouco contributo para a sua autonomia e dignidade, aumentaria?
Não sei se será assim tão simples. Outros autores (van der Kamp & Scheeren, 1997, p.151 referidos em *1) sugerem que o envolvimento, por exemplo nas actividades de educação formal para adultos entre as classes etárias mais avançadas está ligado ao nível de escolaridade anterior e à situação laboral. Ou seja se estes idosos a que me refiro foram uma das gerações que teve menos acesso a níveis de escolaridade elevados e se já se encontram reformados a sua participação em iniciativas de educação formal para adultos será eventualmente muito baixa.
Há ainda a colaborar com esta abstinência a suposta e popular ideia de que “burro velho não aprende línguas”, e a vergonha de “não saber”, que poderá estar a inibir muitos de participar.
A cultura da vergonha e do medo do erro é difícil de combater especialmente quando está aliada ao estereótipo “reforma=inutilidade” que ajuda a nem contemplar a ideia de continuar a crescer por dentro e a aprender.
O autor *1 deixa sugestões a quem trabalha com esta população: “ a qualidade do ambiente é determinante para o desenvolvimento intelectual dos idosos [como acontece nas restantes faixas etárias] – há necessidade que se mantenham cognitivamente activos, que sejam responsabilizados por tarefas, que constituam desafios às suas capacidades intelectuais, que se lhes deixe oportunidade de resolver os próprios problemas sem a eles se substituir, desnecessariamente.”. Moody (1990) (cit in *1), refere ainda que “não devemos preocupar-nos tanto em transmitir novos conhecimentos ou informações, mas sobretudo, com desencadear uma nova compreensão do que já está presente nos educandos”.
Ora a mim estas ideias sugerem-me que a maior dificuldade em conseguir a adesão dos idosos às actividades e programas (e à psicoterapia?) para eles criados é criada por quem os planeia, supondo que são essencialmente diferentes, dos que seriam propostos aos restantes adultos. Um processamento aprofundado das “lições” (de vida) já aprendidas, e não apenas num regresso às colagens com massas poderia ser um caminho para “…que assumam melhor o próprio envelhecimento…” (UNESCO, 1985 referida em *1).
Não será isso que precisamos/desejamos todos?

            Ana Carla Nunes

Referências:
*1 - Simões, A. (1999). A Educação dos Idosos: uma Tarefa Prioritária, Revista Portuguesa de Educação, 12 (2), pp.07-27.
*2- Simões, A., Lima,M., Vieira, C., Ferreira, J. Oliveira, a., Alcoforado, L., Neto, F. , Ruiz, F., Cardoso, A., Felizardo, S. & Sousa, L. (2006). Promover o bem estar dos idosos: um estudo experimental, Psychologica, 42, 115-131.  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[Envelhecer]: As Categorias Etárias


Os idosos - Hà inúmeras dificuldades em delimitar este grupo tão vasto e heterogéneo de adultos. A atribuição do rótulo 3ª idade e 4ª idade está ainda muito vinculada ao número de anos de vida. A utilização desta forma de arrumar ou dividir este grupo é bastante artificial e pouco esclarecedora, pois algumas pessoas chegarão antes a esta etapa do desenvolvimento enquanto outras chegarão depois e outras mesmo há que nem chegam a identificar-se com este conceito de idoso.
Os critérios de inclusão numa ou noutra categoria são sobejamente revistos e quase reinventados em cada grupo estudado. O trabalho de separar em pequenos grupos este grupo, de forma a ser mais manejável em investigação, fica dificultado pela sua notória heterogeneidade e  recorre-se frequentemente ao atributo idade. Esta utilização do número de anos de vida está enraizado no estudo com crianças e tem várias vantagens reias, nomeadamente: por ser uma variável facilmente mensurável; que os participantes partilham sem grande dificuldade; e é medida da mesma forma em toda a gente. No entanto esta é uma fase do desenvolvimento verdadeiramente delimitada e facilmente demarcada, não pelo número de anos que já se viveu, mas pelas tarefas que é necessário empreender, pelas mudanças fisicas e psicológicas ligadas à adaptação aos novos papéis e funções que se viveu e que se está a viver.
Existem várias teorias do deselvolvimento que abordam esta ideia de tarefas a realizar na idade adulta e na velhice, mas que pensam os leitores deste blog? O que será(ão) a(s) tarefa(s) desenvolvimental(is) que um idoso tem por realizar? E aquele provérbio “burro velho não aprende línguas”? Será que ainda fica alguma coisa por fazer quando se chega à reta final da vida? Estará a velhice condenada a ser uma mera repetição de rituais, rotinas e hábitos há muito enraizados e sem hipótese de mudança?

            Ana Carla Nunes

sexta-feira, 26 de abril de 2013

[Envelhecer]: Será preciso “superar” o Envelhecimento?

Numa pesquisa breve sobre que tipos de títulos aparecem acerca do envelhecimento, verifica-se que aparecem inúmeros títulos negativos, sobre a diminuição de capacidades, perdas, limitações; os outros mais positivos são sobre como superar essa fase com sucesso.
Como se envelhecer fosse uma experiência traumática que é preciso superar ou encaixar porque pode causar danos?! Será mesmo assim tão dolorosa? E superar para chegar onde?
Tal como as mamãs querem dicas para superarem os primeiros meses de vida dos bebés, os adolescentes querem saber como superar as suas“fases” e os pais desses adolescentes desesperam para saber como superar a “fase” em que os filhos estão, também os adultos querem saber o que fazer para melhor superarem a fase seguinte que se avizinha - o Envelhecer.
Parece que já nenhuma altura da vida se vive no presente, nem nenhuma “fase” tem coisas boas a aproveitar. É tudo para superar. Pergunto-me, com que objectivo?
Temos todos de nos apressar a superar a fase que vivemos porque é sempre má e queremos que passe depressa, porque o amanhã será sempre melhor?!
Como se todas as etapas de desenvolvimento fossem uma corrida de obstáculos, onde o que interessa é chegar ao fim. Mas se algumas pessoas nem têm uma ideia clara do que haverá nesse fim, para quê querer passar à frente, superar, correr?
O foco no futuro longínquo deixa-nos dormentes a esta altura (seja qual for a que estivermos a viver) da nossa vida. Dormentes no nosso presente e a quem somos no Agora.

Deixo-vos a conclusão de António Manuel Fonseca, que no seu livro intitulado O envelhecimento - uma abordagem psicológica (2006), conclui do seguinte modo:
Haverá poucas realidades tão universais como o envelhecimento. (…) o envelhecimento é uma condição bem mais complexa do que parece à primeira vista, pelo menos tão complexa como o crescimento, o que pode querer dizer que tal como temos responsabilidades no acto de crescer, elas também existem relativamente ao acto de envelhecer; se ninguém nos diz totalmente como devemos crescer, também ninguém determina completamente o nosso envelhecimento. Porém, ao invés de crescimento, serão decerto bastante menos aqueles que perspectivam o envelhecimento como uma oportunidade seja do que for, acabando a maioria de nós por vê-lo antes como um mal irremediável, um desfecho incompreensível no fim de uma vida feita de aprendizgens, de relações, de projectos, etc. Não se vislumbrando de imediato , no acto de envelhecer, qualquer potencialidade construtiva, como pode a velhice trazer algo de positivo à vida humana?”(p.185-186).
Aqui fica a questão.

Ana Carla Nunes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

[Envelhecer]: Envelhecer: É Outono ou Inverno?


Se encararmos o ano e as suas estações como uma metáfora para o ciclo de vida dos humanos, tal como é sugerido por algumas crenças religiosas/espirituais, o outono corresponderia à “meia idade” e a velhice ao inverno.
Aprecio esta ideia porque, frequentemente, quando se fala de envelhecer, fala-se em perdas, em sofrimento e tristeza. Mas o inverno não são só dias de chuva e muito frio apesar de o ser também. São exatamente os dias chuvosos e feios que enaltecem e nos fazem apreciar muitissimo mais a beleza dos raios de sol. O frio aguça os sentidos e faz parecer muito mais aconchegante o calorsinho do sol a bater na cara num fim de tarde. Apesar de sermos avisados para  a importância dos pequenos prazeres ao longo da vida, é especialmente saliente a sua relevância no final. Talvez porque a fome de outras coisas foi satisfeita ou porque já se teve de tudo um pouco (ou muito) deixe de saber ao mesmo, a fome de se viver simplesmente seja a que resta, a fome de estar no aqui e agora, de amar e de estar com quem se ama, vivendo cada momento como se nada mais importasse.

É claro que nem todos os que envelhecem conseguem (ou sabem, ou querem) saborear essa parte da viagem, tal como nem todos saboreiam a sua infância ou adolescência, seja por que motivo for.
O que importa sublinhar é que tal como a preparação do inverno começa na primavera também a preparação do nosso envelhecer deve ser começada desde pequenitos. A aprender a apreciar a velhice, mesmo que seja o envelhecer dos 6 para os 7 anos já é envelhecer. Ensinar os mais pequenos a não temerem a velhice, a não a vermos como uma fase de vergonha, triste, mal-cheirosa e de sofrimento. Deveriamos mostrar-lhes que tal como todas as restantes estações do ano tem coisas boas, como o natal, a lareira, uma cama quentinha em dias de chuva, as laranjas e os limões com tudo a cheirar a canela, e menos boas como o frio que gela os ossos, os pés molhados, gripes e constipações, o custar a sair da cama de manhã, não deixando de ser mais uma parte do precurso que fazemos por cá.

Ana Carla Nunes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

[Envelhecer]: Envelhecer...


Reflectindo sobre o que significa envelhecer deparamo-nos com um dos tabus da sociedade: a morte.
Não se expõe, não se fala abertamente e nem é socialmente aceite grandes manifestações de pesar aos que sofrem com a perda de um ente querido. Talvez porque a velhice é a etapa de desenvolvimento mais próxima do fim natural da vida, sendo o medo da morte contagiante, torna-a no “bicho papão” inevitável.

Envelhecer é comum a todos os que vivemos, desde a nossa concepção. O tempo a passar é uma constante. Na nossa vida, regida por relógios, há uma consciência comum de que o tempo passa, que estamos “atrasados” e “sem tempo”, o que aumenta a pressão sobre a idade. Surge a tentativa de fuga ao envelhecer, negando os aniversários que passam, mentindo sobre a idade, omitindo as marcas do tempo no nosso corpo. Para quê?
            Porque ser velho não é moda. É feio numa sociedade focada na beleza jovem, na eficácia e eficiência aliada à velocidade, desvalorizando tanto a temperança, como a sabedoria e a experiência.

Tenho a sorte de pertencer a uma classe profissional que enaltece e valoriza a experiência e a sabedoria, mas nem todas o fazem, correndo o risco de desperdiçar recursos incalculáveis, só porque esta pessoa “expirou o prazo de validade” para a sociedade e tem de se reformar.
Penso que quem souber cuidar e prezar os seus Velhos terá sempre mais recursos disponíveis para atingir a excelência no que quer que faça.

Há ainda outros factores envolvidos nesta aversão ao envelhecer. Os meios de comunicação e o marketing propagam uma imagem de beleza jovem e fresca. Quase todos os atributos característicos da velhice tornaram-se obscenos e “a eliminar”.

            Como sublinhava Eunice Muñoz, numa entrevista televisiva recentemente, “Envelhecer é obsceno, as rugas são obscenas” mas apesar disso ela orgulha-se delas e não as esconde.
Que sentido faz este comportamento numa sociedade que quer “eliminar/esconder as rugas”? São “marcas do tempo”, dizia esta grande Senhora, são marcas de tudo o que viveu. Então, porque esconder que já se viveu tanto, que há tantas recordações por celebrar?

Ana Carla Nunes

[Envelhecer]: Apresentação!

Envelhecer…

A escolha do tema desta rubrica prende-se a uma curiosidade que tenho há já algum tempo. É daquelas coisas que nos intrigam, por ser um tema que incomoda muita gente e que ao mesmo tempo foi tão estudado e está ainda tão por estudar.

A minha experiência com idosos em várias actividades de voluntariado e no meu estágio académico consolidou alguns conhecimentos e aumentou ainda mais a minha vontade de explorar o Envelhecimento e a Velhice.

Para esta aventura de explorar a etapa da vida conto com as opiniões e reflexões dos leitores atentos do "Psicologia para Psicólogos".


 Ana Carla Nunes