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segunda-feira, 21 de abril de 2014

[PREVENIcaNDO]: Vai uma cartada?


O Baralhações é um material de dinamização de grupos que um dia tive a possibilidade de criar. É um baralho de emoções através do qual muitas reflexões podem acontecer a partir de uma abordagem lúdica. Porque nem todas as prevenções são universais e porque nem todas as dinâmicas são de grupo, escolhi uma experiência que tive com este material para o ilustrar.
Habituamo-nos a pensar a prevenção como algo que acontece antes dos problemas que queremos evitar mas frequentemente lidamos com situações em que procuramos prevenir que os problemas venham a ser maiores do que já são. Esta é a esfera da prevenção indicada e nela se movem profissionais e indivíduos que gerem situações de risco presente que se deseja que não passem a risco instalado. Era esta situação que eu tinha pela frente com um jovem que apresentava consumos esporádicos de cannabis. Falava-me da confusão dos seus sentimentos e da dificuldade de os gerir, da incapacidade de os ler corretamente quando expressos pelos outros e sobretudo do seu jeito desajeitado de dar resposta. Propus-lhe que batêssemos uma cartada.
Achou que eu estava maluco - o que em psicologia dá sempre jeito para que o outro não nos veja de forma tão ideal - mas aceitou quando me viu puxar do Baralhações. Explorou algumas das cartas e dos desenhos bem dispostos que o ilustram e perguntou-me como se jogava. Disse lhe "tem dias". A convicção do meu "amalucanço" aumentou. Expliquei que o jogo que íamos jogar mudava consoante o dia, mas que, hoje, era muito fácil. Cada um de nós teria cinco cartas ao acaso e que iríamos simplesmente bater umas cartas. Cada vez que puséssemos uma carta na mesa poderíamos ir ao baralho buscar outra. Estas eram as regras básicas, mas consoante as situações as regras poderiam mudar. Ele concordou e começamos a jogar.
 
A primeira carta foi minha e perguntei-lhe o que é que ele achava que a imagem representava. Era uma cena qualquer em que um grupo se divertia numa festa. Disse-me que parecia representar alegria. Perguntei lhe então o que é que eu quereria dizer jogando uma carta de alegria. Pensou um pouco. "Pode querer dizer que está alegre... Ou desafiar-me para ir a uma festa... Sei lá." Sugeri-lhe que batesse uma carta de resposta. Olhou para as suas cinco cartas e acabou por escolher uma outra em que três amigos parecem pousar para uma fotografia com um a fazer corninhos ao outro. Fui ao baralho e procurei nele a carta que me interessava e coloquei-a em cima da mesa. Quando foi a vez de ele biscar disse-lhe que não podia escolher. Teria de tirar uma carta qualquer ao acaso. Reagiu. "Isso não é justo". Expliquei-lhe que nem todos tínhamos acessos às cartas da mesma maneira e que se ele queria jogar teria de aceitar a regra. Rabujou mas acabou por lançar uma segunda carta. Repeti a procura da carta que mais me interessava e quando ele se apressava para biscar disse-lhe que, embora pudesse fazê-lo não poderia ver a carta. "Então para que é que serve?" "É um recurso que tens. Sabes que o tens mas não sabes qual é". Voltou a rabujar. Com menos cartas visíveis a tarefa dele tornou-se mais difícil. Não tinha cartas de jeito. E ainda por cima não podia ver a última. Disse-lhe que podia passar. Deu-me a vez e eu fui buscar nova carta e dei continuidade a este diálogo de emoções. Disse-lhe que como não tinha deitado uma carta fora não poderia biscar, mas eu permitia-lhe trocar uma carta que não lhe interessasse por outra do baralho, com a condição de ele não poder ver a que biscasse. Embora não gostasse da regra aceitou-a. Passou a ter duas cartas desconhecidas e três que pouco lhe interessavam. Concordamos que, ao não jogar, não só a situação dele não melhorava como eu poderia começar a desinteressar-me dele. Disse-lhe que respondesse de qualquer modo. Ou com uma carta completamente dissonante da minha ou arriscando uma carta das desconhecidas.
O jogo continuou com outras peripécias mas no fim o resultado foi uma grande irritação com o resultado daquele diálogo. A conversa sobre o jogo ajudou o jovem a rever-se na dinâmica. De facto nem sempre temos ao nosso dispor as cartas que queremos, às vezes porque o nosso baralho é pobre, outras vezes porque não sabemos jogar com as cartas que temos outras ainda porque não nos conhecermos suficientemente bem para sabermos das nossas cartas. Aí, claramente podemos optar por nos retrairmos e sair do jogo, ficar a ver sem participar ou arriscar, e mesmo podendo parecer estranho, o diálogo permitirá a troca e o crescimento. O sorriso de se ver ilustrado no jogo permitiu-me perceber que a mensagem tinha sido captada. Ficamos um pouco mais a explorar o jogo com outras regras malucas, umas minhas outras dele, mas a cartada seguiu animada. No final da sessão despediu-se a rir. "Ninguém vai acreditar que estive a tarde a jogar as cartas consigo." "Pois. É tão plausível como dizer que me diverti imenso com os teus problemas".
Enfim. Quem disse que a prevenção tem de ser muito séria? O importante é que faça sentido.

Raúl Melo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

[PREVENIcaNDO]: Quantos Lados Há?


Todos aqueles que trabalham com grupos, todos os que trabalham em contextos sociais desfavorecidos, todos os que trabalham com populações de risco já se confrontaram com a necessidade de se posicionarem. És dos nossos ou estás contra nós? Dás a cara ou passas despercebido? Intervir com grupos de risco coloca-nos numa posição estranha de nos identificarmos com eles. Como aprendi há uns largos anos atrás, as instituições que trabalham com populações segregadas, acabam de algum modo por ser encaradas como marginais, necessárias, talvez mesmo até nobres, mas regendo-se por regras necessariamente mais próximas da sua população do que da população em geral. Esse é o preço da proximidade e é um preço importante de se pagar em função do que é importante ser feito, numa sociedade em que o bem-estar colectivo é responsabilidade de todos.
Daí que pensar sobre o assunto, fazer pensar, é essencial no processo preventivo. Se vos dissesse que vos daria a possibilidade de descarregar um problema nas costas de alguém, vocês aceitariam? Se vos desse um autocolante e vos dissesse que esse autocolante era um problema e que vocês poderiam escolher alguém em quem o descarregar, aproveitariam? A dinâmica é simples. Todos os jogadores recebem um autocolante e por um período muito curto de tempo podem livrar-se do seu problema, desde que seja nas costas de alguém. E o que é que acontecesse? Alguns recusam-se a fazê-lo porque não querem sobrecarregar ninguém com o seu problema. Outros encaram a regra com entusiasmo e procuram activamente descarregar o seu problema, nos vizinhos, nas pessoas com quem têm mais à vontade, ou simplesmente em quem calhar. Por vezes no entusiasmo de descarregar colocam-se sem posições desfavoráveis e tornam-se alvo das descargas dos outros. Em consequência… uns acabam com mais problemas nas costas do que outros. Normalmente essas pessoas são aquelas que no momento indicado estavam no centro do grupo, acessíveis… Enquanto outras estavam na zona periférica do grupo, estrategicamente ou não, menos expostas… E a reflexão decorre com constatações e consciencializações que preparam os jogadores para uma nova rodada de problemas. Desta vez, aqueles que têm mais problemas nas costas estão mais limitados na sua movimentação. São mais lentos ou até mesmo estáticos, estão cegos ou impossibilitados de se defenderem. Esse é o peso dos problemas. Limitam-nos. O jogo prossegue porque há sempre novos problemas para descarregar. E com a aprendizagem anterior os jogadores entregam-se à dinâmica. E após nova descarga a reflexão regressa. Por vezes o centro do grupo esvazia-se porque se sabe que quem se põe a jeito apanha com mais problemas. Outras vezes os jogadores sobrecarregados recebem mais uns quantos problemas porque “assim como assim” eram quem estava mais à mão de semear. Outras vezes ainda alguns jogadores percebem que podem trocar problemas dando o seu em troca do outro. E a compreensão estabelece-se que os problemas, quando bem distribuídos não representam sobrecarga para ninguém. E que o medo irracional do mal que os outros nos podem fazer torna-nos jogadores ferozes que se protegem dos outros e se possível se livram do que os sobrecarrega.
E, finalmente, se jogássemos este jogo em grupo, cada um deles com os seus elementos frágeis, lentificados ou paralisados, cegos ou impossibilitados de se defenderem, o que é que aconteceria. Alguns grupos escolheriam estes elementos como alvo nas equipas adversárias. Outros protegeriam os seus elementos frágeis abdicando do ataque aos outros, outros ainda encontrariam estratégias para que todos pudessem ser parte activa quer no ataque quer na defesa. Mas nunca, mesmo nunca, vi duas equipas trocarem de problemas dando o seu em troca dos outros.
E quando pensamos sobre isto é inevitável pensar de que lado estamos? Do nosso, do deles ou do de todos? Do lado de dentro ou de fora? Na frente ou atrás? Acima dos outros, ao lado ou abaixo? Ou conseguimo-nos ver entre lados, equidistantes, preenchendo vazios, ligando partes?
Como nos posicionamos para ajudar? Ensinamos estratégias de defesa ou de ataque? Motivamos para novas batalhas? Acolhemos as descargas que resultam da revolta, da marginalização, do sentimento de injustiça? Ou ajudamos a crescer num mundo onde os problemas se descarregam mais do que se partilham?


Raúl Melo