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domingo, 6 de abril de 2014

Jogar com o que Temos


Bandura falou a certa altura dos ganhos a longo prazo. É algo que faz parte da percepção de auto-eficácia. Se eu perceber que determinada forma de me garante mais ganhos, é essa a forma que terei de adoptar para a minha melhor adaptação. Neste sentido, poderei ter de abdicar de alguns ganhos agora, para que os de futuro, sejam maiores.
E é neste jogo que nos deparamos todos os dias. Como que num jogo de controlo, balançando o que queremos fazer com o que queremos obter. Jogando com as cartas que temos que nem sempre são suficientes para perceber a escolha a realizar e o caminho a tomar. Então fazemos o quê?
Bandura diria que faríamos aquilo para o qual somos melhor, associando a nossa percepção de auto-eficácia às nossas competências e comportamentos directos, desejando que o caminho escolhido fosse, assim, o que nos traria mais ganhos.
Mas como ter a certeza? Não se tem. Nem sei, contudo, se é suposto que se tenha.
Como não nos tornarmos reféns do que queremos agora? Fácil. Percebendo o que queremos no futuro e equilibrando a nossa necessidade de controlo com o que podemos ganhar.
Nem sempre é certo, mas é o caminho mais adaptativo.

Tiago A. G. Fonseca

terça-feira, 19 de março de 2013

[Psicologia e Política]: Instabilidade Política 2: O Outro Lado

É importante que se perceba e esclareça que política não se resume a partidos políticos.
Política é a acção em função das pessoas, normalmente, relativo à gestão e administração de grupos populacionais, como autarquias ou estados e países. Mas desengane-se quem acha que agir para e pelos outros não é sempre política. Quando participamos numa associação, num grupo desportivo, numa instituição, e agimos no sentido da promoção dos outros, criando plataformas e condições favoráveis e de melhoramento da vivência dos outros, seja com que tipo de serviços forem, estamos a fazer política.
Aqui, e dependendo – obviamente – das intenções de cada um, estaremos a promover a nossa própria auto-estima, realizando acções que promovem algo de bom nos outros. A continuação de boas práticas promove outras, motivando quem as pratica. É importante termos objectivos e conseguir alcançá-los, mas sobretudo, pensar como os podemos alcançar. E esta é claramente uma boa forma. A esperança não desaparece quando vemos que a nossa acção faz bem nos outros, e que os outros se sentem mais esperançados e motivados na sua própria acção e vivência pelo exemplo que lhes foi prestado. Esta é a cooperação da sociedade, funcionar uns para os outros. Isto é fazer política.
Todas as variáveis que foram faladas nesta e na publicação anterior – esperança, percepção de controlo e de segurança, auto-estima e motivação – dependem da nossa percepção do quanto estamos inseridos, do quanto somos ouvidos, do quanto nos parece que algo é feito por nós quando é evocado em nosso nome. Mas nem sempre esta percepção é correcta, pois as variáveis que a influenciam são muitas.
Diria que a percepção de controlo tem aqui um papel chave. Se percebermos o que podemos influenciar no meio, se percebermos o que podemos e devemos controlar do que nos rodeia, se percebermos que devemos partilhar o controlo sobre diversas actividades e situações, conseguimos estar melhor connosco próprios, em coerência, e promover em nós bem-estar psicológico, essencial para a calma necessária à percepção correcta das outras variáveis.
Nem tudo é realidade, mas tudo são percepções.

Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 4 de março de 2013

[Psicologia e Política] Instabilidade Política…

… é Instabilidade Social. Instabilidade Política é Instabilidade Social.

A Instabilidade Política – Nacional e Internacional – não é coisa de políticos. A ser coisa, é coisa de todos. Esta instabilidade cria - além das óbvias - mais dificuldades do que se pensa, estendendo-se além das económicas. E as dificuldades psicológicas que lhe seguem são bem pesadas e reais. Ficam apenas alguns tópicos para reflexão.

Percepção de Controlo – Quanto mais nos parece que não controlamos o nosso meio, menos percepção de controlo iremos ter. Esta percepção estagna a motivação de criar, planear e alcançar objectivos.
Auto-estima – Sem percepcionar boas novidades em nosso redor e nas nossas pessoas, o “gostar de nós” é dificultado. Acrescem aqui as dificuldades reais existentes que relacionam a auto-estima com o tópico seguinte: Esperança.
Esperança – Este sentimento é essencial à vida. A baixa auto-estima é a chama que acende a falta de esperança: em nós próprios e no futuro num geral. Esta falta de esperança é promovida pela percepção de insucessos nos objectivos, pessoais e colectivos.

Sim, é um ciclo. Percepção de instabilidade leva à percepção de controlo diminuída que, ao atenuar a motivação para a acção eficiente, promove a baixa-auto estima. Esta leva ao sentimento de esperança reduzido, ou seja, num futuro de reduzidos objectivos.

            É importante ter noção que todos, enquanto cidadãos, somos cuidadores e responsáveis pela instabilidade política (como se de uma pessoa se tratasse), e que todos, e não só os agentes políticos, somos cuidadores e responsáveis pela instabilidade social (como se de uma pessoa se tratasse).

            Na próxima publicação da rubrica, irei escrever sobre o mesmo, mas de uma perspectiva interventiva, onde nós, cada cidadão, pode intervir nestes seus tópicos de forma a regulá-los.

            Tiago A. G. Fonseca

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

[Psicologia e Política]: De Onde Vem a Corrupção?


            Será impossível, de forma universal, prever o porquê de alguns indivíduos sucumbirem à corrupção. As motivações são muitas e diversificadas, idiossincráticas e com origens diferentes. Oportunidade, necessidade, vício ou apenas porque se sente em bem-estar realizando-a. Tudo opções, e com certeza, cada um terá a sua.
            Deixo aqui, de forma geral, aquela que pode ser uma justificação para o início desse tipo de comportamento.

            O Modelo de Complementaridade Paradigmática (MCP; Vasco, 2009) prevê o atingir do bem-estar psicológico aquando da regulação da satisfação das necessidades psicológicas do indivíduo. Estas necessidades representam os instrumentos, promovidos pelo seu Self, que o orientam no sentido da realização de comportamentos de promoção do seu equilíbrio interno, satisfazendo as suas necessidades.
Importante será perceber que estes comportamentos podem ser adaptativos ou não-adaptativos para o indivíduo mas, quando foram realizados, tinham um papel adaptativo para a situação. Este carácter dos comportamentos varia com as motivações e expectativas do indivíduo, e é este que faz determinado comportamento ocorrer ou não.

Duas das catorze necessidades psicológicas postuladas pelo MCP são o Controlo e a Cooperação/Cedência (Fonseca & Vasco, 2011). A necessidade de controlo refere-se à capacidade de influenciar o meio, de forma adequada, realizando avaliações correctas sobre as situações, bem como seleccionar os comportamentos de controlo correcto a realizar, para si, para os outros e para o meio. A necessidade de cooperação/cedência refere-se à capacidade de tolerar partilhar o controlo pessoal e do meio com os outros, de forma a atingir objectivos comuns, cooperando com uma comunidade. Ambas as necessidades, como explicado anteriormente, possuem comportamentos não-adaptativos a elas associadas. Aqui, insiro a variável corrupção, admitindo que este tipo de actividade se baseia em comportamentos não-adaptativos de controlo e de cooperação/cedência.

A percepção de controlo de um indivíduo é uma ferramenta do próprio, para o seu bem-estar e real acção sobre o seu meio. Mas torna-se num instrumento perigoso quando ao mesmo são associadas variáveis motivacionais – cujos resultados não são adaptativos para uma comunidade – e expectativas de resultados – quando os mesmos são previstos em objectivos próprios, inversos à vontade de uma comunidade. Aqui, a percepção de controlo torna-se exacerbada, sendo irreal, mas potenciada pelos ditos factores. Com esta percepção, a tendência para a cooperação estará debilitada, sendo que os objectivos não são comuns nem identificáveis na comunidade a que pertence. A percepção de controlo é passada para essa comunidade, onde são realizados os comportamentos de corrupção, num controlo sobre a mesma.
Grave – e estamos a falar de política – é quando quem pratica este tipo de actividade está a representar uma comunidade. Isto significa que deve existir uma obrigatoriedade de cooperação e uma capacidade para a percepção de um controlo real. Isto levaria à boa acção, para si e para os outros, no sentido da acção ponderada entre o que pode e deve realmente controlar, exercendo comportamentos de acção comunitária, prestando trabalho público a favor da comunidade.

De forma não-adaptativa, estes comportamentos estimulam o bem-estar de quem os pratica. Para o próprio, estes comportamentos são adaptativos enquanto as motivações e as expectativas assim o disserem. É necessária a acção legal sobre as actividades de corrupção, no sentido de fazer ponderar motivações e anular expectativas dos praticantes.


Tiago A. G. Fonseca


Fonseca, T., & Vasco, A. B. (2011). Necessidade psicológica de controlo/cedência: Relação com bem-estar e distress psicológicos (Dissertação de mestrado). Retirado de http://hdl.handle.net/10451/4868
Vasco, A. B. (Julho, 2009). Regulation of needs satisfaction as the touchstone of hapiness. Comunicação apresentada na “16th Conference: European Association for Psychotherapy”. Lisboa, Portugal.