quinta-feira, 22 de novembro de 2012

[Mudança]: MUdar


Não parece nada fácil.

Hábitos, trejeitos, expressões, tiques, posturas, perífrases, metáforas, eufemismos, silêncios, opiniões. Trabalho árduo de construção, trabalho fácil de habituação.
É assim que funcionamos ao longo da vida: primeiro, não sabemos nada, tabula rasa sedenta de vontade de integrar. Nesta altura desenvolvem-se as mais refinadas estratégias de acomodação e assimilação, entenda-se isto como um passo crucial na integração da novidade (que por esta altura deve ser tudo). Posteriormente, a confiança aumenta e também a selecção do que queremos apreender fica mais evidente.
O contexto induz-nos a gostar mais de umas coisas em detrimento de outras e isso é legítimo. O indivíduo X nasce num meio abastado e intelectualmente desenvolvido, que fomenta o gosto pela arte. Não nos iludamos: o indivíduo X começará por querer saber tudo mas posteriormente, na arrogância do desenvolvimento, tenderá a escolher o que vai ao encontro do seu interesse, genético mas também aprendido. Se assim for, poderá ir a concertos, poderá ouvir sonatas e poderá ter amigos leitores assíduos. Tal como ele, também nós passamos pela tendência de usar o que de melhor nos cabe e que ficará automatizado. Talvez para nos pouparmos a novos investimentos intelectuais, para nos tornarmos rápidos a escolher e a depreciar, para ingenuamente considerarmos a certeza de que sabemos bem de que somos feitos.
E assim, nós, que tínhamos uma casa com dezenas de andares, que começamos bem, criativos, empreendedores, sanguessugas de informação, sabotamos a oportunidade que temos para evoluir e abrir novos caminhos. Na verdade, passamos grande parte da vida a utilizar apenas um ou dois andares da casa que somos. Porque cansa, arrisca, perturba, desestabiliza. É este o retrato que temos da mudança: "periguifica" tudo o que alcançámos, que mesmo que não seja bom, é nosso.
A mudança não tem mau carácter (passo a personificação). Apenas nos quer mostrar que não nos permitimos experimentar o máximo, quando é essa a nossa obrigação existencial.

 E assim, ao longo do desenvolvimento, sedimentamos a tendência cerebral para pensar em termos de opostos redutores: através da etiquetagem dicotómica bom/mau, feio/bonito, moral/imoral, possível/impossível. Entre outras, neste dislate criativo. Consequentemente, quanto mais se pensa em termos de conceitos divergentes, mais se desenvolvem essas redes neuronais rápidas e rígidas que corroboram o sentido polarizado dos comportamentos dos outros e dos acontecimentos.
Para MU(Dar) pede-se flexibilidade, arte de discernimento e ainda criatividade interpretativa com abertura a alternativas. Pede-se análise escrutinada, capacidade para experimentar o lugar do outro, para abandonar o juízo crítico-destrutivo e abarcar um sentido cooperativo de acção e reflexão. Pede-se pouco. Pede-se congruência com a evolução humana, biológica e social. Pede-se que consigamos isto por nós e pelos outros.
Na ausência de novas estratégias, usam-se as antigas: disfuncionais ou não. Peca-se assim quase sempre pela não mudança.

É esta a miséria que mais nos afecta, antes de qualquer outra.

Ana Rita Caldeira da Silva

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