segunda-feira, 28 de abril de 2014

[Competência(r)]: Competência(r)


A área das competências tem diversas questões-chave que os investigadores e teóricos ambicionam responder.
A competência humana tem vindo a ser definida como um conjunto de competências, entre as quais a competência social que consiste num conjunto de ações, atitudes e pensamentos que o indivíduo apresenta em relação à sociedade, à sua comunidade, aos indivíduos com que interage e a ele próprio. Assim, é fácil compreender que este se tenha constituído um campo de estudo da psicologia. Por exemplo, já Thorndike em 1920, sugeria três tipos de inteligência, um dos quais se reportaria à inteligência social ou competência social. Muitos outros autores têm estudado este constructo, utilizando vários nomes e diferentes definições, mas é unânime a importância deste campo para a psicologia.
Existe uma competência social, equiparando-se ao Fator g, ou existirão diversas competências sociais (como as inteligências múltiplas)? E ainda, a distinção, em termos práticos, entre treino de competências sociais, desenvolvimento pessoal e desenvolvimento de competências sociais e emocionais.
Diversos autores têm-se debruçado sobre as questões enumeradas, sendo que várias referências podem ser apontadas para a discussão teórica sobre estes temas.
Assim esta rubrica pretende reunir alguma bibliografia essencial sobre estes temas teóricos mas avançar também com aspetos mais práticos sobre o desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

Marta Marchante

segunda-feira, 21 de abril de 2014

[PREVENIcaNDO]: Vai uma cartada?


O Baralhações é um material de dinamização de grupos que um dia tive a possibilidade de criar. É um baralho de emoções através do qual muitas reflexões podem acontecer a partir de uma abordagem lúdica. Porque nem todas as prevenções são universais e porque nem todas as dinâmicas são de grupo, escolhi uma experiência que tive com este material para o ilustrar.
Habituamo-nos a pensar a prevenção como algo que acontece antes dos problemas que queremos evitar mas frequentemente lidamos com situações em que procuramos prevenir que os problemas venham a ser maiores do que já são. Esta é a esfera da prevenção indicada e nela se movem profissionais e indivíduos que gerem situações de risco presente que se deseja que não passem a risco instalado. Era esta situação que eu tinha pela frente com um jovem que apresentava consumos esporádicos de cannabis. Falava-me da confusão dos seus sentimentos e da dificuldade de os gerir, da incapacidade de os ler corretamente quando expressos pelos outros e sobretudo do seu jeito desajeitado de dar resposta. Propus-lhe que batêssemos uma cartada.
Achou que eu estava maluco - o que em psicologia dá sempre jeito para que o outro não nos veja de forma tão ideal - mas aceitou quando me viu puxar do Baralhações. Explorou algumas das cartas e dos desenhos bem dispostos que o ilustram e perguntou-me como se jogava. Disse lhe "tem dias". A convicção do meu "amalucanço" aumentou. Expliquei que o jogo que íamos jogar mudava consoante o dia, mas que, hoje, era muito fácil. Cada um de nós teria cinco cartas ao acaso e que iríamos simplesmente bater umas cartas. Cada vez que puséssemos uma carta na mesa poderíamos ir ao baralho buscar outra. Estas eram as regras básicas, mas consoante as situações as regras poderiam mudar. Ele concordou e começamos a jogar.
 
A primeira carta foi minha e perguntei-lhe o que é que ele achava que a imagem representava. Era uma cena qualquer em que um grupo se divertia numa festa. Disse-me que parecia representar alegria. Perguntei lhe então o que é que eu quereria dizer jogando uma carta de alegria. Pensou um pouco. "Pode querer dizer que está alegre... Ou desafiar-me para ir a uma festa... Sei lá." Sugeri-lhe que batesse uma carta de resposta. Olhou para as suas cinco cartas e acabou por escolher uma outra em que três amigos parecem pousar para uma fotografia com um a fazer corninhos ao outro. Fui ao baralho e procurei nele a carta que me interessava e coloquei-a em cima da mesa. Quando foi a vez de ele biscar disse-lhe que não podia escolher. Teria de tirar uma carta qualquer ao acaso. Reagiu. "Isso não é justo". Expliquei-lhe que nem todos tínhamos acessos às cartas da mesma maneira e que se ele queria jogar teria de aceitar a regra. Rabujou mas acabou por lançar uma segunda carta. Repeti a procura da carta que mais me interessava e quando ele se apressava para biscar disse-lhe que, embora pudesse fazê-lo não poderia ver a carta. "Então para que é que serve?" "É um recurso que tens. Sabes que o tens mas não sabes qual é". Voltou a rabujar. Com menos cartas visíveis a tarefa dele tornou-se mais difícil. Não tinha cartas de jeito. E ainda por cima não podia ver a última. Disse-lhe que podia passar. Deu-me a vez e eu fui buscar nova carta e dei continuidade a este diálogo de emoções. Disse-lhe que como não tinha deitado uma carta fora não poderia biscar, mas eu permitia-lhe trocar uma carta que não lhe interessasse por outra do baralho, com a condição de ele não poder ver a que biscasse. Embora não gostasse da regra aceitou-a. Passou a ter duas cartas desconhecidas e três que pouco lhe interessavam. Concordamos que, ao não jogar, não só a situação dele não melhorava como eu poderia começar a desinteressar-me dele. Disse-lhe que respondesse de qualquer modo. Ou com uma carta completamente dissonante da minha ou arriscando uma carta das desconhecidas.
O jogo continuou com outras peripécias mas no fim o resultado foi uma grande irritação com o resultado daquele diálogo. A conversa sobre o jogo ajudou o jovem a rever-se na dinâmica. De facto nem sempre temos ao nosso dispor as cartas que queremos, às vezes porque o nosso baralho é pobre, outras vezes porque não sabemos jogar com as cartas que temos outras ainda porque não nos conhecermos suficientemente bem para sabermos das nossas cartas. Aí, claramente podemos optar por nos retrairmos e sair do jogo, ficar a ver sem participar ou arriscar, e mesmo podendo parecer estranho, o diálogo permitirá a troca e o crescimento. O sorriso de se ver ilustrado no jogo permitiu-me perceber que a mensagem tinha sido captada. Ficamos um pouco mais a explorar o jogo com outras regras malucas, umas minhas outras dele, mas a cartada seguiu animada. No final da sessão despediu-se a rir. "Ninguém vai acreditar que estive a tarde a jogar as cartas consigo." "Pois. É tão plausível como dizer que me diverti imenso com os teus problemas".
Enfim. Quem disse que a prevenção tem de ser muito séria? O importante é que faça sentido.

Raúl Melo

quinta-feira, 17 de abril de 2014

[Comboio do Desenvolvimento]: Noção de Estádio de Desenvolvimento


Fases, etapas, níveis, estádios…do desenvolvimento psicológico

Vimos que, desde há muito tempo, a descrição do ciclo de vida das pessoas induziu a delimitação de diferentes fases, períodos, etapas, níveis ou estádios do desenvolvimento físico e psicológico associadas a diferentes práticas educativas ou de socialização.
Contudo, deixei uma interrogação aos meus leitores sobre a natureza universal ou relativamente consensual dessas divisões do ciclo de vida, recordam-se? Mais precisamente, será que ao longo da história, nas diferentes culturas ou até entre os investigadores do desenvolvimento humano, nos deparamos sempre com uma divisão comum, idêntica, dessas fases, períodos, etapas, níveis ou estádios que parecem marcar a sucessão do desenvolvimento humano?
Por hoje, vamos então invocar alguns exemplos históricos e interculturais que desafiam a nossa reflexão. 

Conta-nos Tran-Thong (1976), que na Índia antiga, a vida das pessoas das castas socialmente mais elevadas era dividida em seis períodos associados a diferentes rituais e modos de viver. O recém-nascido era sujeito ao rito da denominação; aos 3 anos, a criança submetia-se ao corte do cabelo e recebia o traje da sua família; entre os 8 e os 12 anos, era confiada a um preceptor numa cerimónia que marcava o seu nascimento espiritual e o início do tempo de educação literária e marcial; aos 16 anos, o jovem voltava à casa paterna, era sujeito ao rito do corte da barba e declarado pronto para casar para, em seguida, passar a dono de casa, responsável pela sua família e pela sua profissão; por fim, quando se sentia velho, deixava a família, retirava-se na floresta, para meditar os textos sagrados e aceder ao estatuto supremo de monge, nómada e mendicante.  
Conta-nos ainda Tran-Thong (1976) que, entre os antigos romanos, a vida das pessoas era também dividida em seis fases que parecem, aliás, cada vez mais actuais nas nossas sociedades desenvolvidas: o infans até aos 7 anos, o puer dos 7 aos 17 anos, o adolescens dos 17 aos 30 anos, o juvenis dos 30 aos 46 anos, o senior dos 46 aos 60 anos e o senex dos 60 aos 80 anos.
Conta-nos finalmente Ferreira da Silva (1982) que na nossa cultura, ainda há pouco tempo, a vida das pessoas se dividia em quatro fases: a idade da razão aos 7 anos, a adolescência desde os 14 anos, a maioridade aos 21 anos e a aposentação aos 70 anos.

Ora, estes simples exemplos históricos e culturais sugerem já algumas conclusões que legitimam, mas também desafiam, a distinção e conceptualização de diferentes fases, etapas, períodos, níveis ou estádios no ciclo de vida humana.
Em primeiro lugar, há muito tempo que os homens se aperceberam que acontecem mudanças, orgânicas e psicológicas, relativamente uniformes, universais e irreversíveis, pois são comuns à maioria das pessoas, podem ocorrer em diversos contextos de vida e, quando ocorrerem, perduram no tempo e nunca mais se perdem.    
Em segundo lugar, há muito tempo que os homens se aperceberam que essas mudanças são direccionadas, progressivas e relativamente inevitáveis, pois obedecem a uma ordem de sucessão constante que acompanha, basicamente, a sequência de evolução e involução biológica do nosso próprio organismo e o percurso que, acreditamos, caracteriza o desenvolvimento psicológico típico do Homem.   
Em terceiro lugar, há muito tempo que os homens se aperceberam que essas mudanças não são meramente superficiais, contingentes, ocasionais ou idiossincráticas, são mudanças profundas, estruturais e consistentes da conduta humana que, como vimos, têm orientado e regulado a integração do indivíduo em diferentes níveis de educação e em diferentes formas de vida pessoal e social.

Porém, tanto o número de etapas, fases, períodos do ciclo de vida humana, como as idades e mesmo a identificação das mudanças que as demarcam, variam com o tempo histórico, com a cultura, com a classe social, enfim, com um conjunto de variáveis de natureza social, contextual e até individual que parecem também indicar que essas divisões permanecem eventualmente mais artificiais e culturais do que naturais, estruturais e consensuais.
Em síntese, um simples olhar histórico-cultural mostra já porque continua em aberto o debate sobre a noção de estádio do desenvolvimento psicológico. De facto, a conceptualização das mudanças que interessam os psicólogos do desenvolvimento permanecem ainda largamente dependentes da perspectiva de pensamento, moderno ou pós-moderno, dos próprios investigadores, dos seus domínios de estudo e das limitações metodológicas inerentes à própria investigação científica.

Maria Stella Aguiar

Referências
Chandler, M. (1997). Stumping for progress in a post-modern world. In E. Amsel & K. A. Renninger (Eds), Change and development. Issues of theory, method and application. N.J: Lawrence Erlbaum.
Lourenço, O. (2002). Psicologia de Desenvolvimento Cognitivo: Teoria; Dados e Implicações. 2ª Ed. Coimbra: Almedina.
Silva, F. (1982). Estudos de Psicologia. Coimbra: Livraria Almedina.
Tran-Thong (1987). Estádios e Conceito de Estádio de Desenvolvimento da Criança na Psicologia Contemporânea. Vol. 1 e 2. Porto: Afrontamento.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

[Temáticas Organizadas]: Gestão de Carreira: Para Além do Controlo


No mundo ocidentalizado, o ser humano vive grande parte da sua vida no futuro. Fazemos constantes previsões acerca da evolução da tecnologia, dos governos, dos mercados, do trabalho. Com base nesta visão de futuro, definimos estratégias que não fazem mais do que tentar assegurar que um determinado resultado é atingido. De forma semelhante, fazemos o mesmo com a nossa carreira quando definimos que curso completar e que profissão seguir; em que empresa trabalhar, que funções ocupar e quanto dinheiro ganhar. Mesmo que, muitas vezes, tal planeamento se aproxime mais de uma declaração de intenções, somos automaticamente impulsionados a definir uma visão de futuro para a nossa carreira. 
Na base desta abordagem à gestão de carreira está a crença de que, ao definir uma estratégia, conseguimos atingir um determinado resultado. É uma abordagem estritamente racional e parte do pressuposto que, com uma clara definição de objectivos e um ajustamento entre os interesses pessoais e as aptidões necessárias para o acesso à carreira, temos as condições necessárias para prever um caminho para o futuro. Planear a carreira desta forma, para além de nos motivar para a acção, transmite-nos uma percepção ilusória de controlo sobre o futuro. Mesmo que as leis do mercado tenham mudado e que prever o futuro seja cada vez mais difícil, a verdade é que continuamos a alimentar o artifício de que a carreira deve obedecer a uma sequência de etapas pré-definidas. 
Esta abordagem à gestão de carreira não é nem boa nem má por si só. Mas, nos tempos complexos e incertos que enfrentamos, qual a probabilidade de assegurar que seremos contabilista, médico, professor, consultor para toda a vida?
A verdade é que, enquanto vamos pensando na carreira em termos hipotéticos, o presente acontece. Vamos vivendo diferentes experiências de vida, acumulando diferentes papéis, valorizando diferentes abordagens e, quando de repente despertamos para o presente, damo-nos conta de que aquilo que planeamos deixou de fazer sentido. Por diversas circunstâncias, fruto de pressões externas ou internas, percebemos que o percurso de carreira que hipoteticamente definimos já não é viável e não consegue suprimir um conjunto de necessidades que queremos asseguradas. Outras vezes, percebemos que o que temos actualmente já não nos é suficiente. Quase sempre, quando o choque com o presente acontece, sentimo-nos fragilizados. De alguma forma, tornamo-nos vítimas inconscientes de um processo de desfasagem entre uma carreira idealizada e a realidade do mercado e da pessoa que somos hoje.
A carreira de uma pessoa é indissociável do cumulativo das suas experiências. Carreira e vida andam lado a lado uma da outra simplesmente porque não podemos dissociar o “eu” profissional do “eu” pessoal. As experiências que continuamente vivemos quer no trabalho quer na vida pessoal determinam quem somos e este é um facto com o qual temos de aprender a viver.
Pelas vivências que vamos acumulando, pelas oportunidades que não havíamos previsto ou antecipado e pelas mudanças de contexto, somos muitas vezes forçados a reajustar a nossa trajectória e a replanear alguns dos nossos objectivos futuros. Por outras palavras, à medida que vamos acumulando experiências, a nossa visão do mundo muda e podemos ter em conta outras variáveis nas nossas projecções e decisões e futuras, ajustando assim o nosso alvo final.
Por este motivo, a carreira é um processo em construção contínua e a sua gestão aproxima-se da imagem de um artesão a moldar o barro. Quando um artesão começa a trabalhar não sabe ao certo o resultado final. O produto que emerge pode tomar uma forma diferente dos seus anteriores trabalhos ou mesmo daquilo que ele se propôs fazer à medida que as suas mãos vão moldando o barro. Para este artesão, a acção precede o pensamento e um novo objecto pode aparecer a qualquer altura do seu processo de trabalho.
A imagem do artesão a moldar o barro é uma metáfora inspiradora, com implicações profundas para a nossa actuação. Nesta metáfora, cada um de nós é um artesão e a carreira o barro por moldar. À semelhança do artesão também nós podemos dar formas diferentes à nossa carreira à medida que acumulamos novas experiências de vida e novas competências. Pensar a carreira nestes termos torna-nos mais flexíveis e aumenta a nossa empregabilidade: permite-nos, sem sentimento de frustração ou insucesso, abrir mão do que havíamos intencionado por inadequação ao mercado actual e à pessoa que somos hoje.
Num mundo em permanente mutação, controlar o futuro é impraticável e, quase sempre, pouco adaptativo. Mais ainda, pensar que controlamos o futuro torna-nos alienados do presente. Por isso, gerir a carreira não é sinónimo de controlo mas de construção contínua. Para o nosso próprio desenvolvimento temos de ter a capacidade de perceber que o futuro pode ser reajustado à medida que se percorre o caminho até chegar a ele. Gerir a nossa carreira é ter a coragem de abrir mão daquilo que damos por adquirido e construir um novo significado à medida que nos modificamos com as nossas experiências pessoais. Gerir a carreira é ser o artesão da nossa própria vida. 

Andreia Rosa

domingo, 6 de abril de 2014

Jogar com o que Temos


Bandura falou a certa altura dos ganhos a longo prazo. É algo que faz parte da percepção de auto-eficácia. Se eu perceber que determinada forma de me garante mais ganhos, é essa a forma que terei de adoptar para a minha melhor adaptação. Neste sentido, poderei ter de abdicar de alguns ganhos agora, para que os de futuro, sejam maiores.
E é neste jogo que nos deparamos todos os dias. Como que num jogo de controlo, balançando o que queremos fazer com o que queremos obter. Jogando com as cartas que temos que nem sempre são suficientes para perceber a escolha a realizar e o caminho a tomar. Então fazemos o quê?
Bandura diria que faríamos aquilo para o qual somos melhor, associando a nossa percepção de auto-eficácia às nossas competências e comportamentos directos, desejando que o caminho escolhido fosse, assim, o que nos traria mais ganhos.
Mas como ter a certeza? Não se tem. Nem sei, contudo, se é suposto que se tenha.
Como não nos tornarmos reféns do que queremos agora? Fácil. Percebendo o que queremos no futuro e equilibrando a nossa necessidade de controlo com o que podemos ganhar.
Nem sempre é certo, mas é o caminho mais adaptativo.

Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 28 de março de 2014

[Auto-cuidado]: Estar triste ou contente.


Estar triste ou contente, uma questão de foco?

Num período em que cada vez mais as pessoas se focam nas coisas más, nas notícias desanimadoras que recebemos na rua ou nos jornais, no que ainda falta fazer, em todos os sonhos que queriam alcançar e no facto de não o conseguir, proponho uma reflexão.

O que é diferente em nós quando estamos tristes ou contentes? Peço-lhe que pense um pouco nas diferenças que encontra nas situações que se lembra da sua vida. Penso ser um pouco comum que quando estamos tristes achamos que não somos capazes de fazer algo diferente, não temos esperança em que as coisas melhorem, não temos vontade de falar com as pessoas, nem sabemos como o fazer, não pensamos de uma forma desafiadora em sonhos. Quando estamos contentes tudo parece mais fácil, as pessoas falam connosco sem que tenhamos de fazer algo para que isso aconteça, as conversas acontecem de forma espontânea, parece que vemos sorrisos à nossa volta e temos vontade de transformar as caras tristes.
Porque não pensar em transformar a também a nossa cara triste? Não lhe peço para fingir que está tudo bem, para entrar num mundo imaginário em que só acontecem coisas boas. Peço-lhe sim para dar atenção também às coisas boas que lhe acontecem, para as equilibrar com as coisas menos boas, para ter um papel activo no seu próprio bem-estar. É como se tivéssemos uma balança dentro de nós, onde precisamos de colocar peso num dos pratos para se equilibrar e sentirmo-nos melhor. Se respeitarmos o que estamos a sentir e nos acarinharmos quando estamos tristes, podemos ganhar maior noção do que precisamos e movimentar recursos para satisfazer aquilo que precisamos nesse momento. O que precisa neste momento? O que acalmaria aquilo que está a sentir? O que pode fazer por si? Que prenda pode dar a si próprio/a?
Caminhos diferentes podem levar a destinos diferentes, só não levam se não tentarmos. E se não tentarmos, chegaremos ao mesmo destino a que temos sempre chegado, um destino que estamos cansados de conhecer, e que não nos traz novidade. Incluir novidade na sua vida pode ser uma forma de sair da rotina monótona e triste em que tem estado, pode ser o combustível que precisa para mudar um dia de cada vez, para sair de casa com mais força, para responder melhor quando alguém fala consigo.
Desafie-se a si próprio e às velhas formas de pensar. Será mesmo que nunca teve conquistas? Será mesmo que ninguém gosta de si? Tem assim tanta certeza de que as coisas não poderão ser diferentes? Quais serão as consequências de pensar de uma forma derrotista? Vamos fazer diferente amanhã?

Ana Sousa

quinta-feira, 27 de março de 2014

Nova Autora: Andreia Rosa!


O Psicologia Para Psicólogos dá as boas-vindas à nossa nova autora, Andreia Rosa!

Andreia Rosa, é mestre em Psicologia dos Recursos Humanos, do Trabalho e das Organizações pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.
Actualmente desempenha o cargo de consultora na Egor Formação, tendo já trabalhado como consultora na TMI Portugal e na Consulting House.
A Andreia foi, também, recentemente, oradora convidada da actividade Eu e o Mercado de Trabalho.

Psicologia Para Psicólogos

segunda-feira, 24 de março de 2014

Evento: Eu no Mercado de Trabalho, dia 25 de Março, Sala 11


Novas Autoras!


É com muito prazer que o Psicologia Para Psicólogos dá as boas vindas a mais 2 autoras!

Marta Marchante, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental e Integrativa, pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. É atualmente Técnica Superior no Gabinete de Estudos e Observatório de Empregabilidade da Ordem dos Psicólogos Portugueses e coordenadora dos projetos Ser a Brincar e Frenesim.

Ana Sousa, concluiu o Mestrado Integrado em 2009 na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, na área Psicologia Clínica e da Saúde (Pré-especialização em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental e Integrativa). É formadora certificada e tem desenvolvido trabalho de formação e intervenção em contexto comunitário, nomeadamente ao nível da capacitação de populações desfavorecidas e do trabalho clínico e formativo com pessoas em situação de desemprego. Actualmente encontra-se a desenvolver trabalho psicoterapêutico com adultos e grupos em consultório privado.

Obrigado pela vossa vontade de colaborar!

Psicologia Para Psicólogos

domingo, 23 de março de 2014

Síndrome de Asperger


Síndrome de Asperger.

Encontrei este pequeno filme no youtube que pode ajudar a esclarecer alguns pontos.

No entanto, acrescentava um que, apesar de não ser dito directamente, a situação relatada no filme mostra. O personagem do filme não fala directamente com a pessoa a quem ele quer entregar esta mensagem. No entanto, arranja forma de o fazer. Isto, pois as relações interpessoais e todo o contacto humano são também dificultados por este síndrome.
 
 
Numa próxima publicação, mais informações sobre o Síndrome de Asperger.

Tiago A. G. Fonseca

domingo, 16 de março de 2014

A Sociedade Evolui...


A sociedade evolui no sentido da adaptação do geral.
Pode nem sempre o perceber, ou, principalmente, pode nem sempre ser percebida dessa forma. Mas o que é certo é que existe sempre, em todas as gerações, homens e mulheres que se dedicam a avançar com o que é conhecido, promovendo mudança e desenvolvimento pessoal e humano através do dia-a-dia.
Basta que se alterem as leis que regem os Homens, as formas de uso dos materiais que toldam e moldam o quotidiano, a psicologia do pensamento que nos torna pessoas deste ano numa determinada comunidade e sociedade.
São pequenas ou grandes mudanças, inovações, que nos trazem ao pensamento diferenças de funcionamento que irão toldar a forma como pensamos e sentimos as coisas.
A forma como nos preocupamos com os outros, como emocionamos o que os outros ou nós próprios vivemos, a forma como exprimimos o que sentimos e pensamos, e a forma como vivemos a sociedade depende de um todo, poucas vezes percebido como tal. Mas se não fosse a sociedade, metade das nossas aprendizagens directas, sem o percebermos, não eram como as conhecemos. Eram diferentes. E cada uma de nós, era diferente, e actuava e agia de forma diferente.
É importante perceber que cada comunidade, cada sociedade, é um conjunto de pessoas que partilham objectivos, ideias, rotinas, mas que, apesar de tudo, são diferentes entre si, e todas têm virtudes e defeitos, problemas e soluções.
Sozinhos valemos. Mas juntos, valemos muito mais.

Tiago A. G. Fonseca

quarta-feira, 12 de março de 2014

[Comboio do Desenvolvimento] Fases, etapas, níveis, estádios...


Fases, etapas, níveis, estádios… do Desenvolvimento Psicológico

No ano que passou, o nosso comboio - lembram-se dele? – foi-nos conduzindo a algumas dimensões relativamente consensuais do desenvolvimento psicológico,  enquanto experiência de si e do mundo que vamos activamente construindo ao longo do tempo de vida e não simplesmente porque se vai acumulando e escoando esse tempo que vivemos. Vimos também como J. Piaget conversava com as crianças e como pode mudar, no tempo, o pensamento e/ou conhecimento, por exemplo, sobre a idade das pessoas.
Mas, o que serão então essas mudanças, que Piaget, Freud, Gesell, Wallon, Erikson, entre outros, designaram estádios, níveis, períodos, fases…do desenvolvimento psicológico? Dito de outro modo, o que distingue, de facto, as mudanças que interessam os psicólogos do desenvolvimento?

A observação da conduta humana (e também dos outros animais) mostra como ela é intrinsecamente mutável. Mudam os nossos movimentos, as expressões faciais e a postura corporal. Mudam as nossas aprendizagens, os conhecimentos e pensamentos. Mudam as motivações e emoções, os afectos e sentimentos. Muda a linguagem, a forma de comunicar e as relações que construímos com uns e com outros… Enfim, o que designamos comportamento é, de facto, um continuum de acções de interacção, uma sucessão de respostas a estímulos e contextos que vamos encontrando e que vão também mudando, é tudo o que experimentamos e/ou fazemos, momento a momento, para nos adaptarmos ao mundo.
Porém, há muito que os homens se aperceberam que não podiam descrever e compreender o comportamento humano (e animal) como um todo. Porque a nossa capacidade teórica e metodológica é limitada e precisamos de encontrar critérios que nos permitam dividir esse fluxo de actividade e ir, pouco a pouco, analisando e interpretando só alguns dos seus componentes.
A consulta de qualquer manual de Psicologia, a organização curricular dos cursos de Psicologia ou mesmo as especialidades de formação dos psicólogos mostram, por exemplo, a divisão do comportamento em diferentes domínios, diferentes perspectivas teóricas ou diferentes formas de organização da acção. Porém, a conduta que designamos cognitiva é, de facto, indissociável daquela que designamos perceptiva, motora, emocional ou social. A relação de uma resposta às suas consequências é, de facto, indissociável da relação dessa mesma resposta aos estímulos que a induziram, ou às condições sociais ou emocionais de quem a produz, ou a muitos outros motivos que vão despertando o interesse de diferentes investigadores, em diferentes momentos da história da nossa disciplina.

Enfim, é a curiosidade e a vontade de estudar do comportamento que introduz divisões artificiais numa actividade que é sempre mutável, mas indissociável, interligada, e qualquer critério de compreensão científica desse continuun de mudança comportamental é sempre, e necessariamente, reducionista, limitativo.
Ora, as mudanças que interessam os psicólogos do desenvolvimento parecem superar as limitações inerentes à própria investigação científica e legitimar uma divisão natural, realista e consensual, de diferentes períodos, etapas, níveis ou estádios da ontogénese do comportamento humano. Porquê? 
Porque a simples observação do crescimento e maturação física mostra a evolução do bebé, á criança, ao adolescente, ao adulto e ao idoso, oferecendo assim uma sucessão objectiva de mudanças, cumulativas e qualitativas, que legitimam a divisão do ciclo de vida do organismo em diferentes idades, fases, períodos, etapas comuns a todas as pessoas.

Porque as mudanças fisiológicas, que vão marcando o ciclo de vida do organismo, estão aparentemente associadas à emergência de mudanças do comportamento, sucessivas, qualitativas e cumulativas, que são também relativamente universais ou comuns à maioria das pessoas, o que poderá também legitimar uma divisão natural, realista e consensual, do ciclo de vida das pessoas em diferentes fases, períodos, etapas, níveis ou estádios do desenvolvimento psicológico.  
E porque, desde há muito tempo, a observação dessa sucessão de mudanças induziu práticas educativas, sociais e culturais diversas e relativas a cada uma dessas fases, períodos, etapas, níveis ou estádios de crescimento físico e desenvolvimento psicológico.
Mas, será que a delimitação destas fases, períodos, etapas, níveis ou estádios do desenvolvimento psicológico tem sido, de facto, consensual e comum à maioria das pessoas, das sociedades e até dos investigadores da psicologia do desenvolvimento?
Por hoje, deixo os meus leitores, e particularmente os psicólogos, reflectirem sobre esta questão que parece tão simples, mas que continua, ainda hoje, a alimentar o debate científico na nossa disciplina.

Maria Stella Aguiar

segunda-feira, 10 de março de 2014

Da Psicologia: Rótulos, Estereótipos e Esquemas


Em termos sociais, os rótulos são as etiquetas usadas para definir alguém ou um grupo, algo ou um conjunto. Porque ocorre? Por associação directa à sua utilização anterior.
Assim, cada vez que um rótulo é utilizado, o sentimento, pensamento e comportamento associado ao que é rotulado, ocorre de forma mais célere, sendo mais fácil, para quem rotula, agir.

O que significa isto?

Um rótulo é um estereótipo. Uma ferramenta cognitiva que diminui as ligações psicológicas para sentir, pensar e agir, permitindo uma actuação com menos custos. No entanto, este funcionamento, assente em esquemas, pode ser funcional ou não funcional.
Quando este esquema assenta em preconceitos, a reação gerada pelo funcionamento esquemático daquela derivação nem sempre é a mais benéfica para a conclusão desejada à nossa interpretação. A situação em causa é interpretada de forma enviesada, e como o sentir, pensar e agir é célere e com baixos custos e recursos cognitivos, não é discutido e debatido psicologicamente o esquema a utilizar. É, assim, utilizado o esquema mais acessível, o do estereótipo em causa, e a acção é directa, sem passar por um filtro de controlo.
Se na maioria das vezes os estereótipos e esquemas são ferramentas essenciais da acção Humana, noutras vezes são situações de conclusão errónea para o ser Humano e, por isso, não adaptativas.
Mas não se enganem. É preciso querer que a adaptação ocorra. Se o erro for de bom grado para o próprio, por muito que seja perceptível a incorrecção do sentimento, pensamento ou comportamento, ele será mantido.
Mudar custa, mas faz bem.

Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 7 de março de 2014

[Mudança]: Isaac Newton era Agricultor


Isaac Newton era agricultor
- Como pode surgir o foco na criação de projectos sociais? -

“Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina, com o resplendor da tua fé e do teu amor. “
S.Josemaria Escrivá Caminho, n.1
Temos também em nós a natural mutilação de ideias, também somos nós os comedores de rasto. É aceite pela sobrevivência e pela luta contra o tempo-urgente: precisamos do chão de agora, do número e da data, do terreno fértil e da festa de inauguração.
Na concomitância, existe a espera, a criação, o encontro e o acaso, que são vizinhos e que às vezes dão-se mal.

Escuto-me.

As partículas de luz esperaram pelo acaso; apareceu o significado depois do encontro. Analogamente falo das ideias e da grande responsabilidade a que nos sujeitamos: sermos o motor que escolhe o agente, o objecto, a acção e a razão.
Tal como a luz, não se cria autoritariamente nenhuma lei, nenhuma ligação, nenhuma mudança. Colabora-se, com o encanto da atenção e da disponibilidade.
Naturalmente, se quisermos ser preconizadores de ideias, podemos pensar neste caminho: as pessoas procuram o encanto das raízes, do ser-aqui. A vivência de ser-aqui e não de ser-em-qualquer-sítio, do seria-igual-em-qualquer-sítio ou da vigência de se ser. As pessoas procuram através da sua natureza exploradora e existencial a forma de conhecer a história e a cultura, de se conhecerem e de se desenvolverem com a responsabilidade desse conhecimento. Reconhecerem a responsabilidade e a ideia. Respeitarem a alma, que só pode funcionar num único mundo de uma forma única, a alma como nuvem irrepetível e irreparável. A alma de estar, de ser, de crescer e de criar, que existe com alguém para este sítio e para este momento, como um júbilo do cosmos.
Por isso, que a questão do foco não nos atemorize. Onde está o foco? Treme a ciência, a investigação e os relatórios de projecto. Assustar-me-ia se perdesse eu um dia num jardim o motor que liga as ideias e as transforma numa e depois noutra.
Tudo o que já conhecemos e que respeito, porque foi, acredito, encontrado e criado para existir também - os prazos e a definição – dão-nos o prazer do movimento ao calendário; e esse prazer pode depois ser vazio, onde ao conseguir respeitar o número acaba depois o ventre do tempo. Para mim são essas as metástases da criação sem alma, sem vida e sem história.
Se a sobrevivência pede a definição, a definição também pede as raízes, a terra segura, quente e confortável, o sentimento de ter sido criada para ali e não para outro sítio. Chamo-lhe identidade.
Chamo-lhe conhecer de dentro para fora e repito a semântica: a história, a cultura, a primeira arte, as raízes, o encanto do bairro, o brilho do chão, as danças de anos, os sabores que se lêem, os instrumentos que se estudam, o tempo que não é dia nem é noite.
Porque acredito nas emoções e no compromisso com a humanidade, acredito também que a economia, a matemática e as leis da física são uma forma de sensibilidade. A economia avança também através da atitude emocional, de um trabalho reflexivo enérgico e sensível.
Também Newton estudou filosofia e teologia e depois viu e sentiu a maçã; pensou sobre a maçã; comeu a maçã. Também ele estava atento aos estímulos, à natureza, ao redor, ao redor de dentro. E teve ele a oportunidade para questionar mais e ficar encantado com isso, atento e disponível para o que o distanciava das leis.
Acredito, eu, que optar pelo poder de escolher, de limitar, de criar apenas no que conhecemos e para o que conhecemos pode funcionar se vivermos confortáveis com a hipótese escolhida. Mas também podemos finalmente ver coragem e ligar estímulos que viajam connosco para outra língua e para outros símbolos. O significado nasce e viaja e somos nós o seu veículo; e somos nós parte do motor.
Não posso ser mais objectiva, quando quisermos falar de foco. O foco é o momento certo e esse sabemos que existe, sabemos que o conhecemos e sabemos que é alcançado também através de encontros pela metodologia de contacto e de descoberta humana que se chama Intuição.
Quando um homem cria um objectivo e escolhe um foco, obriga-se a ser magnânimo. E pode ser. Mas as pequenas coisas estão neste momento a perder os olhos que as vêem e que se renovam sempre maiores quando trabalhamos com pessoas.
Aqui, quando acordamos, percebemos que foi criado o novo verbo.

Ana Rita Caldeira da Silva

terça-feira, 4 de março de 2014

O Contacto Humano


Estive sem acesso ao meu computador durante o fim-de-semana.
“Férias” pensariam alguns. “Algum descanso”, deveria eu pensar.
No entanto, não foram dias fáceis.
É extraordinária a diferença entre simples coisas do dia-a-dia. A dificuldade que é trabalhar, jogar, obter lazer por ver séries ou jogar algo.
Mais extraordinário quando as dificuldades seguintes ocorrem ao nível da comunicação, nossa com o mundo, do mundo connosco, da nossa obtenção de informação e consequente actualização nossa do que se passa no país e no mundo.

As relações interpessoais evoluíram, claramente, para passarem pela internet. É algo assustador. Não deixei de falar. Não estive isolado. Mas o sentimento que de algo faltou, está lá e bem presente.
Resta-me nunca esquecer que as relações humanas são feitas de contacto, presencial e vocal, de toque e experiência, onde duas pessoas devem interagir. Mais do que virtualmente, humanamente e presencialmente. A internet facilita imenso, sem dúvida, e sem ela, tendo em conta como evoluímos, a nossa vida seria muito, mas muito diferente. Tanto que deixo um desafio a qualquer um. Querem perceber como evoluímos dependentes da tecnologia? Desliguem, por 2 dias, o computador, a televisão e o telemóvel. Vivam. Aproveitem para lembrar e nunca esquecer que o contacto humano é que nos faz evoluir.

Tiago A. G. Fonseca

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[Coisas da Percepção]: Datas...

            Os dias funcionam como triggers.
            Activadores de esquemas, potenciadores de crenças e as percepções seguem-se.
         Realizam-se associações, recordam-se eventos, comportamentos, pensamentos e sentimentos que apenas são associados a tudo, excepto ao que os fez surgir: o canto do monitor com a data.
         A data, essa, pode nem ser a mesma. O ano é outro, o mês poderá ser diferente. Mas o que faz disparar os sentidos da mente, raramente, é linear. Coerente, sim. Mas nunca linear.
          Tudo é resultado da percepção. Umas mais funcionais que outras, umas mais emotivas do que outras, mas todas com o papel de alterar o nosso presente psicológico.
            Uns dirão que se devem controlar. Outros dirão que devem ser vividas.
        Eu cá digo que controlando-as, disfarçamos o seu efeito; vivendo-as, potenciamos a sua acção. Aceitar e integrar, parece-me o indicado.

            Tiago A. G. Fonseca

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Dia dos Namorados, por Ana Catarina Ferreira

Nos dois primeiros anos do meu namoro importei-me com o Dia dos Namorados, surpreendendo-me a mim mesma, que sempre o considerei apenas mais um dia.
Nos anos seguintes voltei a reconhecer a pessoa pouco romântica que há em mim, voltando a considerá-lo apenas o dia 14 de Fevereiro.

Afinal, teria Pascal razão? Tem o coração razões que a própria razão desconhece?

Eric Fromm (2002) distinguia vários tipos de amor, entre os quais o amor erótico, “o desejo de uma fusão completa, de uma união com uma outra pessoa”; e o amor maturo, “uma união sob a condição de preservar a integridade e a individualidade de cada um”.
Na verdade, parece haver algum consenso em Psicologia sobre a existência de duas categorias de amor: o amor romântico e o amor companheiro.

Durante a fase inicial, o amor romântico (“apaixonar-se”), há emoções intensas, tumultuosas e algumas vezes contraditórias (Gleitman, Fridlund & Reisberg, 1981/2011) e o nosso cérebro liberta oxitocina, vasopressina e dopamina, responsáveis pela construção de laços emocionais e pela vinculação (Zeki, 2007). Parece haver então uma forte necessidade de proximidade do outro, alterando até todas as leis da matemática, sendo usual ouvir as pessoas dizerem que 1+1=1.
Passado este pico emocional e químico, existe o amor companheiro, tornando-se mais relevantes a confiança, o interesse reciproco pelo bem-estar do outro e a semelhança de perspectivas. Nesta altura parece haver um equilíbrio entre a necessidade de Proximidade do outro e de Diferenciação dele, passando 1+1 a igualar 3, eu, tu e nós: “O amor faz com que o homem ultrapasse a sua sensação de isolamento e de separação e, no entanto, permite-lhe ser ele mesmo, manter a sua integridade. No amor dá-se um paradoxo: dois seres transformam-se num só e, no entanto, continuam a ser dois” (Fromm, 2002).
Ainda assim, não se preocupem os românticos, pois podem sempre existir picos de paixão. A propósito, este ano fiz bolachas em forma de coração.
Feliz Dia dos Namorados!

Ana Catarina Ferreira
(participação especial)

Bibliografia:
Zeki, S. (2007). The neurobiology of love. FEBS letters, 581(14), 2575-2579.
Gleitman, H., Fridlund, A. J., & Reisberg, D. (1981/2011). Psicologia (9.ª ed.) (D. R. Silva et al., Trads.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Fromm, E. (2002). A Arte de Amar. Cap.2: A Teoria do Amor, pp. 17-86. Lisboa: Pergaminho.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

[PREVENIcaNDO]: Quantos Lados Há?


Todos aqueles que trabalham com grupos, todos os que trabalham em contextos sociais desfavorecidos, todos os que trabalham com populações de risco já se confrontaram com a necessidade de se posicionarem. És dos nossos ou estás contra nós? Dás a cara ou passas despercebido? Intervir com grupos de risco coloca-nos numa posição estranha de nos identificarmos com eles. Como aprendi há uns largos anos atrás, as instituições que trabalham com populações segregadas, acabam de algum modo por ser encaradas como marginais, necessárias, talvez mesmo até nobres, mas regendo-se por regras necessariamente mais próximas da sua população do que da população em geral. Esse é o preço da proximidade e é um preço importante de se pagar em função do que é importante ser feito, numa sociedade em que o bem-estar colectivo é responsabilidade de todos.
Daí que pensar sobre o assunto, fazer pensar, é essencial no processo preventivo. Se vos dissesse que vos daria a possibilidade de descarregar um problema nas costas de alguém, vocês aceitariam? Se vos desse um autocolante e vos dissesse que esse autocolante era um problema e que vocês poderiam escolher alguém em quem o descarregar, aproveitariam? A dinâmica é simples. Todos os jogadores recebem um autocolante e por um período muito curto de tempo podem livrar-se do seu problema, desde que seja nas costas de alguém. E o que é que acontecesse? Alguns recusam-se a fazê-lo porque não querem sobrecarregar ninguém com o seu problema. Outros encaram a regra com entusiasmo e procuram activamente descarregar o seu problema, nos vizinhos, nas pessoas com quem têm mais à vontade, ou simplesmente em quem calhar. Por vezes no entusiasmo de descarregar colocam-se sem posições desfavoráveis e tornam-se alvo das descargas dos outros. Em consequência… uns acabam com mais problemas nas costas do que outros. Normalmente essas pessoas são aquelas que no momento indicado estavam no centro do grupo, acessíveis… Enquanto outras estavam na zona periférica do grupo, estrategicamente ou não, menos expostas… E a reflexão decorre com constatações e consciencializações que preparam os jogadores para uma nova rodada de problemas. Desta vez, aqueles que têm mais problemas nas costas estão mais limitados na sua movimentação. São mais lentos ou até mesmo estáticos, estão cegos ou impossibilitados de se defenderem. Esse é o peso dos problemas. Limitam-nos. O jogo prossegue porque há sempre novos problemas para descarregar. E com a aprendizagem anterior os jogadores entregam-se à dinâmica. E após nova descarga a reflexão regressa. Por vezes o centro do grupo esvazia-se porque se sabe que quem se põe a jeito apanha com mais problemas. Outras vezes os jogadores sobrecarregados recebem mais uns quantos problemas porque “assim como assim” eram quem estava mais à mão de semear. Outras vezes ainda alguns jogadores percebem que podem trocar problemas dando o seu em troca do outro. E a compreensão estabelece-se que os problemas, quando bem distribuídos não representam sobrecarga para ninguém. E que o medo irracional do mal que os outros nos podem fazer torna-nos jogadores ferozes que se protegem dos outros e se possível se livram do que os sobrecarrega.
E, finalmente, se jogássemos este jogo em grupo, cada um deles com os seus elementos frágeis, lentificados ou paralisados, cegos ou impossibilitados de se defenderem, o que é que aconteceria. Alguns grupos escolheriam estes elementos como alvo nas equipas adversárias. Outros protegeriam os seus elementos frágeis abdicando do ataque aos outros, outros ainda encontrariam estratégias para que todos pudessem ser parte activa quer no ataque quer na defesa. Mas nunca, mesmo nunca, vi duas equipas trocarem de problemas dando o seu em troca dos outros.
E quando pensamos sobre isto é inevitável pensar de que lado estamos? Do nosso, do deles ou do de todos? Do lado de dentro ou de fora? Na frente ou atrás? Acima dos outros, ao lado ou abaixo? Ou conseguimo-nos ver entre lados, equidistantes, preenchendo vazios, ligando partes?
Como nos posicionamos para ajudar? Ensinamos estratégias de defesa ou de ataque? Motivamos para novas batalhas? Acolhemos as descargas que resultam da revolta, da marginalização, do sentimento de injustiça? Ou ajudamos a crescer num mundo onde os problemas se descarregam mais do que se partilham?


Raúl Melo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

[Grandes Nomes]: Sigmund Freud (1856-1939)

Sigmund Freud nasceu a 6 de maio de 1856 em Freiberg, na Morávia (actualmente Pribor, na República Checa). Quando Sigmund Freud tinha quatro anos de idade, ele e os seus pais mudaram-se para Viena, cidade onde permaneceu por quase 80 anos. Grande parte da sua teoria possuía base autobiográfica, resultante das experiências e recordações da própria infância.
Freud apresentava características como autoconfiança, ambição, o desejo de grandes realizações e o sonho de fama e glória. Ele disse ”um homem que foi sem dúvida alguma o preferido da mãe mantém durante a vida o sentimento de um conquistador e a confiança no êxito que muitas vezes induz à concretização do sucesso”.
Entrou na escola um ano antes do habitual e era considerado um aluno brilhante, formando-se com distinção aos 17 anos. Falava alemão e hebraico, estudou Latim, Grego, Francês e Inglês. Além disso, estudava sozinho Italiano e Espanhol. Exposto à teoria de Darwin, interessou-se pela visão científica do conhecimento, decidindo assim estudar medicina.
Ingressou em 1873 na University of Vienna. Tendo demorado oito anos para se formar. Especializou-se em biologia. Mudou para a fisiologia e realizou um trabalho sobre a espinha dorsal do peixe, passando seis anos debruçado sobre o microscópio no instituto fisiológico. Durante esses anos na universidade, Sigmund Freud realizou experiências com cocaína, que naquela época não era uma substância proibida. Ele próprio fez uso da droga tendo introduzido a substância na prática médica. Ficou entusiasmado com o seu efeito e disse que a droga amenizava a sua depressão e a indigestão crónica de que sofria. Carl Koller, um dos colegas médicos de Freud, depois de ouvir sem querer uma conversa em que ele falava da droga, conduziu a própria pesquisa e descobriu a possibilidade do uso da cocaína como anestésico para o olho humano, facilitando, assim, os procedimentos cirúrgicos para o tratamento dos distúrbios oculares.
Sigmund Freud queria continuar a pesquisa científica no entanto Ernst Brucke, o professor da escola de medicina e director do instituto fisiológico onde ele trabalhava, desencorajou-o por razões económicas. Sabendo que Brucke estava certo, decidiu realizar os exames de medicina e começar a atender pacientes particulares para melhorar as suas condições financeiras. Recebeu o título de doutor em medicina em 1881 e começou a trabalhar como neurologista.
No dia 15 de Outubro Sigmund Freud fez uma conferência sobre a histeria masculina na Sociedade dos Médicos. Em 1887, um mês depois do nascimento de sua filha Mathilde (Hollitscher), Sigmund Freud conheceu Wilhelm Fliess, brilhante médico judeu que fazia pesquisas sobre a fisiologia e a sexualidade.
Sigmund Freud começa a utilizar os meios de que dispunha, a electroterapia de W.H. Erb, a hipnose e a sugestão.
Freud distinguiu três níveis de consciência:
- Consciente;
- Sub-consciente;
- Inconsciente;
No entanto, o ponto nuclear da abordagem psicanalítica de Freud é a convicção da existência do inconsciente como um receptáculo de lembranças traumáticas reprimidas e um reservatório de impulsos que constituem fonte de ansiedade, por serem socialmente ou eticamente inaceitáveis para o indivíduo.
A perspectiva psicanalítica de Freud surgiu no início do século XX, dando especial importância às forças inconscientes que motivam o comportamento humano. Freud, baseado na sua experiência clínica, acreditava que a fonte das perturbações emocionais residia nas experiências traumáticas reprimidas nos primeiros anos de vida. Freud acreditava que a personalidade se forma nos primeiros anos de vida, quando as crianças lidam com os conflitos entre os impulsos biológicos inatos, ligados às pulsões, e as exigências da sociedade.
Considerou que estes conflitos ocorrem numa sequência de fases baseadas no desenvolvimento psicossexual, no qual a gratificação se desloca de uma zona do corpo para outra – da zona oral para a anal e depois para a zona genital. Em cada fase, o comportamento, que é a principal fonte de gratificação, muda – da alimentação para a eliminação e, eventualmente, para a actividade sexual.
Das cinco fases do desenvolvimento da personalidade, Freud considerou as três primeiras - relativas aos primeiros anos de vida – como sendo cruciais.
Freud propôs ainda três instâncias da personalidade: o id, o ego e o superego.
Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por factores ou energias inatas, que chamou de pulsões. Freud também acreditava que a líbido se desenvolvia nos indivíduos através de investimentos objectam, ou trocas com objectos. Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objectos possa ser uma fonte de prazer. O desenvolvimento psicossexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa; a etapa anal; e a etapa fálica.
Freud morre em Londres em Setembro de 1939, deixando estes importantes contributos para a psicologia, sendo no entanto bastaste criticado por diversos outros autores, como por exemplo Karl Popper.


Margarida Rodrigues