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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

[PREVENIcaNDO] O Nosso Espaço


A identidade de alguém constrói-se no espaço. Em termos de desenvolvimento, é na exploração do que está para além do conforto materno, com a aquisição da marcha, que a separação / individuação ganha efectividade. É na forma como esse espaço é explorado, no sentimento que envolve essa actividade, a maior ou menor ansiedade do adulto, a segurança de que o outro não desaparece com o afastamento, que se gera a confiança essencial na abertura ao mundo.
Alguns autores consideram que o mapeamento do real, a forma como nos posicionamos face ao que nos envolve, a capacidade de nos perdermos e nos reencontrarmos, tem a sua raiz nesse processo de estabelecer uma distância face ao objecto primário. A distância assim criada, cria espaço para o preenchimento de memórias e referências passíveis de serem evocadas na ausência. Esse preenchimento, essa evocação garante uma atitude tranquila face ao desconhecido. De algum modo o caminho de regresso será encontrado e uma cara conhecida nos esperará para ouvir a nossa história, as nossas aventuras.

Com o crescimento, muda o enredo, mudam os contextos, mudam os personagens, mas de algum modo repete-se a história. Itálo Calvino fala-nos da importância de descobrir o mundo para reforçar o sentimento que o nosso espaço, a nossa cidade é uma, é aquela onde nos sentimos bem e à qual regressamos sempre, mesmo quando maravilhados com o que o mundo nos oferece.
E como se gera esse espaço de pertença? O jogo de construção desse espaço não é simples nem tranquilo. Nem sempre é possível haver um quarto próprio. Nem sempre as nossas coisas, os nossos objectos são só nossos. Mas aquele que é possível, é recheado por nós com marcas que nos dizem e dizem aos outros que aquele espaço é nosso. Se esse espaço está dentro na nossa casa, tem os nossos desenhos, ou os nossos posters, os autocolantes, ou a roupa e o cheiro que só por nós é tolerado. Mas quando a densidade de ocupação da nossa casa o impede, saímos para espaços mais amplos procurando sítios que possamos chamar nossos. Pode ser o sítio onde jogamos à bola, o café onde os amigos se encontram invariavelmente, ou pode ser o lugar resguardado da vista dos outros onde acontecem coisas que não confessamos. Também esses lugares são por nós marcados, com o que mais tem a ver connosco, tags, graffitis, garrafas vazias, sons batidos pela noite fora…
Fazemos do espaço público o nosso espaço por umas horas para, pela manhã voltarmos à procura de novos contextos, uns mais organizados, outros ameaçadoramente marcados pela marginalidade outros ainda, plenos de oportunidades prontas a serem aproveitadas por quem tiver unhas para as agarrar. Este vai e vem entre espaços, entre pertenças, entre facetas da nossa vida, é entremeado pelas vidas dos outros que ocupam os espaços por nós deixados, as oportunidades por nós não aproveitadas, numa dinâmica fluida de coabitação.
A consciência deste processo é essencial na intervenção preventiva. O reconhecimento da importância do nosso espaço, a consciência do papel dos outros na consolidação desse território, na forma como exigem que o defendamos ou no modo como o respeitam, são conteúdos nucleares na dinamização de um grupo. O que torna um espaço, o nosso espaço? Numa qualquer sala somos capazes de o escolher pela luz, pela vizinhança, pela tranquilidade, ou simplesmente por estar livre. Como o ocupamos? Sentámo-nos nele, deitamo-nos, preenchemo-lo com o que temos no bolso, delimitamo-lo para que os outros lhe conheçam os limites. E como o abrimos à existência dos outros? Convidamo-los a entrar? Mantemo-los à distância? Trocamos de lugar com os outros? Com quem? Com aqueles que nos são mais próximos? Com aqueles com quem estamos mais à vontade? Com aqueles que nos chamam mais à atenção ou com aqueles que estão do outro lado da sala? As regras simples do jogo obrigam apenas ao estabelecimento de um contacto visual, um rudimentar sinal de combinação obrigatoriamente silencioso (não é permitido falar) e o arriscar da troca. Por vezes à má interpretação de sinais conduz a falsas partidas, a desvios a meio do caminho, a perdas de espaços conquistados. Como na vida real, aliás. E na reflexão que se segue, entre risos e desabafos, confessa-se o engano, a sedução, a satisfação e outras coisas mais que emergem da acção. O sentido da exploração do mundo lúdico, de braço dado com a descoberta do mundo real, reforça a reinvenção de sentidos e significados. A possibilidade de os viver, consciencializar e partilhar, é a base da reescrita de uma história vivida e contada muitas vezes. Mas na dinâmica preventiva, no seio do grupo de treino de competências pessoais e sociais, o tempo pára para que a palavra empreste algo mais à simples passagem ao acto.

            Raúl Melo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

[PREVENIcaNDO]: Tempo


É cedo, são seis da manhã e estou atrasado a caminho para o aeroporto. As viagens deixam-me sempre muito acelerado. Há todo um fascínio na ida para outro país mesmo quando o motivo é trabalho. O fuso horário muda, as gentes mudam, o ritmo muda. Contudo não muda da mesma maneira para todos. À minha volta há quem corra (mais do que eu), há quem se arraste pelos acessos às portas de embarque (afinal de contas não deixam de ser seis da manhã), há quem se descontraia, há que se exercite, há quem já jogue um jogo qualquer na consola. O tempo, sendo comum a todos, é ao mesmo tempo tão diferente. Para uns pode ser denso, para outros fluido, para uns pode ser viscoso, chato e interminável, para outros é solto e rápido. No entanto, estamos todos no mesmo tempo. Ou não estaremos? Se isso é indubitável no que diz respeito ao tempo físico, já não o é no plano biológico (idades, origens geográficas, sexos,…) ou no plano psicológico (tristeza, alegria, stress, tranquilidade,…) em que a vivência do tempo é muito diferente.

Usei frequentemente nas minhas dinâmicas de grupo, o exercício de dar a pessoas diferentes, uma tarefa de natureza variada e pedir-lhes que contassem tempo. Assim, enquanto uns corriam pela sala, outros enfrentavam as paredes, outros tinham de olhar fixamente os olhos de um desconhecido, enquanto outros ainda se mantinham em posições que diferiam na escala de desconforto. Invariavelmente o mesmo intervalo de tempo esticava ou encurtava consoante a contagem era feita por alguém que se sentia bem ou mal na tarefa.
Porque é que eu usava esta dinâmica num grupo de formação? Porque frequentemente nos confrontamos com situações em que reagimos aos outros sem levar em consideração a sua vivência particular do tempo. O contexto escolar, por exemplo, obriga a processos muito complicados de adaptação a ritmos e tempos diferentes. A cadência da exposição do professor, o “compasso” das diferentes matérias, o impacto do relógio de necessidades do nosso corpo, marcam de forma diversa o estar nas aulas. O cruzamento dos diferentes “estares” provoca uma cacofonia desarmoniosa frequentemente mal entendida e mal gerida por todas as partes. Mas também em casa esta realidade se verifica. É frequente que quando os mais velhos começam a acordar estão os mais novos a pensar em dormir ou vice-versa consoante a fase do ciclo de vida. De acordo com as tarefas, constroem-se críticas em torno do ritmo de trabalho ou do ritmo de laser. Nem sempre se encontram tempos compartilhados ou simplesmente ritmos paralelos. E se tal não acontece como se pode esperar uma construção conjunta, ou diálogo uma partilha? São já bastantes os projectos e programas de trabalho que fazendo da promoção de um tempo – interno e externo – comum, um ponto de partida para o entendimento, concentração e entrega. Este tipo de abordagem tem expressão em contextos tão diferentes, quanto o escolar, familiar, organizacional, clínico entre outros. É muito curioso pensar como o tempo pode dar espaço à relação, ao conhecimento, à consciência de si e dos outros. Da mesma maneira é curioso perceber como o espaço pode dar tempo à relação, ao sentimento, à identidade. Mas disso falaremos noutro dia.
Neste momento são oito da manhã. A correria deu lugar a um voo tranquilo e os pensamentos fugidios puderam finalmente concretizar-se neste pequeno texto que estava em atraso. E do tempo investido se gera tranquilidade e da tranquilidade emerge um tempo de qualidade. Fechemos os olhos e descansemos enfim…

Raul Melo

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[Comboio do Desenvolvimento]: O Comboio

Um Comboio para o Desenvolvimento Psicológico

Jean Guitton, um filósofo católico francês, na autobiografia intitulada “Um século, uma vida” conta-nos como, desde a atracção que sentia pelo “Rápido de Paris”, chegou ao tema que o iria apaixonar toda a vida, o Tempo e a Eternidade. Talvez porque este livro foi o primeiro de muitos outros traduzido pela minha mãe e talvez porque o acaso da vida me faz ouvir periodicamente o comboio de Cascais, também para mim este som familiar tem o poder evocar o tempo, não só o tempo intemporal e eterno, mas o tempo do nosso próprio desenvolvimento psicológico.
Porque, sempre que o combóio passa, o som muda e evolui, primeiro leve e longínquo, depois cada vez mais forte e mais próximo e, por fim, de novo, mais e mais esbatido e distante. Porque o comboio passa todos os dias, regularmente, e aquele som familiar vai marcando o presente, que logo se transforma em passado e que, antes, era esperado como futuro. E também porque a passagem regular daquele comboio parece eterna, sempre outra e sempre igual, como se o tempo nada mudasse e apenas reproduzisse uma sucessão de sons familiares e também como se o tempo tudo mudasse, porque muda sempre a experiência de quem o pressente.

Veremos então como esta simples experiência de um comboio que passa nos transporta para algumas dimensões básicas e fundamentais do desenvolvimento psicológico de cada um de nós e, porque não arriscar, das comunidades humanas, em geral.

Embora este objectivo possa parecer muito global e até demasiado teórico, acredito que não o é.
Neste espaço que me foi aberto pelo Tiago Fonseca, um dos meus estudantes de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Lisboa que nunca mais pude esquecer, pretendo apenas retomar e continuar a reflectir sobre a questão que ele próprio colocou a duas jovens que frequentam hoje o 2º ano dos nossos cursos:

“Psicologia. Porque continua a fazer sentido?”
            É, de facto, uma questão importante! Recordemos então o que nos diziam a Ana Mesquita e a Filipa Vieira.
“Porque cada cantinho do mundo é influenciado por nós, e…perceber um pouco do que nos move, é perceber mais um pedaço…desse mundo que também é nosso…Porque continua a ser-me imprescindível uma maior compreensão dos outros e, acima de tudo, de mim, enquanto indivíduo genérico e enquanto eu, passado, presente e possível futuro” (Ana Mesquita).
Porque é bom sentir que consigo com algumas palavras ajudar bastantes pessoas a conseguirem continuar com as suas vidas… Basicamente aquele é o meu motivo: ajudar as pessoas através de palavras e de apoio” (Filipa Vieira).

Acredito que, de uma forma ou de outra, toda a história do pensamento e do conhecimento se dirige ao homem e procura promover o bem-estar, físico e psicológico, de todos e de cada um de nós. A teologia e a filosofia querem conhecer o porquê de Deus, do universo e do pensamento humano; muitas e diversas ciências querem descrever e compreender, de forma objectiva, como é, como funciona e como se pode controlar, o mundo físico e os seus organismos; mas, só a psicologia procura conhecer e pensar, mais e melhor, a conduta humana, essa experiência de relação do homem consigo mesmo e com o seu mundo físico e social.
Ora, por um lado, é precisamente essa experiência, essa representação que nós próprios construímos, que tem o poder de transformar o mundo no nosso mundo e que tem, por isso, o poder de transformar os tempos de vida de cada um de nós em espaços de tristeza ou de bem-estar, em fases de regressão ou de desenvolvimento pessoal, em síntese, que tem o poder nos ir transformando, pouco a pouco, em pessoas psicologicamente mais ou menos equilibradas e felizes. Por outro lado, é precisamente esse objectivo, esse conhecimento e compreensão da conduta e da experiência humana que permitem ao psicólogo ajudar os outros e a si próprio através de formas de avaliação e de ajuda de natureza relacional, interpessoal e intersubjectiva.

Concluindo, também para mim, a Psicologia e, particularmente a Psicologia do Desenvolvimento fazem sentido, pois propõem uma conjugação do objecto e do método de conhecimento que lhe é própria e que não se encontra em qualquer outra disciplina.    
Mas, ainda se lembram do comboio? Cada vez que passa, parece sempre igual e sempre diferente.
Então, daqui a uns dias, começaremos a reflectir sobre esta imagem e sobre o sentido do conhecimento científico e da prática em psicologia do desenvolvimento.

M. Stella Aguiar

Referências
Guitton, J. (1995). Um século, uma vida. Coimbra: Gráfica de Coimbra, Lda.